Wallace Andrioli Guedes*

Dentre os muitos nomes da Hollywood dos anos 30 e 40 citados em Café Society, está Billy Wilder. O diretor de origem austríaca, um dos maiores da história do cinema, no entanto, não é uma mera menção no filme de Woody Allen. Ainda que não deixe isso claro logo de início, Café Society tem uma forte ligação com Se Meu Apartamento Falasse (1960), provavelmente a obra máxima de Wilder. Ambos os filmes narram as desventuras de um little man que se apaixona pela amante de seu chefe, sem saber que ela ocupa essa posição, e o desenrolar proposto por Allen na primeira metade de seu filme se assemelha bastante ao que acontece em Se Meu Apartamento Falasse: os encontros furtivos num bar escuro entre o tal chefe e a amante, a frustração do protagonista ao ser preterido e a descoberta do imbróglio a partir de um objeto anteriormente referido na narrativa (em Wilder, um espelho partido; em Allen, uma carta emoldurada).

No entanto, o agora octogenário diretor nova-iorquino introduz um elemento novo nessa equação: dessa vez, o personagem do chefe (Steve Carrell) não é um completo escroto como o Mr. Sheldrake vivido por Fred McMurray em 1960, mas alguém verdadeiramente apaixonado pela amante (Kristen Stewart), de fato angustiado diante da decisão de continuar ou não com seu casamento e, pior, tio do protagonista (Jesse Eisenberg). Isso produz consequências na narrativa de Café Society, sobretudo em sua segunda metade, levando o filme para um pouco mais longe de Se Meu Apartamento Falasse. A obra-prima de Wilder só retorna no final, quando Allen conclui sua releitura ressaltando os efeitos decorrentes dessa pequena, mas importante, novidade: no lugar da esperançosa última cena com Jack Lemmon e Shirley MacLaine juntos no mesmo quadro, Stewart e Eisenberg surgem melancolicamente separados, em planos (e cidades) distintos; Allen substitui a simetria perfeita da composição final de Wilder por um último plano de seu protagonista sozinho, olhando para um palco vazio. É de cortar o coração.

É interessante notar, portanto, como o diretor, frequentemente acusado de se repetir (nos temas, nas referências cinematográficas, literárias e musicais, nos atores, na caracterização dos personagens etc.), estabelece aqui um diálogo direto não só com seu próprio cinema (Café Society tem todos os elementos esperados de um filme de Woody Allen), como também com um grande clássico do passado, ousando propor um passo além na proposta narrativa desse último. Como nos dostoievskianos Crimes e Pecados (1989) e Match Point (2005), em que Allen desenvolveu tramas muito semelhantes a partir de duas chaves distintas – o livre arbítrio no primeiro caso, a sorte no segundo –, a repetição de Se Meu Apartamento Falasse em Café Society traz também inovação, invenção. Ou seja, ao contrário do que olhares apressados costumam enxergar, Allen está longe da acomodação que lhe é por vezes atribuída. Seu cinema continua vivo, em movimento, lúdico, pois disposto a jogar com si próprio e com a história da expressão artística da qual é parte.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.premiereline.com.br/2016/04/cafe-society-filme-de-woody-allen-ganha.html&gt;. Acesso em: 21 set 2016.

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