Fernando Perlatto*

Eis que aquilo que parecia absurdo há meses atrás aconteceu. O inimaginável virou realidade; o absurdo se concretizou: Donald Trump foi nomeado oficialmente na convenção de Cleveland como o candidato do Partido Republicano para as próximas eleições norte-americanas. Sob os gritos de “Make America Great Again!”, o magnata foi consagrado em uma convenção repleta de momentos patéticos e constrangedores, como Melania Trump, plagiando trechos de um discurso realizado pela primeira-dama Michelle Obama, ou a fala de Ted Cruz, senador do Texas, que causou polêmica e rebuliço ao não declarar abertamente o apoio a Trump e ao defender que os eleitores votassem com suas próprias consciências. Ainda que sua vitória não seja de todo aceita pelo Partido Republicano – destaca-se, nesse sentido, que os vários discursos proferidos durante a convenção se voltavam mais contra os Democratas, Barack Obama e, especialmente, contra Hillary Clinton do que a favor do próprio candidato –, o que importa é que contra todas as predições, Trump triunfou internamente, derrotando 16 rivais nas convenções republicanas e vencendo em 37 estados do país. A cada dia que passa a possibilidade de Trump se consagrar como o 45º presidente da história dos Estados Unidos se torna ainda mais concreta.

Se algum analista dissesse no início das prévias republicanas que Trump chegaria em Cleveland como o candidato nomeado pelo partido, a grande maioria trataria esta hipótese com desdém e troça. Imaginava-se que o Partido Republicano, como qualquer outra grande legenda do mundo ocidental, tivesse, para o bem e para o mal, lideranças que atuassem como moderadores, impossibilitando que discursos excessivamente radicalizados à direita ou à esquerda pudessem sair vitoriosos. No caso do Partido Republicano, esta ideia da busca da moderação no período pré-primárias era ainda mais forte, pois havia um diagnóstico de que, após a derrota de Mitt Romney para Obama nas eleições de 2012, o chamado “Grande Old Party” deveria conter sua retórica conservadora que ia em direção contrária às agendas de um país no qual, por um lado, as questões de igualdade racial, de gênero e de combate à homofobia avançavam e, por outro, a temática da imigração se fazia cada vez mais premente na medida em que as mudanças demográficas colocavam os votos latinos como variáveis centrais para a definição do processo eleitoral.

Trump, porém, vai em direção oposta deste diagnóstico de moderação, estando, inclusive, muito mais à direita do que Mitt Romney, que, sugeriu em entrevista recente que a eleição do magnata poderia legitimar políticas racistas e misóginas frente à Casa Branca. Do ponto de vista interno, a agenda de Trump incorpora todas as demandas da direita radical norte-americana, contrárias às iniciativas mais progressistas de Obama, como a ampliação da ação do Estado no desenvolvimento de políticas sociais – a exemplo do “Affordable Care Act” (ACA) ou “Obamacare” –, a regularização da situação de milhares de imigrantes – atualmente barrada pela Suprema Corte –, o avanço da democratização dos direitos das minorias e de temas relacionados à descriminalização das drogas e do aborto. Em seu discurso na convenção de Cleveland, Trump frisou que sua pauta está ancorada na defesa da “lei e ordem interna”, agenda esta que se torna ainda mais explosiva vinda de um candidato que coloca como uma de suas principais prioridades a defesa da liberdade da posse de armas, em um país que vive uma epidemia de massacres. Prometendo a construção de um muro para separar os Estados Unidos do México, se eleito, Trump transformará a vida dos imigrantes latinos em um inferno; considerando todos os mulçumanos, a priori, como terroristas, Trump radicalizará ainda mais os processos de preconceito e segregação ameaçando proibir, caso se torne presidente, a entrada nos Estados Unidos de todos aqueles que professem a fé no Islã.

