Eduardo Freitas*

“FAVOR NÃO DISCUTIR POLÍTICA OBRIGADO”. Uma folha de oficio, disposta no modo paisagem, alertava a todos os frequentadores do estabelecimento que havia uma norma a ser respeitada por ali. Acompanhado de um amigo, minha chegada ao Bar do Assis, fazia com que o bar estivesse quase em sua lotação máxima, afinal já éramos cinco pessoas. A normativa anunciada me chamara atenção tanto quanto as bandejas na pequena estufa sobre o balcão, que aconchegava uma bandeja de língua e outra com costela, ambas com bastante molho e apetitosas afeições.

Passado aquele preâmbulo obrigatório de debutar em um novo botequim, que consiste sempre em chegar falando bem baixo, pedir uma cerveja rapidamente antes de qualquer coisa e não exigir nada de diferente do que o ofertado pelo cara de trás do balcão, como pedir outro copo, ou um pano para enxugar a mesa. Feito isso, não conseguia me desvencilhar do anuncio que rejeitava a discussão política por ali. Pensava comigo mesmo quais as motivações possíveis para que aquele brado proibitivo fosse anunciado em duas das três paredes possíveis de se colocar algum cartaz. Seria o dono, um ex – militante do Partidão, fiel aos ensinamentos leninistas, furioso com qualquer comentário conservador? Seria o dono um ultra liberal conservador, inimigo número um do foro se são paulo e que jamais serviria uma cerveja a um cliente bolivariano? Ou ali já teria sido palco de uma batalha épica, uma espécie de remake da “Revoada das Galinhas Verdes”[1], em uma versão mais modesta? Todas as possibilidades construíam enredos prováveis e todos esses eram sedutores demais.

Já na segunda cerveja, com um pouco mais de fluência, naquela prosa compulsória particular dos botequins, provocado por um questionamento lúdico meu, Assis disse que a placa estava ali porque precisamente dois ou três frequentadores não sabiam travar as discussões tão frequentes sobre a conjuntura da política nacional  em níveis civilizatórios. Perdiam a compostura, e em atos frequentemente intempestivos, atrapalhariam o convívio daquela possível multidão de no máximo cinco pessoas. Ouvi atenta a explicação sem me dar conta, de imediato, de quanta representação simbólica havia naquilo tudo. Assis, em um discurso moderado e enigmático, transparecia orgulho de sua posição moderadora, versava sobre aquela arena de disputa de posições com firmeza, dizendo agora não mais só em cartaz, mas em fala, que excessos ali não seriam permitidos. Assis era o moderador do conflito, uma espécie de juiz e polícia, mas também era o homem das leis. Hobbes não me pareceria interessado na espetacular língua servida com batatas, mas ficaria inquieto ao ver tanto poder estabelecido atrás daquele balcão. Era difícil imaginar o antigo cozinheiro do Bar Tricolor, convocando com prazo de quarenta e oito horas, uma convenção com os frequentadores habituais, para decidir quais as regras da birosca. Assis, o colador e mentor do cartaz, ele mesmo, havia deliberado unicamente com suas consciências e moral, que ali aquela balburdia não aconteceria mais, e fez questão de dizer isso a todos e que tal prática seria assim, para garantir um bem estar social a todos os seus frequentadores. A superação do estado de natureza era necessária. Um gesto de generosidade incomum, se pensarmos historicamente o que acontece quando tanto poder é dado a um só homem. A Lei, a Justiça, a Polícia, a Imprensa, tudo era controlado por um só homem, que agora controlava temperatura e a chegada da terceira cerveja da noite.

A opressão, tão combatida desde os valores da Modernidade, parece encontrar leito firme nos mais típicos butiquins. Leis severas e destoantes do desejo da maioria ajudam a compor um ambiente inóspito e atraente na hora de molhar as palavras e antes de começar mais uma hipótese genial sobre o ultimo acontecimento do dia. E registro duas passagens distintas e curiosas, por entre mesas e balcões, para sustentar tal argumento.

