Wallace Andrioli Guedes*

No centro da narrativa de Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, está Pierre (Naomi Nero), adolescente de sexualidade fluida (ele fica com garotos e com garotas, se maquia e veste roupas tidas como femininas ou masculinas de acordo com sua vontade de cada dia) que descobre ter sido roubado na maternidade pela mulher que o criou – a premissa é inspirada no célebre caso do menino Pedrinho, exaustivamente explorado pela imprensa no início da década passada. O mundo de Pierre, claro, rui diante dessa revelação: Aracy (Daniela Nefussi), até então sua mãe, é presa, e ele passa a ter um novo nome (Felipe), uma nova família, uma nova história. Mas é claro que o passado não o abandona. O personagem passa a ser Pierre e Felipe – é sintomático que sua “nova mãe”, Glória (também interpretada por Nefussi), o chame alternadamente pelos dois nomes – e continua sendo, simultaneamente, homem e mulher.

A ideia de duplo atravessa todo o filme. Está presente não só na figura masculina/feminina de Pierre/Felipe, mas também na trajetória de sua irmã mais nova, Jaqueline (Lais Dias), que logo descobre também ter sido roubada de outra família quando bebê (assim como o irmão, a garota passa a ter um novo nome, novos pais e uma nova história), e na opção da diretora por escalar a mesma atriz para viver as duas mães do protagonista. No limite, essa ausência de uma identidade precisamente definida aparece mesmo na narrativa de Mãe Só Há Uma, estruturada de maneira bem mais frouxa que a de Que Horas Ela Volta?, filme anterior de Muylaert. Se o foco desse último está claramente no debate sobre as transformações das relações entre patrões e empregadas domésticas no Brasil contemporâneo, há em Mãe Só Há Uma dois grandes temas sobrepostos, que poderiam ter gerado dois filmes distintos: a sexualidade de Pierre/Felipe e a descoberta, pelo garoto, de sua verdadeira história e todas as consequências advindas daí.

Isso poderia ser um demérito do filme. No entanto, Muylaert impressiona por conseguir coesão na frouxidão, tornando essas duas histórias – que ainda são pontuadas por cenas do “novo irmão” de Pierre/Felipe, o pré-adolescente Joca (Daniel Botelho), que pouco ou nada contribuem para o avanço da narrativa principal – uma só. É que, no fim das contas, o mote do roubo de bebês e do convívio forçado do protagonista com uma nova família, ainda que produza alguns momentos fortes dramaticamente (como a briga no boliche), parece ser apenas uma exacerbação do que realmente interessa à diretora: diagnosticar a fragilidade das identidades que tomamos como nossas e promover o elogio à liberdade, à fluidez identitária (sexual, de gênero, estética etc.).

Pierre/Felipe, em sua androginia, encarna perfeitamente essa ruptura com os limites impostos socialmente, filho que é de uma era em que quem não se encaixa nas normas faz-se ver e ouvir. Nesse sentido, o personagem é uma espécie de irmão de transgressão da Jéssica (Camila Márdila) de Que Horas Ela Volta?. Transgressão que também une os dois filmes, reveladores de um olhar sensível de Anna Muylaert para a sociedade brasileira atual.

 * Wallace Andrioli Guedes é Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da Imagem: <http://www.adorocinema.com/filmes/filme-243939/&gt;. Acesso em: 07 ago 2016.

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