Wallace Andrioli Guedes*

Em 1982, a ditadura militar brasileira, iniciada 18 anos antes, parecia dar seus últimos suspiros. A lei da anistia fora aprovada, o pluripartidarismo reinstituído, os Atos Institucionais revogados, e, ainda naquele ano, ocorreriam as primeiras eleições diretas para os governos estaduais desde 1965. As artes também respiravam, com a regulamentação do Conselho Superior de Censura (em 1979), instância de recurso composta por membros do governo e da classe artística, que permitia a liberação de diversas produções até então proibidas.

No entanto, no que seria o auge da abertura política, veio a inesperada censura ao filme Pra Frente Brasil, de Roberto Farias. Após cinco anos na presidência da Embrafilme, Farias realizou uma obra explosiva que, de acordo com ele, visava testar os limites da abertura. Pra Frente Brasil narra a história de Jofre (Reginaldo Faria), homem de classe média que se considera apolítico, até, em meio à euforia da Copa do Mundo de futebol de 1970 (em pleno governo Médici, portanto), ser confundido com um terrorista, sequestrado por uma organização paramilitar de extrema-direita e torturado até a morte. Liberado para ser exibido nos festivais de Gramado e Cannes, o filme foi interditado pessoalmente por Solange Hernandez, então diretora da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), acusado de “incitamento contra o regime vigente, a ordem pública, as autoridades constituídas e seus agentes”.[1]

É interessante observar alguns pontos: primeiramente, Pra Frente Brasil foi coproduzido pela própria Embrafilme, portanto, por um órgão do mesmo Estado que viria a censurá-lo, o que revela a complexidade do funcionamento de um regime que nunca foi totalmente homogêneo; além disso, a censura ao filme, feita pela diretora da DCDP após os profissionais contratados para a função sugerirem a liberação, revelou uma fissura no edifício da abertura política, que o governo do general Figueiredo queria aparentar sólido, e trouxe para certos setores do aparato estatal a sensação de perda de controle desse processo, de uma excessiva liberalização dos órgãos repressivos. O general Octávio Luiz de Resende, então chefe do Centro de Comunicação Social do Ministério do Exército, atacou Pra Frente Brasil na imprensa: “Filme de baixo padrão moral, que fez a apologia do terror e do terrorismo. Todavia, o filme procura disfarçar seus propósitos com determinadas cenas rápidas, com as quais, provavelmente, o produtor pretende se livrar de um enquadramento legal, no que só enganaria a idiotas”. Rubem Ludwig e o brigadeiro Délio Jardim de Mattos, ministros do governo Figueiredo (da Educação e da Aeronáutica, respectivamente), questionaram publicamente se o filme de Farias servia à democracia.

Censurado, temido e detestado pelo governo, Pra Frente Brasil tornou-se um emblema da luta contra o arbítrio naqueles anos finais de ditadura, independentemente do real alcance crítico de seu conteúdo, que é discutível. Defender a liberação em artigos na imprensa e manifestos, ver e debater o filme fez com que muitos se sentissem resistindo de alguma forma a um regime autoritário desgastado, mas que persistia em existir.

Pouco mais de 30 anos depois, num momento em que a democracia brasileira volta a viver percalços diante de um processo de impeachment de legalidade questionável e da posse de um governo conservador, novamente um filme politicamente potente sofre perseguição do Estado. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, iniciou sua carreira internacional com uma forte declaração política, no último Festival de Cannes, quando parte da equipe do filme se aproveitou do tapete vermelho para denunciar ao mundo a ilegitimidade do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Congresso Nacional. Parcelas reacionárias da sociedade brasileira reagiram propondo boicote a Aquarius quando da estreia do filme nos cinemas do país, o que não chega a surpreender, considerando a intensificação do sentimento antipetista nos últimos dois anos e todas as decorrentes manifestações de intolerância. Em alguma medida, surpreendente foi a disposição demonstrada pelo governo Temer de retaliar Aquarius pelo ocorrido em Cannes.

Dada a recepção crítica extremamente positiva ao filme no festival, surgiu a expectativa de que esse segundo longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho fosse escolhido, sem grandes controvérsias, para representar o Brasil no próximo Oscar. No entanto, a Secretaria do Audiovisual (SAV), ligada ao Ministério da Cultura, nomeou para fazer parte da comissão responsável por essa escolha o crítico de cinema Marcos Petruccelli, que havia usado as redes sociais para caluniar a equipe de Aquarius após o famigerado protesto. É claro que Petruccelli tem todo direito de discordar politicamente da manifestação capitaneada por Kleber Mendonça Filho e de manifestar publicamente essa discordância, mas ele foi além disso ao acusar os profissionais do filme de estarem em Cannes a passeio com dinheiro público enquanto chamam de antidemocrático o mesmo Estado que os financia nessas “férias”. Como se trata de uma acusação absolutamente mentirosa, isso deveria automaticamente desqualificar Petruccelli como juiz da submissão de Aquarius ao Oscar. Ao invés disso, o crítico paulista foi justamente convidado a exercer tal função pelo atual secretário do audiovisual, Alfredo Bertini.

Não muito tempo depois, veio a notícia da classificação indicativa de 18 anos para o filme, justificada pela presença de “situação sexual complexa”, definição inusitada para três rápidas cenas de sexo que surgem na tela ao longo das duas horas e vinte minutos de narrativa – e que certamente não são mais fortes que cenas semelhantes de outros filmes brasileiros recentes, como Boi Neon e Para Minha Amada Morta, ambos liberados para maiores de 16 anos. Aquarius tornou-se, provavelmente, o filme mais odiado por um governo brasileiro desde Pra Frente Brasil.

E assim como Roberto Farias, que tentou lançar seu filme num ano de Copa do Mundo e de grande mobilização política, por conta das eleições para governadores, Kleber Mendonça Filho teve o timing perfeito, ainda que acidental, de estrear Aquarius na mesma semana em que se confirmou o impeachment de Dilma. Salas lotadas e gritos de “Fora Temer” ao fim das sessões foi a regra no primeiro fim de semana de exibição nos cinemas. Assistir a um filme que fala sobre resistir ao assédio de poderes aparentemente invencíveis e que foi lançado internacionalmente com um gesto público de resistência vem produzindo em muitos a sensação de também estarem resistindo a esse avanço implacável do inimigo. Talvez algo próximo do que aconteceu com o espectador opositor da ditadura nas sessões de Pra Frente Brasil, em 1982 e 1983.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem:<http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/17/cultura/1463498064_139719.html&gt;. Acesso em: 11 set 2016

[1] É o que diz a letra f do artigo 3º do Decreto nº 20.493 de 1946, utilizada para embasar legalmente a censura a Pra Frente Brasil.

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