Gabriel Gutierrez*

Episódios recentes de agressão a pessoas contrárias ao impeachment demonstram mais uma vez a brutalidade que atravessa as manifestações conservadoras que apoiaram o golpe e contra tudo que pareça de esquerda. Estão sempre lá a gritaria de anti-esquerdismos obsoletos, o machismo, o autoritarismo e a disposição para a violência. Patriotas apoiadores da venda do Pré-sal, são predominantemente brancos, vestidos de verde e/ou amarelo, pedindo a intervenção militar e o fim da corrupção (do PT). Ator social relevante na derrubada de Dilma, esse fragmento da classe média tem no ódio um dos seus afetos políticos centrais.

Historicamente, a classe média sempre atuou como um vetor de atenuação ou acirramento dos conflitos sociais brasileiros. Quando mobilizada, ela é capaz ou de conter a efervescência politizada que vem debaixo ou de aumentar a tensão das contradições, e atrapalhar seriamente a vida de um governo. Os melhores exemplos são 1964, na sua contribuição civil à derrubada de João Goulart, e agora, em 2016, no golpe do PMDB.

Estruturalmente, a classe média fica exatamente no meio dos polos mais significativos de uma sociedade capitalista: abaixo da plutocracia, que detém o poder econômico e, por consequência, o poder político, e acima do povão, que trabalha com os braços e carrega o país nas costas.

Seu principal desejo neste contexto é ascender socialmente, a qualquer custo. Para tornar-se rico ou, pelo menos, parecer rico. Nos dois casos, o fundamental é aderir aos signos de distinção (pequeno) burguesa, como o português “correto”, as roupas grifadas e suas estampas enormes que atestam perfis “sofisticados” de consumo, os carros enormes e outros hábitos sociais associados à identidade das elites.

Tudo isso para não parecer “pobre”. O pior cenário para um sujeito destes é parecer um “ferrado”, “pé rapado”, “maloqueiro”, que não “tem onde cair morto”. Seu maior temor é empobrecer. De forma meio inconsciente, a classe média percebe a desigualdade naturalizada entre nós e sabe que é muito ruim ser pobre no Brasil.

Quando esta classe média sente que seus privilégios e marcações de distinção (acesso à universidade, viagens de avião, protagonismos de fala) estão ameaçados pela ascensão dos debaixo, ela vocifera seu fascismo. E brada ódio do povo politizado. Para a classe média, o povão só serve para o relacionamento hierarquizado dos serviços cotidianos (a empregada que é “praticamente da família”) ou a caridade culpada e paternalista de cima para baixo. Fora isso, qualquer símbolo associado ao empoderamento dos subalternizados é visto como o inimigo a ser eliminado. Subalternos organizados são o seu pânico. Numa quase anedota, seu conservadorismo tosco ensina desde cedo às crianças que os movimentos sociais vão invadir a sua casa e confiscar o seu modesto patrimônio de classe média. Cidadania e direitos são coisas de “comunista”.

Além disso, esta classe média preenche os melhores cargos da burocracia do Estado, e na figura de juízes, delegados e procuradores estão dispostos a tudo para prender Lula e inviabilizar eleitoralmente o PT, agora que o golpe consumou-se. O ódio ao tímido reformismo híbrido e de coalizão petista é tal que, em nome de prender petistas, esta burocracia acabou no Brasil com uma histórica tradição de impunidade para crimes de colarinho branco.  Nunca antes na história deste país, se prendeu empreiteiro. Agora se prende. Para a classe média, vale tudo, para não ter no poder nada que lembre, nem de longe, bem de longe, a esquerda.

Daí as hordas de “brancos escolarizados” e enfezados babando de raiva contra “petistas” ou “comunistas” (no Brasil pós-golpe, “petista” ou “comunista” é todo aquele que não é um reacionário indignado com o empoderamento de “minorias”). Sua inclinação ao fascismo, lastreada pela desinformação midiática, é evidente e traz consigo alguns dos piores traços da nossa cultura política: a vontade de hierarquia (herdada de 4/5 de uma História baseada no trabalho escravo), o racismo, o patrimonialismo e o autoritarismo. Tempere tudo isso com uma grande taxa de analfabetismo político – que faz com que estas pessoas não compreendam, ou não queiram compreender, quem de fato dá as cartas e detém o poder no Brasil – e temos o ovo da serpente do fascismo à brasileira. Ele nunca saiu de cena, mas parece que agora perdeu definitivamente a vergonha de mostrar seus dentes na luz do dia.

* Gabriel Gutierrez é cientista político.

** Crédito da imagem: <http://jovempan.uol.com.br/programas/jornal-da-manha/aecio-e-bolsonaro-lideram-preferencia-dos-manifestantes-em-sp-veja-o-perfil.html&gt;. Acesso em: 08 set 2016.

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