Maro Lara Martins*

Existe uma diferença entre conjuntura e estrutura. E, portanto, entre uma análise conjuntural, que não se confunde com a chamada análise de conjuntura de tipo jornalístico, e uma análise estrutural. Uma separação pra lá de trivial. Apontá-la não é ser original. Entretanto, existem boas razões para considerá-las, senão independentes, intercambiáveis.  Conjuntura e estrutura, se assim for de vontade do analista, podem ser mecanismos interessantes para se pensar o contemporâneo. Um tema que a princípio poderia ser de exclusividade da conjuntura, como a política, por exemplo, ao ser deslocada para a área estrutural, revela também pontos importantes que subsidiam os argumentos.

Outro movimento interessante deste jogo de escalas é a temporalidade que o acompanha. Afinal, a conjuntura possui um tempo mais acelerado, fatos e eventos se acumulam para dar-lhe seu movimento, condensando as experiências em curto espaço temporal. Por sua vez, a estrutura é o tempo da longa duração, da qual falava Braudel, ou mesmo a distensão reprodutiva a partir da dualidade presença/ausência. O tempo do imediato e o tempo da distensão a jogar suas sementes pelo caminho. O que nos leva a interpelação de um tema caro à teoria social contemporânea: a relação entre agência e estrutura. Postos, sobretudo, nas intermináveis conjugações entre diacronia e sincronia, das ações, das estruturas, dos tempos, das análises.

De todo modo, ao retornarmos ao tema da política contemporânea, especialmente a deste país, observarmos seus movimentos estruturais, suas florações conjunturais, seus tempos de eventos, a partir dos deslocamentos e das relações entre estrutura e conjuntura, vivemos um momento, raro pela sua nudez, de erupção vulcânica entre duas perspectivas sobre o país. De um lado, certa esperança e expectativa no bom futuro, a despeito de seu passado, que pode ser considerado virtuoso ou não, e, de outro lado, um diagnóstico centrado na ruína do destino, cujo sentido não é lá muito favorável.

A tensão entre o tempo bom e o tempo ruim, ainda que não posto nestes termos, evidencia alguns pontos interessantes. Em primeiro lugar, é da tradição da interpretação à brasileira, e de seus movimentos intelectuais e políticos, terem no cerne de seu debate esta oposição. Em segundo lugar, e não menos importante, o extravasamento de sentimentos acerca do tempo vivido, não somente como história pública, mas também como sentimento, de se velejar, ora por águas calmas e tranquilos, ora a se deparar com águas revoltas à beira do precipício.

Sobre o primeiro ponto, o movimento mais claro, é o retorno aos clássicos. Argumentos e perspectivas que estavam a se empoeirar nas estantes retomam posição central no debate. O passado, e seu possível abandono, a cobrarem seu preço. Não é bem os fantasmas saírem do armário, afinal, lá nunca estiveram, mas estavam esparsos e viviam vida fragmentária no limbo. Alguns assombram mais que outros. E temos lá nossos fantasminhas camaradas. Sobre o segundo ponto, essas perspectivas adentram com força e constância o mundo social e sua imaginação. Seus sonhos mais límpidos, seus sentimentos mais profundos. É o momento em que a interpretação ganha o mundo e se liberta do círculo que a concebeu.

Na história do país, poucos momentos evidenciam de modo claro, estes choques e transposições. Atualmente, vivemos um destes momentos. Não somente pela normalidade institucional ser rompida, o cotidiano e regular movimento de reprodução, confiança e legitimidade, normal funcionamento das instituições, etc. Ou pelo sombreamento puro de reativações boçais de doutrinas guardadas na lata do lixo. Mas, especialmente, pela oposição entre razão e sentimento, oferecidos, sobretudo, pelos rodopios inconstantes entre tempo bom, tempo ruim. Se o mundo das interpretações traria seus personagens, e suas dotações de sentido, o mundo social emergiria o sentimento, a dar-lhe substância e força a atuar no mundo. Jogados todos no redemoinho do tempo, cujo final, ainda é imprevisível.

