Wallace Andrioli Guedes*

O Som ao Redor (2012), primeiro longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho, é a culminância do que o diretor realizou em seus curtas até aquele momento: estão lá o ácido comentário social de Recife Frio (2009), a predileção pelo terror de A Garota do Algodão (2002) e Vinil Verde (2004) e quase tudo de Eletrodoméstica (2005). Aquarius, por sua vez, é um passo adiante bem calculado, que traz coisas novas ao cinema de Kleber Mendonça Filho sem perder O Som ao Redor de vista.

Há uma série de rimas – visuais, sonoras, narrativas e temáticas – que ligam os dois filmes. A mise-en-scène que de maneira localizada remete ao cinema de horror, as músicas do Queen e o “Feliz Aniversário” de Villa-Lobos, a estruturação da história em capítulos, as críticas aos valores de uma classe média alta branca recifense (brasileira, na verdade) e às marcas deixadas na sociedade atual por um passado de escravidão, a maneira como ambos terminam. Esses elementos parecem dar ao diretor o porto seguro necessário para seu grande salto em Aquarius: manter a narrativa focada numa única protagonista e desenvolvê-la ao máximo, deixando para trás, portanto, o mosaico social de O Som ao Redor.

Ou um dos portos seguros, melhor dizendo. O outro é Sonia Braga, escolhida para viver essa protagonista, de nome Clara. A personagem é um presente de Kleber Mendonça Filho para a atriz, pela qualidade da forma que foi escrita: mulher forte e bem resolvida com as decisões tomadas ao longo de seus mais de 60 anos de vida, ela também carrega cicatrizes (num caso específico, literalmente) do passado, que insiste em se tornar mais distante conforme a perspectiva da morte se aproxima. Afastada do cinema brasileiro há algum tempo, Braga devolve o presente ao diretor, exibindo aqui uma presença absolutamente magnética em cena, que faz lembrar as razões de seu estrelato nos anos 70 e 80.

A preocupação com a passagem do tempo, aliás, impregna Aquarius: o edifício do título, símbolo de uma Recife que não existe mais, como a própria Clara (ou a cômoda de sua tia Lúcia, responsável por um dos melhores momentos do filme), são vistas por uma determinada concepção de sociedade (que é geracional, mas também classista) apenas como peças velhas a serem descartadas para dar lugar ao novo, supostamente mais seguro, moderno e confortável. Os afetos que atravessam esses espaços, objetos e pessoas são desconsiderados no processo. Nesse sentido, a luta de Clara para manter o Edifício Aquarius de pé – que inicialmente lembra a vontade de Manoel de Oliveira de registrar e conservar a própria história, diante da iminente perda da casa de sua família e da chegada da velhice, no belíssimo Visita ou Memórias e Confissões (1982/2015) – são, como suas lutas contra o câncer e contra ser meramente descartada pela parcela ainda “ativa” da sociedade, profundamente políticas.

A tão temida política, portanto, está presente em Aquarius. De forma menos explícita que em O Som ao Redor – ainda que não suficientemente implícita para agradar aos que têm ressalvas a esse filme justamente por encontrarem nele uma representação caricatural e maniqueísta daqueles que busca criticar –, mas está. Sobretudo em Clara, que é um vulcão, capaz de enfrentar, de olhos nos olhos, os poderosos formados em business mas desprovidos de qualquer senso de humanidade. Personagem potentíssima (inclusive sexualmente), mulher, sobrevivente, que consegue devolver a seus inimigos o “câncer” que eles tentam infligir nela, Clara, com seus afetos, marcas e desejos, é o motor (também político) de Aquarius.

 * Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da Imagem:<http://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/noticias/2016/08/aquarius-diretor-do-filme-se-revolta-com-censura-por-conteudo-sexual&gt;. Acesso em: 26 ago 2016.

 

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