Diogo Tourino de Sousa*

No regionalismo brasileiro, “boi de piranha” é aquele entregue ao sacrifício pelos boiadeiros em rio de piranha, para que o restante da manada possa seguir seu curso em segurança. Creio ser esta a melhor descrição para a sorte do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), menos por vontade própria, claro, e mais pela força das circunstâncias.

O fato é que talvez por capricho do destino, ou pelo ordinário nada honroso da política que se impõe, Cunha passou de um dos mais influentes políticos do Congresso Nacional – eminência parda para a maiorias dos cidadãos até bem pouco tempo atrás, mas presença constante nas negociações parlamentares –, vértice do processo de culminou no impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, para, agora, o “boi de piranha” da vez.

Cassá-lo representou, por certo, a chance de boa parte da classe política de resguardar o pouco prestígio que ainda lhe resta em meio ao turbulento cenário atual. Não por acaso, mesmo os antigos aliados já haviam o abandonado há algum tempo. Basta lembrar a figura esdrúxula do deputado Wladimir da Costa (SD-PA), agora ele mesmo cassado pelo TRE do Pará por ilicitude nas contas de campanha, que se manteve ao lado de Cunha durante todo o processo de acolhimento da denúncia contra Dilma, protagonizando uma lamentável cena ao declarar seu voto em plenário, até surpreender a todos, votando pela abertura do processo contra o então presidente da Câmara no Conselho de Ética da casa.

Mais recentemente, mesmo o Planalto de Michel Temer, seu aliado de partido e principal beneficiado pelas manobras de Cunha para chegar ao poder da forma como chegou, silenciou sobre um eventual apoio. Aliás, a ausência do líder do governo na sessão que cassou Cunha pelo acachapante placar de 450 a 10 (com 9 abstenções), foi denunciada por todos os parlamentares de oposição.

O fato é que ainda que a política seja pródiga em nos pregar peças, temos claros sinais para afirmar que Eduardo Cunha é carta fora do baralho. Seu mandato foi entregue de bandeja para a oposição, como sinal de que o governo Temer e sua malta estão dispostos e perder alguns anéis a afim de manter os dedos.

Mas um dado não pode ser negligenciado. Cunha não se entregou ao sacrifício de forma suave. Diferentemente, seu discurso de defesa na sessão de segunda foi um misto de pródigo domínio das rotinas processuais com aberto e odioso reconhecimento do seu papel na deposição de Dilma. Algo manifesto, dentre outros, no momento em que diz: “Alguém aqui duvida que sem a minha atuação esse impeachment não sairia?”.

A lembrança não foi em vão. Seu ato “derradeiro” de defesa afirmou ser ele alvo de uma “perseguição”, fruto do afã da oposição em encontrar um “troféu para chamar de golpe”. Na prática, o argumento pouco produziu a curto prazo. Todavia, a médio e longo prazo Cunha pode estar ainda disposto a se defender.

Isso porque, não cabe a ele a pecha que ouvi em algum lugar, de dizer que Cunha é o “cachorro que caiu da mudança”. Jamais. Por mais que Temer esteja momentaneamente graçando no Planalto, essa figura sombria, que errou ao subir a aposta acima do que era capaz de aguentar (ou errou em termos, visto que só na rodada derradeira foi derrotado), não parece se conformar com o martírio.

Apenas a título de comparação, José Dirceu pode representar o exato oposto. Ao passo em que ele seria capaz de se entregar em nome da causa, cortando na própria carne pela defesa do projeto, Cunha não o faria. Mesmo porque, não há propriamente um projeto para além dos interesses difusos que unem a classe patronal. Não há um laço que aproxime, mas apenas interesses circunstanciais que forjaram uma “súcia” fugidia.

Isso talvez nem dê a Cunha a sensação da “traição”. Não, ele não foi traído. Apenas momentaneamente trocado. O que está em disputa, ainda, é do que Cunha é capaz, menos para voltar ao proscênio, e mais para salvar os seus.

A ofensiva final que pode custar, além dos anéis, também os dedos do governo é o avançar das investigações sobre Eduardo Cunha e, como seu ponto fraco, sobre sua esposa e filha. Parece ser esta a única fragilidade do ex-deputado, que não barganhou suas informações em troca do mandato, sendo cassado pela esmagadora maioria dos pares.

Conforme disse, não acho que isso se deu por sacrifício voluntário, mas sim por mais uma estratégia, a saber, conservar sob as mangas seu trunfo para salvar quem ainda importa, para salvar os seus. Se assim for, a manada que terá corrido segura é a menos evidente, ainda que o “boi de piranha” tenha enevoado momentaneamente o duro golpe sofrido por nossa democracia.

*Diogo Tourino de Sousa é um dos editores da Escuta.

Crédito de imagem: Agência Brasil Fonte: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/teori-manda-investigacao-contra-cunha-para-sergio-moro Acesso em: 15 set. 2016

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