O torneamento das interpretações do país, ao menos ao largo do século XX, passaria pela sedimentação das oposições realizadas pela sociologia modernista. Todas as suas florações, desde o período republicano, focalizaram nas relações entre Estado e sociedade no arranjo da modernidade brasileira. Seja pelo comparativismo interno, litoral e sertão, cidade e campo, urbano e rural, Brasil legal e Brasil real, seja na busca pela identidade nacional, mesmo que pelo regionalismo, seja pelo comparativismo externo, cujos modelos de entrada na modernidade, Inglaterra, França, EUA, e às vezes até a Alemanha, moldaram-se como paradigmas analíticos. Uma cartografia semântica das modernidades e das modernizações. Personagens a povoar a imaginação, ou auto imaginação identitária que permearia o território com estes tipos sociais. E claro, não precisa dizer, seus impactos na imaginação de uma elite acostumada a depreciação dos personagens subalternos. E sua hábil capacidade de popularização, muitas vezes via Estado, como no período Vargas, de seus pressupostos quanto à imaginação do quem somos.

A estratégia de construção por cima do país, a parir dos anos 1930, adquiriu uma nova complexidade nesta renovação de sua metafísica, em um momento no qual cultura e política, estariam intimamente conexas. Ainda que dirimidos ao longo do tempo, estas variações advindas da sociologia modernista deixaram suas marcas a impregnar a profundidade dos sentimentos sociais. Seja pela via negativa, logo, tempo ruim, a impedir a plena realização civilizatória, seja pela via positiva, tempo bom, a exaltar as singularidades civilizatórias e possibilidades de sucesso das consequências que este tempo possuiria. Não se trata propriamente de bipolaridade ou esquizofrenia coletiva este balançar do pêndulo, ou mesmo uma síndrome descrita pela psiquiatria. Mas estes sentimentos, de que o Brasil é o país do futuro, esta euforia desmedida, choca-se com o Brasil país do atraso, certo pessimismo profundo. Dando certo, ou não dando certo, percorrendo as linhas que garantiam sucesso ou não, o fato é que entre idílios e desilusões continuamos e possivelmente continuaremos.

Tivemos várias crises econômicas, políticas, sociais, em diversos momentos do trajeto brasileiro. Profundidades diversas. Personagens variados. E muito se questiona se as crises podem ser a própria rotina. O padrão poderia muito bem envolver-se sob o manto fino das crises conjunturais, ao estapear da solidez estrutural. Ao menos, se pensarmos na questão do Impedimento e da crise política atual. O padrão, desde o período pós-1930, é a interrupção dos mandatos presidenciais. Desde 1930, dos oito presidentes eleitos democraticamente apenas cinco terminaram o mandato. Somente oito presidentes eleitos democraticamente em 86 anos. E destes apenas cinco terminaram o mandato. Após 1988, nova fase republicana, pelo menos a se pensar nos marcos políticos, foram quatro presidentes eleitos pelo voto direto. Destes, dois cumpriram integralmente seus mandatos, enquanto um sofreu o impedimento e um parece ter poucas chances de retorno.

Nessa cultura política, o conflito pelo poder a partir de posições divergentes é apenas aparente. A finalidade das ações e negociações remete-se ao abrandamento das  tensões sociais  como  estratégia  da  política  levada  ao  cabo  por  políticos  profissionais, advindos do estamento burocrático, deixando à margem da agenda pública e do aparelho estatal discussões que levam ao confronto aberto e explícito pela ordenação dos projetos e dos sentidos do tempo.

O sentimento social de que a modernização efetuada a partir da Carta de 1988 possibilitaria, enfim, a autonomização dos subalternos, e congraçaria trilhos a serem percorridos de virtuose e justiça social, seja pela via do distributivismo estatal, seja pela via do Direito, surpreendidos pela opacidade das construções modernizantes. Retorno à interpretação clássica. Diferenças e variações entre as linhas do moderno e da modernização. Dentro desta dualidade, sua síntese parece de difícil solução. Os sobressaltos provavelmente não se darão pela via do ativismo societal, haja visto as consequências atuais da capitulação dos movimentos sociais pelo esponteneísmo que o ativismo virtual trouxe. Por outro lado, a via do Estado parece bloqueada por uma elite política capaz de subsumir seus interesses estamentais à própria reprodução institucional da democracia. Uma nova modernização sem conteúdo nos conduzirá a uma nova aventura imprevisível, nau sem rumo.

*Maro Lara Martins é doutor em Sociologia (IESP/Uerj), professor da Universidade Federal do Espírito Santo, e colaborador da Revista Escuta.

Crédito de imagem: JR Ripper. Fonte: http://guia.uol.com.br/album/2015/01/16/fotografias-premiadas-ganham-mostra-gratuita-no-centro-de-sp.htm?abrefoto=3#fotoNav=1 Acesso: 28 jul. 2016.

Anúncios