Wallace Andrioli Guedes*

Morreu no último dia 2 de julho o cineasta Michael Cimino, cuja trajetória profissional sintetiza, talvez como nenhuma outra, as transformações no cinema norte-americano entre as décadas de 1970 e 1980. Parte de uma geração de jovens diretores que conseguiu tomar de assalto os grandes estúdios, Cimino chegou ao topo de Hollywood num momento em que a festa da liberdade autoral rolava há alguns anos, com nomes como Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Martin Scorsese, George Lucas e William Friedkin tendo conquistado respeito, prêmios e alguns milhões de dólares.

Depois de estrear bem com o ótimo O Último Golpe (1974), sob a proteção de Clint Eastwood (já um astro, que dava seus primeiros passos como diretor e produtor, por meio de sua empresa Malpaso Company), Cimino chutou a porta da indústria com seu segundo filme, O Franco Atirador (1978), épico amargo que falava de um dos temas caros ao cinema feito por essa turma: as consequências devastadoras da Guerra do Vietnã sobre homens e mulheres comuns. Vencedor de 5 Oscar em 1979, inclusive nas categorias melhor filme e melhor diretor, O Franco Atirador garantiu total liberdade a Cimino com o estúdio United Artists para a realização de seu próximo filme: O Portal do Paraíso (1980/1981) outro épico americano, em escala ainda maior, inspirado nos confrontos entre proprietários rurais no final do século XIX que deram origem à chamada Guerra do Condado de Johnson (1889-1893), no estado do Wyoming. Como Coppola em Apocalypse Now (1979), Cimino surtou com o poder conquistado e conduziu as filmagens num ritmo próprio, estourando repetidamente orçamentos e cronogramas. Reza a lenda que, durante a pós-produção, ele chegou a colocar seguranças armados na porta da sala de montagem, para impedir que qualquer executivo do estúdio tentasse interferir em seu trabalho. Hollywood provava os extremos do cinema de autor.

O Portal do Paraíso foi um estrondoso fracasso de público e de crítica. Os grandes estúdios retomaram as rédeas de seus negócios. Spielberg, Lucas, Scorsese e, em menor medida, Coppola e Friedkin se adaptaram à nova realidade, de um reduzido controle criativo sobre seus filmes. Mas não parecia haver mais espaço para o agora maldito Cimino. O Ano do Dragão (1985), seu trabalho seguinte, ainda fez algum barulho, mas afundou em críticas ruins e acusações de racismo na representação da comunidade chinesa em Nova York. Daí em diante, Cimino ainda voltou a dirigir em três ocasiões, sempre passando em brancas nuvens. Após Na Trilha do Sol (1996), mergulhou no ostracismo.

Passados 35 anos, e sob a sombra da recente partida de Cimino, vale revisitar O Portal do Paraíso e questionar: será que ele realmente merece ser tão detestado, merece carregar a pecha de coveiro do sonho de uma Hollywood criativa e controlada por verdadeiros artistas? Depois de hipnotizantes três horas e meia diante de uma belíssima cópia restaurada do filme, não há como responder a essa pergunta a não ser com uma negativa absoluta. É verdade que O Portal do Paraíso não chega a ser a obra-prima que Cimino imaginou. Se a primeira hora, dedicada à apresentação do personagem de Kris Kristofferson e da questão política tratada no filme, é irretocável, logo em seguida a narrativa faz um desvio digressivo em direção a uma história de amor que talvez dilua um pouco a potência do debate sobre a violência contra imigrantes nos Estados Unidos do final do século XIX. É interessante, aliás, como O Portal do Paraíso, pronto, nos deixa ver claramente a perda de foco de Cimino, que parece no meio do caminho se encantar totalmente com os hábitos de socialização daqueles imigrantes naquela comunidade específica e se dedica a filmá-los interminavelmente, esquecendo, e nos fazendo esquecer, do embate moral e político entre Kristofferson e a associação de criadores de gado da região.

Mas um olhar cuidadoso revela que mesmo essa aparente falta de foco do diretor é coerente com a proposta de seu filme. Ao se debruçar sobre os personagens dos imigrantes, mergulhar em seu mundo e filmá-los com absoluto carinho, Cimino constrói uma análise política devastadora sobre o sonho americano, revelando sua falência de forma muito semelhante ao que Martin Scorsese faria duas décadas depois, em Gangues de Nova York (2002). Não é à toa que o salão em que se passam as cenas mais digressivas de O Portal do Paraíso, nas quais vemos esses imigrantes em plena ebulição de suas práticas culturais, se chama Heaven’s gate. Para fora da porta daquele micro-paraíso, eles encontram o inferno americano. Em tempos de Donald Trump, nada mais atual.

* Wallace Andrioli Guedes é Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://cinearchive.org/post/111213590250/the-1980-epic-american-western-heavens-gate-a&gt; Acesso em: 21 jul.2016. 

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