No que concerne à agenda externa, se eleito com as propostas que vem defendendo, Trump promete fazer um governo ainda mais desastroso do que o do último presidente republicano, George W. Bush, que levou o país às guerras do Afeganistão e do Iraque e transformou o mundo neste atual barril de pólvora prestes a explodir. Tendo já defendido a tortura como método legítimo de obtenção de “informações”, a retórica de ódio de Trump se volta contra todas as instituições multilaterais – como a ONU e OTAN –, as quais, a despeito de seus enormes problemas, tiveram papel importante no sentido de construir um ordenamento mundial ancorado em consensos mínimos após a Segunda Guerra Mundial. Os lemas de sua campanha – “American First” – e sua afirmação no discurso de Cleveland segundo a qual “Americanism not globalism is our credo” – são indicativos do isolacionismo para o qual Trump promete conduzir os Estados Unidos nos próximos anos, fortalecendo a retórica nacionalista no que ela tem de mais conservadora e xenófoba. Não à toa, Trump e seus partidários republicanos comemoraram a saída do Reino Unido da União Europeia e Nigel Farange, do partido ultradireitista UKIP e uma das principais lideranças do “Brexit”, foi recebido como um herói na convenção de Cleveland, proferindo um discurso contra valores associados ao cosmopolitismo e ao universalismo.

Trump radicaliza seu discurso e se vale de uma distopia do caos em torno do atual cenário dos Estados Unidos e do mundo, como se a América estivesse à beira do colapso, precisando dele, o salvador, para torná-la grandiosa novamente. Aposta forte na sua retórica messiânica a prometer segurança, paz e ordem em um país atravessado pelo medo do terrorismo. Como já perceberam vários analistas, como George Packer, da revista New Yorker, em seu artigo “Head of the class”, Trump se dirige principalmente ao trabalhador norte-americano branco, pobre ou de classe média, colocando-se como o porta-voz de setores da sociedade que supostamente teriam sido prejudicados pela abertura das fronteiras – que trouxe os imigrantes e o aumento do desemprego – e pela agenda multiculturalista, que na defesa dos negros, mulheres e população LGBTT teria legado a uma posição secundarizada os homens brancos. Os “pequenos”, promete a retórica do ressentimento, se farão grandes novamente. Trump procura, nesse sentido, como bem destacado por Robyn Price Pierre, no artigo “How conservative wins the presidency in a liberal decade”, publicado na revista The Atlantic, mobilizar a mesma “minoria silenciosa” a quem Richard Nixon se dirigiu no final dos anos 1960, temerosa frente ao fortalecimento dos movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Abismados, assustados, paralisados, nos perguntamos: como Donald Trump chegou até aqui? De que maneira alguém com pautas tão reacionárias conseguiu se projetar como o candidato do Partido Republicano? Para além da retórica do ressentimento, do temor e do ódio direcionada ao “excluído e subjugado” trabalhador branco norte-americano, das questões pessoais que sempre importam na política – seu histrionismo, seu egocentrismo, seus bordões, que chamam a atenção e seduzem incautos em tempos de valorização de celebridades – e de dimensões estruturais que não podem ser secundarizadas – com destaque para a crise de representatividade dos políticos e dos partidos “tradicionais”, que favorecem a ascensão de outsiders, à esquerda e à direita, críticos ao sistema político como um todo –, é importante olhar para a trajetória recente do Partido Republicano e compreender que a ascensão de Trump se vincula a uma forte guinada à direita que contaminou o partido ao longo dos últimos anos.

A ascensão de Trump nesta perspectiva não pode ser dissociada da irresponsabilidade de setores conservadores do próprio Partido Republicano, que, na ânsia de radicalizar a agenda de oposição aos Democratas e, especialmente, ao governo Obama, se opondo no Congresso Nacional e nos meios de comunicação a absolutamente tudo proposto pelo presidente, contribuíram para o triunfo da retórica do ódio esposada por Trump. Regularização da situação dos imigrantes, regulamentação da posse de armas, criação de um sistema público de saúde… todas essas iniciativas sofreram forte oposição dos republicanos, inclusive daqueles mais moderados que silenciaram frente a discursos racistas e intolerantes, dirigidos contra Obama, acusando-o, diga-se de passagem, de não ser norte-americano. Assim como o movimento “Tea Party”, Trump deve ser entendido como uma das facetas da radicalização do “Grand Old Party”, que colocou como um de seus objetivos principais a derrota dos Democratas e de tudo o que eles representam ou supostamente representam em termos de políticas associadas às agendas da redistribuição e do reconhecimento das minorias.

