Fernando Perlatto*

As cidades brasileiras fervem. Junho de 2013 foi apenas a ponta mais visível e explosiva de uma agitação social que vem atravessando de ponta a ponta as cidades no Brasil, inaugurando um ciclo de mobilizações urbanas à esquerda e à direita que não se via desde o processo de redemocratização do país. O espaço público brasileiro está sendo ocupado e disputado por diferentes forças sociais. A vida urbana pulsa em um Brasil em crise, atravessado pela desordem, pelo tumulto, pela violência e por desigualdades várias. Especialmente as metrópoles estão em ponto de combustão. As vísceras do nosso processo de modernização “pelo alto”, que tem nas contradições das cidades suas manifestações mais evidentes, estão abertas e escancaradas à vista todos. Basta olhar. A qualquer momento, tudo pode ir para os ares. As tensões se agigantam. A questão urbana no país virou nitroglicerina pura. Pronta para explodir.

Em meio ao caos infraestrutural, à brutalidade urbana e à pobreza que tomam conta do tecido social do país, as cidades brasileiras têm testemunhado um movimento inédito de constituição de um associativismo urbano potente, que se manifesta na organização de coletivos formados especialmente por jovens, que ocupam o espaço público a denunciar processos de exclusão e gentrificação, o alto custo de vida nas grandes metrópoles, a especulação imobiliária, o crescente déficit habitacional e as péssimas condições da mobilidade urbana, se apropriando e mobilizando o vocabulário do direito à cidade. Para esses movimentos, heterogêneos, plurais e diversos em seus discursos e performances, a cidade tem que ser democrática ou não será. Exemplar potente da energia desse associativismo urbano é o Movimento Ocupe Estelita (MOE), surgido no Recife, que conseguiu articular em torno de si uma rede ampla de ativistas sociais, lideranças populares, artistas e intelectuais para denunciar o Projeto Novo Recife, que quer construir doze torres no Cais José Estelita, nas margens do rio Capibaribe, expulsando pessoas sob a lógica da apropriação privada da cidade.

“A lama que trama a fama dos cartões postais/ O drama que banca a fome desses animais. O novo pro velho Recife e seus ancestrais/ Corais que se quebram e choram a beira dos cais. 12 torres no Cais/12 torres a mais. Erro das estatais/sangue jorra no Cais”, canta Criolo na música “Sangue no Cais”, em homenagem ao MOE. E foi também para homenagear e fortalecer o MOE que o norte-americano Benjamin Moser – autor da biografia Clarice (Cosac Naify, 2009) – destinou para o movimento os recursos arrecadados com a venda do livro Cemitério da Esperança, publicado em 2014 como e-book pela editora Cesárea. E é também ao Ocupe Estelita que Moser dedica a obra Autoimperialismo. Três ensaios sobre o Brasil, que lançada recentemente pela editora Planeta, contendo além do texto “Cemitério da Esperança”, publicado anteriormente, outros dois ensaios intitulados “A pornografia dos bandeirantes” e “Autoimperialismo”. Os três textos se articulam na busca por olhar as cidades brasileiras – em especial, Brasília – para refletir sobre o processo de modernização do Brasil em meio às suas contradições urbanas.

Pensar as cidades para construir em forma de ensaio uma interpretação sobre os processos de modernização de determinados países tem sido um movimento constante na imaginação de diferentes críticos culturais ao longo das últimas décadas. Marshall Berman fez isso de forma primorosa em seu livro Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, quando, para refletir sobre os processos de modernização na França, na Rússia e nos Estados Unidos, analisou variados espaços e arquiteturas como o Palácio de Cristal de Joseph Paxton, os bulevares parisienses de Haussmann, os projetos de Petersburgo, as rodovias de Nova York. Richard Morse, em texto primoroso sobre as cidades periféricas como “arenas culturais”, pensa o tema do modernismo e da modernização em metrópoles da Rússia, Áustria e América Latina, a partir da mobilização de autores dessas diferentes geografias; Angel Rama, em livro recentemente reeditado no Brasil pela editora Boitempo, A Cidade e as Letras, discute a expansão das cidades latino-americanas, a relação entre os letrados e os circuitos de poder, ao passo que Beatriz Sarlo reflete sobre a modernização de Buenos Aires e de outras cidades em diferentes ensaios coligidos em obras como Cenas da Vida Pós-Moderna e A Cidade vista: mercadorias e cultura urbana.

