Lívia Gonçalves Magalhães*

Em agosto de 2016 os Jogos Olímpicos de verão, organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) chegaram pela primeira vez à América do Sul, na cidade do Rio de Janeiro. Se por um lado o clima é de festa, por outro é de apreensão: tanto o governo interino de Michel Temer como o próprio COI decidiram coibir protestos e manifestações “políticas” apoiados pela lei 13.284. Sancionada em 10 de maio de 2016 pela então presidente eleita Dilma Rousseff, a lei afirma em seu artigo 28 que está proibido “portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, de caráter racista ou xenófobo ou que estimulem outras formas de discriminação (…) entoar xingamentos ou cânticos discriminatórios, racistas ou xenófobos”. [1]

Nos primeiros dias de Jogos entre as principais notícias se destacavam a retirada de manifestantes dos estádios e arenas esportivas sob a acusação de infringir a lei citada, sob a justificativa de que estavam proibidas as manifestações políticas. Para uma sociedade politicamente dividia e atravessando um momento delicado politicamente, parte dos brasileiros colocou-se contra tais atos. Advogados e o Ministério Público denunciaram a violação aos direitos constitucionais de livre manifestação e à liberdade de expressão.

Segundo o COI, em consentimento com o discurso do governo interino que visava coibir as denúncias internacionais sobre a crise política, os Jogos não seriam o espaço para boicotes e manifestações políticas. Porém, apesar de que para alguns tais atitudes pareçam ir contra o chamado “espírito olímpico”, de fato marcam a história das Olimpíadas modernas a partir de 1896. Tanto os países participantes como os cidadãos/torcedores/atletas utilizaram –e ainda utilizam- os grandes eventos esportivos mundiais como espaços de manifestações políticas e denúncias internacionais.

 A política como a regra do jogo

Os grandes eventos esportivos como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo da FIFA costumam ser marcados -e também deixam suas marcas- no contexto político em que estão envolvidos. A importância que tais competições ganharam ao longo de suas realizações fez com que as mesmas se tornassem não apenas um espaço de afirmação nacionalista, mas também de denúncias e boicotes políticos. Isso porque, seja em governos democráticos ou em autoritários, o objetivo maior do país sede é transmitir uma imagem positiva para o mundo. Tais eventos são uma janela para o organizador, que trabalha para definir o que deseja mostrar para aos demais e é neste sentido que aparecem os boicotes e outros tipos de movimentos contestatórios, como uma denúncia desta imagem “fabricada”. Na Rio 2016, mais uma vez, vivemos esta realidade.

Desde os primeiros anos do século XX os conflitos marcaram as disputas esportivas. No caso das Copas do Mundo de Futebol da Fifa, a Argentina, por exemplo, boicotou as competições de 1934 (Itália) e 1938 (França), alegando que os italianos nacionalizaram seus principais jogadores e com isso deixaram a equipe defasada, e de 1950, no Brasil, por desentendimentos entre as duas federações nacionais. O Uruguai também boicotou 1934, alegando que tinham sido boicotados pelos europeus quatro anos antes, e devolveriam a atitude. A Inglaterra, considerada a inventora do futebol moderno, participou de uma Copa do Mundo apenas em 1950, por questões de desentendimento entre sua federação e a FIFA.

No caso dos Jogos Olímpicos os boicotes por parte dos Estados Nacionais foram ainda mais comuns, e apenas Austrália, França, Grã Bretanha e Suíça participaram de todas as edições. Nos famosos jogos de Berlim de 1936, mais conhecidos pela propaganda nazista e pelas 4 medalhas do atleta negro estadunidense Jesse Owens, a Irlanda recusou-se a enviar atletas após a insistência do COI de que eles deveriam se unir em uma delegação única com os Estados Livres da Irlanda, apresentando, assim, apenas uma comitiva para representar a ilha. Por sua vez, Holanda, Espanha e Suíça se recusaram a participar dos Jogos de Melbourne em 1956 após a negativa do COI em posicionar-se contra a repressão soviética na Hungria.

Nas décadas de 1970 e 1980, os boicotes políticos foram ainda mais comuns e generalizados. Os dois casos mais emblemáticos foram o das Olimpíadas de Moscou, em 1980, quando os Estados Unidos liderou o boicote condenando a invasão soviética ao Afeganistão; e as Olimpíadas de Los Angeles em 1984 quando foi a vez da URSS “devolver” e não participar dos jogos. Outros exemplos que podem ser citados são: em 1976 os países africanos boicotam as Olimpíadas pela participação da África do Sul sob o regime do apartheid; no mesmo ano, a China Nacionalista não participou dos jogos no Canadá pela questão de Taiwan; em Seul 1988, a Coréia do Norte foi a líder do boicote, que incluiu também Cuba, Etiópia, Nicarágua e Albânia. Já no século XXI, em 2008, organismos internacionais, como a Anistia Internacional, denunciaram as sistemáticas violações aos direitos humanos por parte da China, e foi inclusive proposto um novo boicote, desta vez aos jogos de Pequim.

