Fernando Perlatto*

A visita ao Museu de Arte de São Paulo (MASP) já se justificaria apenas pela possibilidade de apreciar os cavaletes de cristal criados por Lina Bo Bardi, que com suas bases de concreto e chapas transparentes, servem de suporte para a exposição do acervo permanente do museu, intitulada Acervo em transformação, com mais de cem obras de artistas nacionais e internacionais como Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Djanira, Picasso, Van Gogh, Monet, Rivera, Modigliani. Os cavaletes de cristal de Bo Bardi, inaugurados em 1968, tinham sido utilizados pela última vez em 1996 e, desde então, o público havia sido privado de vê-los, tendo eles retornado novamente para a exposição no final de 2015 sob as mãos da nova curadoria do museu. Os cavaletes têm um aspecto leve, clean, livre, como é característico da obra de Bo Bardi – basta pensar, por exemplo, na “Casa de Vidro” (1951) – e têm o potencial de inserir o visitante em uma experiência renovada e diferenciada de fruição da arte. Com os cavaletes, sente-se estimulado a escolher livremente seu itinerário e a circular de forma mais livre pela sala da exposição, sem quaisquer imposições de ordem.

Porém, para além dos cavaletes de cristal de Bo Bardi, a ida ao MASP se justifica pela possibilidade de visitar a bela exposição Portinari Popular, que teve início no dia 20 de agosto e permanecerá até 15 de novembro. Com curadoria de Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, a exposição, baseada em uma concepção de Bo Bardi para Cem Obras-Primas de Portinari, mostra realizada no MASP em 1970, tem um recorte específico, voltada para a exibição de obras do artista que têm como foco “temas, narrativas e figuras populares”. Ao todo, 54 imagens compõem a exposição, transitando por temas diversos, sempre dialogando com o universo “popular”.

Ainda que tenha ficado mais conhecido do grande público por obras como os dois enormes painéis Guerra e Paz, instalados em 1957 no hall de entrada da Assembleia Geral da sede da ONU – e que circularam recentemente com o “Projeto Portinari” em um périplo por diferentes cidades do país, –, Portinari dedicou parte significativa de seus trabalhos a pintar temas brasileiros, influenciado diretamente pelos problemas de sua época, conformando-se como aquilo que o crítico Mario Pedrosa, em um dos textos contidos no livro Arte. Ensaios (Cosac Naify), chamou de “um artista social por excelência”. Pode-se associar suas preocupações sociais às suas origens na pequena Brodowski, cidade do interior de São Paulo, ou ao seu vínculo com o PCB ou à sua aproximação com a temática da nacionalidade durante o Estado Novo, ou até mesmo às influências internas ao próprio campo artístico, com destaque para o movimento muralista mexicano, cuja presença se faz forte nos seus trabalhos. Isso não é o relevante. O importante aqui é perceber que Portinari se construiu como um artista dotado de uma enorme sensibilidade para representar aquilo que compreende como povo brasileiro em suas diferentes manifestações.

Os quadros expostos em Portinari Popular cobrem um período que vai dos anos 1920 à década de 1960 e podem ser associados, de forma mais ampla, a todo um imaginário da época que buscava construir, a partir de linguagens diversas, representações do que seria o povo brasileiro. Ao longo destas décadas é possível encontrar toda uma série de manifestações artísticas que direcionaram suas imaginações no sentido de romper com a perspectiva negativa da representação do povo brasileiro, hegemônica no final do século XIX, e ainda muito forte nas primeiras décadas do século XX, que, salvo raras exceções, pensavam, sob a influência de teorias evolucionistas e racistas, o povo brasileiro em uma chave da ausência, da carência, da falta, da falha. Claro que há diferenças e particularidades nestas representações plurais elaboradas entre os anos 1920 e 1960, mas o ponto aqui a ser destacado é que elas se aproximam por compartilhar uma espécie de “espírito de época”, preocupado com a descoberta e a compreensão mais generosa do povo brasileiro, de seus ofícios, saberes, manifestações culturais, religiosas e políticas.

Esta, na verdade, é uma das tônicas que estará fortemente presente em vertentes importantes do modernismo brasileiro, a exemplo dos trabalhos de Mário de Andrade seja em Macunaíma, seja em suas incursões no final dos anos 1930 ao Norte e Nordeste do país, à frente do Departamento de Cultura de São Paulo, para registrar cantos, danças, festas e rituais religiosos populares a partir da “Missão de Pesquisas Folclóricas”. No campo da pintura, mais especificamente, obras como as de Tarsila do Amaral, a exemplo de A Negra, Morro da Favela, O Vendedor de Frutas, Os Operários, Segunda Classe, ou de Di Cavalcanti, como Samba, Mangue, Ciganos, O Grande Carnaval, Duas Mulatas também são ilustrativas deste movimento dos artistas modernistas no sentido de buscarem representações variadas do “popular” e da realidade brasileira.