A mobilização da forma ensaística para interpretar os processos de modernização dos países a partir da reflexão sobre a questão urbana também constituiu uma tradição importante em terras brasileiras, do que é exemplar a clássica reflexão de Sérgio Buarque de Holanda sobre o “Ladrilhador” e o “Semeador”, formulada em Raízes do Brasil, no sentido de comparar os processos de colonização de Portugal e da Espanha. Em tempos mais recentes, Antonio Risério publicou um ensaio sofisticado, de grande fôlego e potência, intitulado As Cidades no Brasil, no qual analisa aspectos diversos do fenômeno urbano no país, abordado temáticas relacionadas à estética, à arquitetura e ao urbanismo.

Autoimperialismo. Três ensaios sobre o Brasil, de Benjamim Moser, se encaixa nessa tradição ensaística da crítica cultural que olha as cidades para pensar o Brasil e seu processo de modernização. O autor reconhece que norte-americanos como ele quando escrevem sobre o país o fazem com cautela e prudência, uma vez que “cientes de nossa associação ao império do norte, nos esforçamos sobremaneira para ser ‘respeitosos’”. Porém, neste livro Moser joga às favas a condescendência e bate forte, à luz da questão urbana, no nosso processo de modernização. Contra uma visão que tende a encarar a América Latina apenas como vítima da história e a olhar o povo colonizado somente na chave da passividade, o que se tem nos ensaios que compõem este livro é uma inversão de perspectiva – que, embora reconheça os processos de dominação externos – não pretende ser benevolente e afável ao olhar o país, colocando ênfase primordialmente no imperialismo interno, praticado por uma elite, que na ânsia de apagar o passado, colonizou internamente o Brasil. O símbolo principal deste “autoimperialismo”, como o denomina o autor, seria Brasília.

Brasília é a obsessão de Moser nos três ensaios que compõem Autoimperialismo e é a partir da capital federal que ele procura refletir sobre diferentes aspectos da modernização brasileira. Ressalte-se que Brasília é uma fonte de atração, inquietação e incômodo para os olhares estrangeiros variados, até mesmo pela razão de que, como destaca o próprio Moser, a cidade “captou a imaginação do mundo”; “nenhum monumento do século XX foi mais espetacular do que Brasília (…). Sua escala faraônica, sua ambição artística e seu impacto político imprimiram-lhe um encanto que nenhuma outra estrutura contemporânea jamais alcançou”. Em um dos ensaios de um livro publicado ano passado, intitulado Viagens da Amazônia às Malvinas, Beatriz Sarlo também sinaliza o choque e o espanto que teve com a “Meca modernista de Brasília” que encontrou em suas viagens de juventude pela América Latina. E Marshall Berman, no “Prefácio” à segunda edição no Brasil de Tudo que é Sólido Desmancha no Ar também menciona seu desagrado com a nova capital do Brasil, que, segundo ele, seria uma cidade antidemocrática, que, com suas grandes avenidas projetadas para os carros, impossibilitaria o encontro entre as pessoas.

Ainda que com perspectivas diferenciadas, Moser escreve sobre Brasília desta mesma posição crítica assumida por Berman, embora seja interessante perceber como sua visão sobre a cidade está permeada não apenas pela sua própria experiência na capital, mas também pelo olhar que sua biografada Clarice Lispector construiu sobre a cidade, em seu ensaio “Brasília”, contido no livro Clarice Lispector. Todos os Contos, organizado pelo próprio Moser. O título do texto que abre Autoimperialismo é muito certeiro no sentido de expor para o leitor como Moser compreende Brasília: um “cemitério de esperança”. Enquanto sua arquitetura monumental “procura transpirar permanência, já se encontra em decadência”. Brasília o constrange com a sua perspectiva totalitária, sua enorme paisagem, sua claustrofobia, seu isolamento, seu fechamento em si. “A escala esmagadora”, diz Moser, é “deliberada” e “o visitante tem razão de sentir-se esmagado: a paisagem é planejada para subjugar completamente o indivíduo”. Construída sob o impulso de uma “fantasia totalitária de ordem e progresso, de linhas retas, de programas impecáveis”, Brasília é uma cidade que se volta contra o passado e que desdenha o povo. Apesar da forma moderna, a arquitetura monumental de Brasília revela seu “conteúdo retrógrado”. Na capital federal, “o triunfo do monumento sobre a cidade foi levado ao seu extremo lógico”.

