Rafael Betencourt*

No dia 7 de janeiro deste ano, o recém empossado presidente da Assembleia Nacional Venezuelana Henry Ramos Allup  ordenou que retirassem da Assembleia quadros e retratos do ex-presidente Chávez e de Simon Bolívar. O protesto por parte do governo do presidente Maduro foi imediato. Em abril de 2002, em um dos primeiros atos após destituir o então presidente Hugo Chávez, o líder do golpe de Estado e presidente da Fedecamara, Pedro Carmona, também pediu para que retirassem os quadros referentes a Bolívar. A urgência simbólica em retirar as imagens do maior protagonista do processo de independência  do país indica que a disputa pela memória e pela legitimação política, que a imagem do fundador da nação carrega, é também parte do conflito político. No Brasil, a distinção de “bolivariano” ganhou uma carga discursiva pejorativa, um componente de uma caricatura colectiva produzida sobre nossos atuais vizinhos. “Xingar” alguém de bolivariano no Brasil é, entretanto, um ato que certamente nos diz mais sobre o Brasil e suas idiossincrasias sociais e políticas do que sobre a nação criada pelo “el libertador”.

Na Venezuela a disputa pela imagem de Simón Bolívar sempre esteve presente ao longo do desenvolvimento político do país. A atual, e  quase instintiva, associação entre Hugo Chávez e Bolívar é expressão da grande força mítica que o ex presidente foi capaz de estabelecer em seu projeto político. A personificação do processo revolucionário bolivariano na figura de Hugo Chávez, apontada frequentemente como um entrave para o desenvolvimento de instituições autônomas, está imersa no contexto histórico de formação de uma nacionalidade venezuelana.  Chávez, ao mesmo tempo que foi líder de uma reivindicada revolução, foi também produto de um movimento maior, que transpassa toda a história do desenvolvimento político da Venezuela. Quando ele, em 1982, organizou o MRB-200 (Movimento Revolucionário Bolivariano), essa era apenas mais uma dentre algumas organizações politicas que reivindicavam a herança de um bolivarianismo revolucionário.

Em julho de 2010, o ex-presidente promoveu a exumação dos restos mortais de Simon Bolívar, enterrado no Panteão de Caracas, baseado no pressuposto de que o líder da independência teria sido assassinado ao invés de ter sido vitima de tuberculose, como indica a historiografia oficial. O ato teve  um enorme caráter simbólico. Exibir a imagem do corpo de Bolívar foi a criação de mais um elo entre o presidente e o lendário libertador. Em uma República dita bolivariana, com uma moeda de nome Bolívar, a referência ao “El Libertador” se torna o coração de uma nacionalidade. Durante muito tempo o ícone de Bolívar serviu aos projetos de governos da oligarquia no país. Chávez e seus seguidores são parte de outro momento. São filhos de uma herança revolucionária que transformaria a ideologia bolivariana em um projeto de revolução socialista, autenticamente venezuelana. Chávez, percebido muitas vezes em um imaginário popular como uma  verdadeira reencarnação de Bolívar,  e que  se utilizou do mito de Bolívar para dar força ideológica ao seu projeto político , foi também produto  deste mesmo mito. São categorias e imaginários históricos que preenchem o horizonte de uma mesma consciência coletiva, e que moldaram de certa forma todo o discurso chavista acerca das possibilidades de transformação social.

Simón Bolívar entrou para história como o grande líder militar do processo de independência venezuelano frente a coroa espanhola, começado em 1810 e terminado em 1821 com a batalha de Carabobo. Bolívar também teve papel decisivo na emancipação de outros países do continente como Colômbia, Equador, Peru e Bolívia (nomeada em sua homenagem). Ao seu lado estavam outros personagens com forte presença nos atuais livros de história: Francisco de Miranda, San Martín, António José de Sucre e José António Páez. Todos hoje fazem  parte do panteão de heróis no coração da ideologia chavista. Juntos, aproveitaram as investidas de Napoleão Bonaparte contra o rei Fernando VII da Espanha para iniciar uma grande revolta nas colônias na América.  Apesar de suas vitórias , Bolívar não foi capaz de realizar o seu grande objectivo: criar um único país com os territórios libertos, que viria a ser chamado “Gran Colombia”. Mesmo possuindo origem aristocrática, Bolívar tornou a luta pela independência da colônia em um processo também de libertação das massas populares de qualquer tipo de servidão. Seu projeto de emancipação traduzia uma ideia ainda tímida de ampla cidadania. Todo venezuelano em qualquer condição de servidão, tornaria-se um cidadão da república e poderia exigir seus direitos. Sobre a coroação de Napoleão Bonaparte, da qual fora testemunha durante sua estadia na Europa, teria dito: “Olhei como se fosse uma coisa miserável aquela coroa que Napoleão colocou na cabeça. Mas isto me fez pensar na escravidão do meu país e na glória que caberia a quem o libertasse”.

