*Pedro Benetti

O futebol é mais do que um jogo. É um fenômeno social que captura a atenção de bilhões de pessoas ao redor do mundo. Observado de muitas perspectivas, com frequência ele é tratado como representação da sociedade em que vivemos. Os críticos ressaltam uma superlativa reprodução dos piores comportamentos humanos: xenofobia, racismo, homofobia, machismo e outros. Os amantes do velho esporte lembram o apelo popular, as improváveis histórias de superação – especialmente em países periféricos -, a força da ação coletiva nas arquibancadas, melhor representada na palavra paixão.

No decorrer do século XVII, Foucault identifica a existência de três formas de ilegalismo – popular, comercial e privilegiado, arbitrados por uma quarta forma de ilegalismo, a do poder, que concede ou limita, legitima ou coíbe os demais em momentos específicos – que por vezes concorriam entre si, mas de maneira geral eram fundamentais para a compreensão da ordem então vigente. Segundo o filósofo francês, “não se pode analisar algo como uma lei e uma proibição sem os situar no campo real do ilegalismo dentro do qual funcionam. Uma lei só funciona e só se aplica dentro de um campo de ilegalismo que é efetivamente praticado e que, de certo modo, a sustenta”. Fazendo um uso bastante livre destas reflexões, é possível afirmar que o futebol é um espaço interessante para a apreensão de certas formas de ilegalismo e suas relações com a ordem contemporânea. O futebol e seus ilegalismos caminham na margem e à margem do capitalismo de hoje e das instâncias de poder existentes em nosso mundo.

Na margem porque exerce uma função fundamental no limite entre a legalidade e a ilegalidade, permitindo o trânsito de capitais, a lavagem de dinheiro produzido em atividades ilícitas e a passagem de recursos e pessoas da ilegalidade para o mundo considerado legitimo. A primeira divisão do futebol inglês constitui um exemplo claro do que estamos falando. Para lá convergem recursos provenientes da exploração do petróleo no Oriente Médio, das privatizações das empresas russas de gás após o desmonte da URSS e de grandes conglomerados de entretenimento dos Estados Unidos, para ficar apenas nos casos mais conhecidos e óbvios. Muitos desses recursos, produzidos em condições pouco transparentes, encontram no livre e desimpedido espaço do futebol inglês o lugar ideal para se legalizar e, talvez mais do que isso, se legitimar socialmente. Não por acaso, de maneira concomitante à abertura do futebol inglês ao capital internacional ocorreu um acelerado processo de elitização dos estádios no país, restringindo severamente o acesso das camadas populares aos jogos. Tal processo vem acompanhado de um discurso que associa pobreza à violência e, por consequência, riqueza à civilidade.

É essa mesma racionalidade que preside as decisões daqueles que hoje exercem o poder no futebol brasileiro, notadamente cartolas (na CBF, federações estaduais e clubes), políticos (principalmente na Câmara dos Deputados, mas também nas gestões estaduais que organizaram os preparativos para a Copa de 2014) e a Rede Globo de televisão (tanto na figura de seus executivos como na de seus comunicadores). Os pobres são tidos como selvagens, incapazes de atender os parâmetros mínimos do que “acordamos” serem as regras de convívio social. Por esse motivo é preciso expulsá-los dos estádios, não apenas simbolicamente, na restrição dos seus costumes, mas fisicamente, através dos preços cobrados e da própria demolição de seu lugar de existência. Não foi outra a razão da demolição das arquibancadas do Maracanã. Mais do que atender a um novo padrão de conforto, era preciso eliminar uma memória e uma identidade, impregnadas em cada degrau de concreto daquele lugar. As relações entre o poder econômico (Odebrecht) e  o poder político (particularmente no governo Cabral) durante a renovação (destruição) do Maracanã fornecem ainda mais um exemplo do futebol operando na margem que existe entre legalidade e ilegalidade. Entretanto, o futebol opera também à margem, para além dela.

À margem porque em seu âmbito produzem-se importantes formas de resistência popular à avassaladora mercantilização da vida que marca os nossos tempos. A partir dele forjam-se identidades coletivas e práticas que tencionam os poderes constituídos descritos anteriormente. Como exemplos de tais práticas podemos citar as frequentes invasões dos estádios, como forma de combater os altos preços estipulados, o contrabando de fogos de artifício e sinalizadores para as arquibancadas e as muitas brigas entre torcedores rivais. Nestas práticas pode-se perceber o funcionamento do ilegalismo do poder anteriormente mencionado. A polícia e os cartolas, que exercem o poder, sancionam algumas destas práticas e coíbem outras em um jogo errático que alimenta o ilegalismo popular que se constrói a partir delas.

Do ponto de vista das identidades coletivas, as músicas entoadas nas arquibancadas ocupam lugar central. Para entender o que isso significa é preciso ir ao estádio e, além de ouvir, sentir o efeito que os cantos têm sobre o conjunto de pessoas que ali está. A cancha de Barrio Flores, onde joga o San Lorenzo de Almagro, clube dos mais populares da capital argentina, oferece bons exemplos. Localizada em um dos bairros mais pobres da cidade, o estádio foi construído após o governo militar forçar a venda da antiga casa do clube, em Boedo, para o grupo Carrefour. A pressão dos militares contra o clube articulava um projeto político de associação aos centros internacionais do capitalismo ao mesmo tempo em que atacava um espaço de encontro e resistência popular. Desde que perderam sua casa, os cuervos cantam o retorno a Boedo como uma volta à terra prometida. Esses cantos forjam uma identidade de resistência e marcam as diferenças da torcida do clube em relação àquelas consideradas mais elitizadas, como a do River.

River, vos sos gallina

Vas a la cancha cuando gana y de local

Hoy San Lorenzo te va a enseñar

Las sensaciones que el futbol te puede dar

Alegrías y tristezas de vivir una pasión

Esa que el hincha de River no lleva en el corazón

Por eso quiero contarte

Que le importante de fútbol es la pasión

Si solo sirve salir campeón

Sería lo mismo verlo por televisión

Mientras le ponen butacas

A toda la popular

La fiesta de San Lorenzo

Nunca vas a igualar

Somos tan diferentes

Vos sos platea y nosotros popular

Si hasta en la gente podes notar

Que diferente es la manera de pensar

Esta hinchada hizo la cancha

Y jamás olvidará

Que la tuya te la hizo

El gobierno militar

As músicas no estádio são lições de alegria e sofrimento, resistência e aguante. Isso não elimina do futebol todas as suas contradições, a maneira como articula ilegalismos diversos e antagônicos. O objetivo deste texto não era chegar a uma conclusão qualquer sobre o lugar que o futebol ocupa em nosso mundo, sua natureza, seu potencial transformador ou reificador da ordem. A ideia era simplesmente levantar alguns pontos que nos permitem pensar e sentir o futebol como uma experiência que constrói nossa memória coletiva e, consequentemente, nossa identidade. Na margem dos campos forjamos possibilidades de resistir e reafirmar a força da cultura popular.

*Pedro Benetti é meio-argentino e militante diário pelo Nunca Más!, além de colaborador da Escuta

Crédito de imagem: http://obviousmag.org/archives/2011/02/o_torcedor_de_futebol_um_enigma_1.html Acesso em 18/09/2016

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