Jorge Chaloub*

Vivemos tempos difíceis para a esquerda. Pautas e ideias conservadoras, ou mesmo francamente reacionárias, ganham crescente influência não apenas em terras brasileiras, mas mundo afora, como eloquentemente demonstra a possível vitória de Donald Trump. Experiências de governo mesmo vagamente relacionadas a questões progressistas e aos movimentos sociais encontram-se, por outro lado, sob cerrado ataque, que se ampara não apenas em questões mais conjunturais, mas questiona o próprio centro do que se identifica como esquerda contemporaneamente.

Vocifera-se, nesse sentido, contra direitos de minorias longa e duramente conquistados pelos movimentos feminista, negro e LGBT, confrontados por ofensivas que vão do explícito discurso de ódio até anódinas interpretações da igualdade de oportunidade liberal. Assim como ataca-se, por outro lado, a supostamente excessiva hipertrofia estatal presente na esquerda.  Em esquema simplório, que não dá conta da maior complexidade do cenário político, a direita é identificada ao protagonismo do mercado e a esquerda à centralidade do Estado.

As críticas, entretanto, apenas na superfície atingem a defesa de parte da esquerda da forma Estado, que de fato merece, por vezes, claras reparações. O alvo mais profundo é, na verdade, a Política – entendida como definição do rumos da coletividade por seus membros – e seu eventual papel na redução de desigualdades. A centralidade da Política seria, segundo essa perspectiva, uma demonstração de irrealismo e desconhecimento da leis naturais que regem o mundo da economia. Não haveria problema no Estado caso ele se limitasse a política entendida como administração da ordem, na qual não há espaço para questionar os rumos estabelecidos pela moderna técnica, mas quando as decisões confrontam ditames técnicos supostamente neutros estamos em terreno proibido, com ações ditas “populistas” a confrontarem o bom andamento da economia.

O embate é perfeitamente demonstrado na suposta tensão entre o Orçamento e Constituição, frequentemente mobilizada em declarações do governo ilegítimo que nos assola. A carta constitucional, consolidação de uma série de grandes decisões políticas, deve ser equilibrada, segundo as palavras do atual Ministro da Saúde, por exemplo, com os valores do orçamento, imposição de uma racionalidade que ultrapassa as decisões do povo e deve, para o seu próprio bem, limitá-las. Se o constitucionalismo nasceu em parte como uma restrição da vontade da maioria, que deve submeter suas volições de momento à estabilidade das instituições, ele agora soa excessivamente “democrático” e deve dar lugar a mais duras restrições da voz dos muitos. Não é sem razão que o discurso de predomínio da razão técnica sobre a democrática ganha força em um governo que não apenas não passou pelo crivo das urnas, mas que, creio ser possível vaticinar, de modo algum seria bem sucedido em tal prova, ao menos se o seu pacote de medidas – bem resumidas no desmonte dos consensos sociais de 1988 – fosse claramente explicitado durante a disputa eleitoral.

O debate em torno da questão é, todavia, frequentemente mal colocado. Em recente artigo na Folha de São Paulo – “Para ter chances em 2018, a esquerda precisa encarar a economia” -, Celso Rocha de Barros identifica em um suposto antieconomicismo do Partidos dos Trabalhadores as razões da sua atual crise, que se espalharia, por sua vez, para toda a esquerda. Como contraponto, o autor afirma a autonomia do saber econômico, que não poderia ser submetido à lógica da política. O argumento é atravessado por algumas confusões. Primeiramente, Barros identifica política à vontade, em perspectiva excessivamente simplista. Em um segundo momento, ele opõe a plena autonomia da economia a sua submissão às vontades políticas, como se tivéssemos que escolher entre as duas opções. As relações entre economia e política por certo possuem padrões muito mais complexos que os vislumbrados, distantes dos extremos que o autor convenientemente constrói. Da mesma forma que a economia, enquanto saber, possui terrenos e lógicas próprias, também não é possível compreendê-la, do mesmo modo que outros campos do conhecimento, sem atentar para as influências políticas e conjunturais que a atravessam. Dizer que toda economia é política não importa, de modo algum, em submeter a economia à política e muito menos à vontade.

O mais relevante, contudo, é que o autor ignora a clara tendência, explícita ao longo das últimas décadas, de colonização da política pelas lógicas da economia. Em tempos de falta de pão, Barros reclama da qualidade dos brioches. Seja no vocabulário ou na ideias, cresce, desde o final da década de 1970, não apenas a limitação das decisões políticas pelas imposições econômicas, mas a defesa de uma concepção “economicista” da política, que a concebe como simples administração racional do mundo e não enquanto exercício de autodeterminação de um povo. Tal definição de política dificilmente pode ser conciliada com uma democracia plena.

A crescente hegemonia desse discurso, depois de anos de relativo enfraquecimento, é, aliás, a grande derrota de esquerda nessa conjuntura de golpe. Ganha outra vez corpo, por meio de uma hábil utilização dos meios de comunicação, um discurso de defesa das desigualdades, vistas como inevitáveis, e do mercado como único instrumento possível para a distribuição de recursos. Sofrem as minorias, que dependem da política para contestar a estrutura social que as aflige, e são ameaçadas boa parte das conquistas democráticas da Constituição de 1988, com constantes ataques contra o SUS e a Universidade Pública. Se – como defendemos em texto anterior nesse espaço – a Constituição ganha cada vez mais a feição de dique contra investidas antidemocráticas, urge, por outro lado, que a esquerda defenda uma concepção de política mais apta a produzir um país próximo dos seus valores.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

**Crédito da imagem: < http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/temer-propoe-avancos-para-o-pais-64872/; acesso: 24 jul. 2016.

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