Após a morte de Bolívar, a Venezuela ainda enfrentava o perigo de forças restauradoras do sistema social colonial e a economia estava longe de um caminho de construção estável e sólida. O culto ao Bolívar  se originou nas classes mais pobres e somente depois foi incentivado pela elite governante,  que o utilizou  no sentido de criar e preservar um sentimento nacional único. A idealização do herói Bolívar, libertador contra o domínio espanhol e a tirania da escravidão feudal, ajudou a valorizar e a manter as instituições republicanas criollas.   O historiador venezuelano  German Carrera Damas  vincula a origem de uma certa oficialidade no culto ao Bolívar ao ano de 1842, quando o então presidente José Antonio Paez ordena que os restos mortais do libertador sejam deslocados de Santa Marta na Colômbia até Caracas recebendo longas homenagens oficiais. A partir de então em todos os governos , em distintos graus,  se utilizaram da imagem de Bolívar para algum tipo de legitimação política.

No entanto, na década de 1950 o bolivarianismo ganha uma reinterpretação revolucionária. Dessa vez o ideal bolivariano é reivindicado na luta contra a ditadura de Pérez Jimenez, que tomou o poder através de um golpe em 1952 e foi deposto por uma revolta popular em 1958, liderada pelo guerrilheiro socialista, e futuro crítico de Chávez, Douglas Bravo. O discurso bolivariano sempre carregou a possibilidade de união nacional, Bravo conseguiu reunir as forças de esquerda e setores moderados no intuito de retirar Jimenez do poder. Dessa forma, Marx e Lênin ganhavam pela primeira vez a companhia  de Bolívar no discurso de um socialismo nacionalista, o que não deixa de ser curioso, pois Marx em um verbete de 1857 faz uma avaliação negativa da conduta de Bolívar na liderança das forças de independência, acusando-o de certo despotismo. O bolivarianismo se instrumentalizou na necessidade de nacionalizar a luta da esquerda e possibilitou nesse momento a união com outros setores da politica venezuelana.

A ideia de uma revolução socialista venezuelana foi imaginada na valorização do discurso bolivariano, na conjunção das premissas marxistas com a força do mito de Bolívar, o libertador dos oprimidos. Edificou-se assim o carácter nacional no projeto de revolução,  esquivando-se do tradicional desdém de um marxismo europeu à experiência revolucionária latino-americana. Após a queda de Jimenez uma república democrática foi estabelecida, negociada pelos dois principais partidos, “Acción Democrática” e Copei (Partido Social Cristão). Tal acordo foi expresso no pacto de Puntofijo em 1958 , um sistema de dois partidos na alternância do poder. O Partido Comunista e o movimento de guerrilha de Douglas Bravo foram deixados de fora do novo sistema e, consequentemente, tornados ilegais. O pacto de Puntofijo só seria quebrado com a eleição do presidente Hugo Chávez em 1998.

O crescimento da importância de Bolívar no imaginário guerrilheiro aconteceu ao mesmo tempo em que Douglas Bravo rompia com o Partido Comunista Venezuelano (PCV), principalmente em decorrência da falta de ajuda soviética para as rebeliões populares na América Latina. Dessa forma, em 1965, no Congresso Nacional do PCV, Douglas Bravo apresentou uma série de documentos intitulado “Documentos de la Montaña”, nos quais reivindicava a necessidade de se traçar um “terceiro caminho”, abandonando oficialmente a via soviética de construção do socialismo. Um Bolivarianismo revolucionário aparece então como resultado do rompimento de parte da esquerda venezuelana com as premissas do socialismo real europeu, na busca por uma experiência autenticamente venezuelana, adaptada a realidade latino-americana.