Brasília é apresentada por Moser como uma espécie de antípoda a outras cidades brasileiras, como Olinda, Paraty e Ouro Preto, que foram urbes construídas como antídotos ao isolamento e ao desespero das pessoas; nesses lugares, não se vê a megalomania dos monumentos que pretendem superar a vida; pelo contrário, diz Moser, “são íntimos, confortáveis, desprovidos da pretensão de rivalizar com as florestas e montanhas e desertos do Brasil”. Essas cidades teriam sua beleza própria, sem ter que recorrer a uma arquitetura totalitarista importada de um país estranho para parecer singular. Brasília quis escapar ao Brasil e fundar o novo à custa do passado, como se fez também no Rio de Janeiro no começo da Primeira República, quando, sob a batuta de Pereira Passos, se expulsou o povo para as margens e periferias, querendo fazer da cidade uma nova Paris. Pereira Passos e Niemeyer, dirá Moser, em nome de um progresso simbólico, se dão as mãos em direção a um futuro que quer escapar do Brasil real, da história do país e das suas gentes.

As baterias de Moser se voltam especialmente contra Niemeyer e aquilo que ele chama de arquitetura totalitarista que deliberadamente subjuga, oprime, reduz e esmaga o indivíduo. Para o autor, Niemeyer “nunca conseguiu dizer não a um tirano”, citando como exemplos Stalin e Fidel Castro, e isso, segundo Moser, explicaria, em grande medida, a sua arquitetura opressiva. Talvez seja este um dos pontos mais frágeis dos ensaios de Autoimperialismo, uma vez que, em alguns momentos, Moser parece sugerir que Brasília é o resultado de uma mente apenas, quando a construção da cidade se ancorava em um espírito de época mais amplo, que transcendia os interesses de Niemeyer em si, sendo a concretização de vários sonhos, projetos e utopias. E mesmo a visão que Moser constrói sobre Niemeyer apenas focalizando seu viés autoritário parece não fazer jus a uma arquitetura, que, pela complexidade, dificilmente pode ser interpretada por adjetivações tão fortes, sejam elas positivadas ou negativadas, sendo atravessada por um mosaico de erros, mas também de acertos, como sugere o documentário como A Vida é um Sopro (Fabiano Maciel, 2012). A perspectiva da ambiguidade talvez faça mais sentido para a compreensão não apenas da contraditória arquitetura de Niemeyer, mas também de Brasília.

Quando Moser transcende a análise meramente individual sobre Niemeyer e busca discutir em uma perspectiva mais estrutural a forma como nossas elites pensam o Brasil, seu povo, suas tradições e seu passado, suas reflexões alçam voos mais potentes. O termo “autoimperialismo” provoca e faz pensar sobre o “espectro do progresso” que ronda o país e a crença em um futuro ancorado em uma “fantasia totalitária, de linhas retas, de programas impecáveis”, que não morreram e que ainda estão aí, como destaca Moser – em reformas urbanas grandiosas, nos estádios da Copa do Mundo e das Olimpíadas, no Museu do Amanhã, projetado por Santiago Calatrava – a impulsionar a modernização das nossas cidades. A forma pode parecer moderna, mas o conteúdo é retrógrado; mudam-se e atualizam-se as formas arquitetônicas sob a retórica da modernidade, mas as “formas sociais subjacentes” permanecem imperturbadas, intocadas.

É de se imaginar que alguns patriotas de plantão não gostarão de ler o que se diz em Autoimperialismo. Virarão a cara, torcerão o nariz, resmungarão. Mas, aqueles que querem pensar o Brasil, seu processo de modernização e as contradições da questão urbana – que ganham dramaticidade na história recente do país – devem escutar com atenção o que Moser tem a dizer. Pode-se concordar ou não com os argumentos que estruturam os ensaios reunidos; mas é um erro se esquivar do que eles têm a falar; os textos aqui compilados cumprem a função que ensaios devem atingir: provocar o leitor e fazer pensar, e chamar a atenção para a importância que movimentos como o Ocupe Estelita têm na defesa de uma agenda do direito à cidade que vai em direção contrária à retórica e à prática do “autoimperialismo” nacional, que na ânsia de construir o futuro, deseja jogar uma pá de cal no passado.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

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