Um dos aspectos a ser destacado da exposição Portinari Popular é que não há aqui uma visão chapada e unívoca do que seja o povo brasileiro. Portinari representa o popular em perspectivas várias, multifacetadas, sem reduzi-lo a uma visão essencializada e simplória. Quanto à forma, é muito interessante perceber o quanto a pintura de Portinari vai se modificando ao longo do tempo na representação do popular; ora privilegiando uma arte mais figurativa, ora dando preferência a perspectivas mais abstratas. Para retratar o povo brasileiro e suas presenças, o artista se vale de sua aparelhagem artesanal eclética, mobilizando implícita ou explicitamente influências diversas, como o cubismo, o surrealismo, o muralismo mexicano, ainda que todas estas tradições vanguardistas externas sejam antropofagicamente – para manter a referência ao léxico modernista – deglutidas, canibalizadas e relidas para a construção de uma representação pictórica mais refinada da realidade brasileira.

Elementos diversos associados ao popular ganham espaço nas representações construídas por Portinari. É interessante perceber a forte presença e a valorização da representação do índio, do mestiço, do mulato e do negro em suas obras dos anos 1930 e 1940 – como Índia e Mulata, Mestiço, Mestiça, Cabeça de Mulato, Mulata de Vestido Branco, Mulher e Criança; Negra da Bahia, Mulher com Criança – e relacioná-las com o imaginário da época que caminhava nessa direção e que teve em Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, de 1933, sua maior expressão. O próprio Mário de Andrade retratado na exposição – única exceção aberta pelos curadores a um membro da “elite”, pelo seu pioneirismo “no estudo e na valorização do popular” –, no quadro Retrato de Mário de Andrade, datado de 1935, adquire uma versão “amulatada”, diferenciando-se – como bem percebido por Mario Pedrosa em seus ensaios sobre arte – de outras representações do escritor, como a da própria Tarsila do Amaral, que dá preferência a um Mário quase branco e com uma postura diferenciada daquela escolhida por Portinari.

Outros elementos relacionados ao popular recebem atenção destacada do pintor, a exemplo da “favela”, objeto de três telas com o mesmo título Favela, pintadas em 1942, 1957 e 1958. A despeito de suas particularidades, nestes trabalhos, Portinari, mobilizando uma perspectiva mais abstrata, apresenta aspectos multifacetados das moradias populares que contrastam com as representações majoritariamente negativas construídas sobre estes espaços e seus moradores. O tema do trabalho e dos trabalhadores, central para pensar o “popular” especialmente nos anos 1930 e 1940, na conjuntura da Era Vargas, também ganha um sobrelevo nas pinturas de Portinari, que procuram retratar, a partir de perspectivas diversas, homens e mulheres do povo em múltiplos ofícios urbanos e rurais, a exemplo das obras O Lavrador de Café, Flautista, Colonos Carregando Café, Colheita de Café, Colona Sentada, Marias, Garimpeiros e Lavadeiras. Já à produção rural, Portinari – que se dedicou à pintura de murais da série Ciclos Econômicos para o Ministério da Educação – destina várias telas, como Cacau, Cana, Colheita de Feijão, Colheita de Milho, conferindo atenção especial ao café, objeto de três quadros da exposição: dois com o título Café e outro de nome Colheita de Café.

A mostra Portinari Popular tem o mérito de conferir destaque à visão refinada do pintor, que com notável sensibilidade representa as agruras e amarguras do povo pobre sem perder de vista suas alegrias e epifanias. Seus sofrimentos vários transparecem em belíssimas e fortes telas como as duas intituladas Retirantes – uma de 1936 e 1944 –, Enterro, Criança Morta, Enterro na Rede e Preparando Enterro na Rede, todas elas dedicadas aos desgostos da seca, da fome e da miséria dos sertões do país, pintadas no contexto dos anos 1930 e 1950, período no qual a imaginação literária brasileira se voltou para a questão agrária, em obras como Menino de Engenho, de José Lins do Rego, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Cacau, de Jorge Amado, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. No reverso destas representações se encontram os quadros que retratam os espaços de convivência, festividade, regozijo e sociabilidade dos setores populares pintados em conjunturas diversas, a exemplo de Baile na Roça, Festa de São João, Futebol, Circo, Mulheres Sentadas, Domingo no Morro, Três Amigas no Morro e duas telas de Brodowski, uma de 1942 e outra de 1948, com atenção especial para a infância, em telas como Roda Infantil, Crianças Brincando, Meninos Soltando Pipas e Menino com Pipa.

Visitar a exposição Portinari Popular abre horizontes e perspectivas várias não apenas para conhecer mais a obra do pintor, mas para pensar o Brasil e as representações construídas sobre seu povo. Um programa necessário.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Escuta.

** Créditos da imagem: <http://www.infoescola.com/biografias/candido-portinari/&gt;. Acesso em: 09 set 2016.

 

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