Livre da influência soviética e da tutela do PCV, o bolivarianismo começa a trilhar seu próprio caminho, a adquirir forma, e nesse momento surge outro elemento que será preponderante para o êxito da  futura Revolução Bolivariana de Chávez: uma aliança entre parte da sociedade civil e militares. A divulgação do novo bolivarianismo revolucionário entre os militares não encontrou muitos empecilhos, visto que no país os oficiais são historicamente oriundos de classes mais baixas.  A propaganda encontrou terreno fértil na classe e com isso o bolivarianismo revolucionário começou a ganhar contornos de projeto de governo e deixar de ser apenas uma guerrilha anti-governista. Bolívar foi exaltado nesse momento como ícone de um projeto socialista, sua guerra contra a dominação espanhola e seu  discurso contra qualquer tipo de servidão para a fundação de uma república venezuelana foram a fundação  da utopia sobre uma segunda independência, agora em relação ao sistema capitalista e ao imperialismo estadunidense no continente. O governo de Chávez será o que dará corpo ao bolivarianismo revolucionário , através da idealização de um república bolivariana socialista.

Simón Bolívar é um personagem complexo. O culto a Bolívar expressa uma diversidade de interpretações sobre sua história e seus ideais, tanto por liberais quanto por conservadores. Sua quase santidade alcançada no imaginário popular é fruto de um simbolismo que  transcende as guerras de independência. “El Libertador” surge como  o grande fundador da República, imaginada na utopia da luta do herói contra qualquer tipo de opressão. A nacionalidade se realiza em Bolívar, nos grandes feitos de  sua luta e quem se opõe a liberdade e justiça conquistadas por ele se torna inimigo da pátria. O mito se desenvolveu como um sentimento coletivo e moldou a consciência nacional. Chávez foi capaz de estabelecer um diálogo direto com esse sentimento e a partir de uma simbiose mítica desenvolver seu  próprio projeto politico.

Chávez construiu o panteão de mitos da ideologia chavista na história da descolonização do país, expressando assim a busca por uma identidade nacional do movimento. O anseio pela formação de um socialismo autenticamente venezuelano se realiza na herança de um marxismo heterodoxo que  outros pensadores de esquerda do continente já haviam delineado. O peruano José Carlos Mariátegui aparece como referência justamente porque foi capaz de unir marxismo e anti-imperialismo a um discurso nacionalista, que apontava os trabalhadores e os camponeses indígenas como a principal classe revolucionaria. Pode-se dizer que Chávez personificou a histórica utopia de Bolívar criando o imaginário de um segundo Libertador, a ideia de uma segunda independência. Assim o discurso carismático do chavismo apresentou uma nova realidade para grande parte da população antes excluída de qualquer espaço de cidadania.  O chavismo se fundamenta na necessidade de uma transformação radical em um momento de intensa crise política e social nos anos 1990, um brutal empobrecimento resultante do fracasso de politicas neoliberais.  A crise de legitimidade do Pacto de Puntofijo estabeleceu o cenário  para que o bolivarianismo revolucionário pudesse novamente ganhar o coração das massas. A ideia de uma revolução socialista como único caminho se materializou nas estruturas  polarizadas de uma sociedade  extremamente desigual, deixando pouca margem para negociação de alternativas com a oposição.

Sem dúvida o chavismo produziu um processo de intensa transformação social para uma grande parte da população, hoje reconhecido até por parte de seus opositores. No entanto, o projeto radical chavista não foi capaz de criar a totalidade das condições para o seu próprio sucesso. Testemunhamos nos dias de hoje a interação entre a incapacidade política de Nicolas Maduro e o métodos de uma histórica oposição antidemocrática. Apesar disso, é possível afirmar que o chavismo sobreviverá ao fracasso de Maduro e até mesmo a um eventual  retorno da direita ao poder, muito em decorrência da própria força mítica de seu discurso. Um das figuras da oposição  é Henrique Caprilles, governador do Estado de Miranda, o qual  já se disse descendente de Simón Bolívar,  reivindicando ter o sangue do libertador. Mesmo sendo quase impossível hoje imaginar um divórcio entre o bolivarianismo e o chavismo, a disputa pelo mito continua.

 

* Rafael Betencourt é mestre em História Moderna e Contemporanea pelo ISCTE de Lisboa e doutorando em História Social pela UERJ. Além de colaborador da Escuta.

** Crédito de imagem: Thomas Coex/AFP. Disponível em: http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL985108-16107,00-ANTES+DE+VIRAR+SOCIALISTA+COM+CHAVEZ+SIMON+BOLIVAR+FOI+EVOCADO+PELA+DIREITA.html Acesso em: 04/09/2016

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