É importante destacar que a ascensão de um personagem à direita como Trump como a face perversa da radicalização dos setores moderados do Partido Republicano não é uma manifestação isolada da política norte-americana, estando presente em outras geografias, como na Europa e mesmo no Brasil. Buscando derrotar os partidos de esquerda e centro-esquerda de seus respectivos países, segmentos conservadores vêem se comportando ao longo dos últimos anos como o aprendiz de feiticeiro – na feliz metáfora de Marx, no Manifesto Comunista –, dando impulso a determinadas forças mais à direita as quais eles não têm condições de controlar. Isso ocorreu nos Estados Unidos com os setores mais moderados do Partido Republicano atuando como aprendizes de feiticeiros a parirem o monstro e vem ocorrendo alhures. Em texto recente, chamei a atenção para este comportamento no Brasil ao me referir a setores do PSDB, que na ânsia de opor às políticas dos governos petistas acabaram por impulsionar discursos de ódio contra uma suposta ameaça de “esquerdização” do país, que contribuíram para o fortalecimento de personagens como Jair Bolsonaro.[1]

O mesmo comportamento de aprendiz de feiticeiro por parte dos setores conservadores também pode ser verificado recentemente no Reino Unido, quando, ao buscar apoio de setores mais à direita do Partido Conservador para vencer as eleições, David Cameron se comprometeu com a realização de um plebiscito para saída do Reino Unido da União Europeia. Quando a votação foi convocada, segmentos mais à direita de seu partido e lideranças de legendas da extrema-direita como o já mencionado Nigel Farange, do UKIP, se beneficiaram do momento e contra o posicionamento do próprio Cameron, tiveram sucesso em conduzir o Reino Unido em direção ao chamado “Brexit”.[2] Cameron, como aprendiz de feiticeiro, perdeu o controle das forças que ajudou a criar, e se viu forçado a renunciar, sendo substituído por Thereza May na condução do Partido Conservador e do Reino Unido.

Não se pode deixar de ressaltar que a ascensão de personagens como Donald Trump, Nigel Farange e Jair Bolsonaro também se vincula ao próprio fracasso da centro-esquerda em dar respostas concretas aos interesses, sonhos e projetos de grande parte da população de seus respectivos países. O Partido Democrata, de Hillary Clinton, o Partido Trabalhista, de Jeremy Corbyn e o Partido dos Trabalhadores, de Dilma Rousseff, ao se adequarem acriticamente ao status quo também criaram um terreno fértil para que outsiders e aventureiros fora do sistema pudessem despontar e oferecer discursos milagrosos como solução para a crise. Mas o ponto a ser destacado neste artigo é que mesmo diante reformismo conservador e dos avanços limitados que estes partidos de centro-esquerda tiveram no poder em relação às agendas da redistribuição e do reconhecimento, setores conservadores radicalizaram seus discursos e contribuíram para a ascensão de uma retórica do ódio da qual Trump é sua manifestação mais potente.

Uma vez parido o monstro, agora só resta torcer para que ele seja derrotado. Ainda que Hillary Clinton não seja a candidata dos sonhos de parte significativa de setores do Partido Democrata e muito menos da esquerda mundial, sua vitória, sobretudo se temperada pelo sopro progressista da agenda de Bernie Sanders, há de significar uma derrota importante da retórica do ódio que só tende a crescer e ganhar concretude caso Trump chegue à Casa Branca.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Fonte da imagem: <http://www.independent.co.uk/news/world/americas/us-elections/donald-trumps-voicemails-hacked-by-anonymous-a6913861.html> Acesso: 31 jul. 2016.

[1] Ver: PERLATTO, Fernando. “Concertação, capitulação ou golpe? Para sair da crise”. https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/14/concertacao-capitulacao-ou-golpe-para-sair-da-crise/

[2] Sobre o “Brexit” e o fortalecimento da direita, ver: PERLATTO, Fernando. “O Brexit e a utopia realista da União Europeia” https://revistaescuta.wordpress.com/2016/06/20/o-brexit-e-a-utopia-realista-da-uniao-europeia/

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