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Argentina, México e as manifestações populares

Se bem o caso do Rio 2016 não envolve denúncias internacionais dos países membros do COI, ele pode ser pensado a partir das ações de parte da sociedade contra os Jogos e em um contexto mais amplo de demandas sociais e políticas. O que tampouco é uma novidade no histórico dos Jogos.

Em 1978 a Argentina encontrava-se sob uma ditadura civil-militar acusada de desaparecimento forçado de mais de 30 mil pessoas e práticas sistemáticas de violações de direitos humanos. Naquele mesmo ano, o país sediava sua primeira Copa do Mundo da Fifa. Internacionalmente, grupos e partidos políticos de esquerda organizavam um boicote ao evento, que teve sua principal força no Comitê de Boicote à Copa do Mundo (COBA, na sigla em francês), com sede em Paris e sub sedes em diversas cidades europeias. O boicote em si não foi concretizado, mas as diversas manifestações e denúncias, e o próprio debate, foram importantes para os grupos envolvidos com a questão das violações de direitos humanos na Argentina. As atividades de denúncia antes e pós Copa do Mundo foram tão importantes quanto o próprio evento, considerado um êxito por ter colocado o país no centro das discussões políticas dos principais países europeus e dos Estados Unidos. Assim, conseguiu-se chamar a atenção de importantes organizações como a ONU e a OEA para o caso argentino.

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Porém, o caso que mais nos lembra o cenário brasileiro 2013-2016 (período em que o país recebeu três importantes eventos esportivos que coincidiram com manifestações e o acirramento da crise político-social: Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos) é o do México em 1968. Naquele ano o país enfrentava uma crise política e institucional que refletia o esgotamento do pacto estabelecido a partir da Revolução Mexicana. Se não era de fato uma ditadura, o México também não era exatamente uma democracia. A instabilidade política levou a uma sucessão de manifestações estudantis no verão daquele ano, que se intensificavam a cada dia, assim como a repressão estatal. Em 2 de outubro de 1968 50.000 manifestantes, em sua maioria estudantes e professores universitários, se reuniram em um protesto na Praça das Três Culturas ou Tlatelolco. Em determinado momento, as forças policiais e do exército que cercavam a praça começaram a atirar indiscriminadamente por mais de duas horas e mataram centenas de manifestantes, com outros mais de mil feridos. Dez dias depois, eram oficialmente abertos os Jogos Olímpicos de Verão da Cidade do México. Paralisada frente à tamanha repressão, a sociedade foi silenciada e as Olimpíadas ocorreram sob silencio do COI e dos países participantes.  Até hoje o Massacre de Tletelolco marca a memória da sociedade mexicana, mas nunca foi denunciado pelos países que afirmam compartilhar o “espírito olímpico”.

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A situação que vive a sociedade brasileira nos XXXI Jogos Rio 2016 não é, portanto, uma novidade. Ao contrário: o histórico das olimpíadas anteriores é o que leva o COI a posicionar-se de forma tão consentida com a repressão do governo interino.  Erguendo a falsa  bandeira de apolíticos, COI e Fifa mostram a cada edição dos eventos que realizam que a política não apenas é uma constante no mundo esportivo: ela tem um lado, e no caso dessas Organizações ele dificilmente será o que apoia as demandas sociais.

* Lívia Gonçalves Magalhães é Pós-Doutoranda em História na Unimontes (MG) e Professora Substituta de História da América na UFRJ.

Bibliografia

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer – futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro, Mauad, 2002.

MAGALHAES, Lívia G. Com a Taça nas mãos: sociedade, Copa do Mundo e ditadura no Brasil e na Argentina. Rio de Janeiro, Lamparina/Faperj, 2014.

MAGALHAES, Lívia G. “El que no salta es gorila: la memoria de las izquierdas sobre los Mundiales de Fútbol en dictadura (Brasil 1970, Argentina 1978)”. XI Jornadas de Sociología. Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2015.

Imagens:

Foto 1 Rio 2016: http://www.cartacapital.com.br/politica/o-fora-temer-e-a-censura-nas-olimpiadas

Foto 2 Beijing 2008: http://www.lexicolatry.com/2013/10/boycott-captains-trade-off.html

Foto 3 Argentina 1978: http://www.iisg.nl/collections/tourism/d12-375.php

Foto 4 México 1968: http://thinkmexican.tumblr.com/post/29162346887/68-mexico-city-olympics-student-tlatelolco-massacre

 

 

 

[1] Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13284.htm

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