Uma portinhola, de uma rua que subia em curva, o balcão comandado pelo Seu Wilson, duas mesas coladas em duas paredes, e uma estufa monotemática que abrigava diariamente uma saborosa dobradinha a milanesa, era o habitat da opressão. No verso do papel que antes embalara dez derbis, escrito pela caneta bic presa ao barbante vindo de uma prateleira que insistia em cair, estava o recado aos poucos frequentadores teimosos: “a pinga aqui é 0,50. não vendemos pinga de 0,20, nem de 0,30, nem de 0,40. a pinga aqui é 0,50”. Com uma didática e retórica invejável, Seu Wilson estava dando de ombros a qualquer teoria econômica, negando a prática milenar da pechincha no varejo, e avisando a todos que ali debruçavam seus cotovelos, que a lei estava promulgada. Não haveria conversa, negociata, lobby, tese de defesa nem réplica, a pinga era cinquenta centavos.

Distando não mais que trezentos metros do balcão do Seu Wilson, Bené era um velho personagem ranzinza, sempre muito bem vestido, que era dono de um bar (na categorização vigente, aquele já não era mais um butiquim) que fez seu nome e fama, apoiado em normas rígidas que proibiam as demonstrações publicas de afeto. Uma mão dada, e um leve carinho sobre o ombro do cônjuge ainda eram permitidos, mas qualquer troca de beijos, das tímidas as mais efusivas, eram acompanhadas de um ríspido alerta dado in loco por Bené. Sua cozinha e cerveja (nem sempre bem gelada) não angariavam tanto publico como suas historias que passavam rapidamente de boca em boca pela cidade. Não consigo imaginar algum lugar onde a expressão de amor seja não só desestimulada como vedada.  Uma tirania dos sem coração, liderada por aquele homem só.

Sentado próximo ao balcão do Assis, olhar atento ao Jornal Nacional, Cláudio dava pitacos, que pareciam certeiros, sobre a natureza da divida publica do Rio e suas consequências. Entre uma garfada e outra na língua, eleita por ele, a melhor da cidade, agora versa sobre os mandos e desmandos do Judiciário brasileiro. Ignora de forma categórica a Lei de Assis, e o que mais me chama atenção, faz isso a centímetros do soberano que nesse exato momento manuseia uma faca afiada sobre um pedaço generoso de peito. A prosa coletiva que se estabelece em todo butiquim, e em mais uma noticia narrada por Bonner, conceitos, analises e impressões políticas são lançadas. Faço parte desse momento, mas confesso que sempre com receio das práticas policialescas de Assis. Incentivada sempre pelos comentários de Cláudio, a conversa vai ganhando corpo e fluidez e curiosamente alternando  impressões políticas e dicas de outras boas comidas de butiquins pela cidade.

Em minha mesa, depois de findada língua e com chegada de uma carne de sol e mandioca com manteiga de garrafa, travo com meu amigo uma discussão rasa mas interessante sobre as argumentações jurídicas usadas no processo de impeachment de Dilma. Faço um esforço sobre-humano para baixar o volume da minha fala, costumeiramente bem alta, e apesar do papo ser bem interessante devido ao conhecimento jurídico do meu interlocutor, a atenção em não infringir a regra era constante. Cláudio podia. Eu não. Essa lei não promulgada ali é universal aos estabelecimentos pares de Assis: o tempo de mesa e convívio na birosca de cada frequentador é transformado em poder com estruturas bem rígidas e permitem algumas regalias. Quem decide? Estava tudo sob a jurisdição da República de Assis. Inegavelmente que aqueles que possuem sua mesa preferida, os que frequentam o dia certo a espera da moela mais fresca, os que são recebidos pelo chamar do apelido dado e utilizado somente ali, recebem privilégios que um novato qualquer com setenta minutos de mesa não pode ousar querer contestar.

De uma forma inversa a natural, aquela conversa toda, todo conjunto simbólico me fazia lembrar que muitas das vezes durante minha formação tradicional comprimida nos tempos de universidade, o espaço não tradicional da sala era imensamente mais produtivo que algumas aulas: a cantina do instituto, a mesa do restaurante universitário, e evidentemente outros butiquins. Conversas intermináveis sobre a conjuntura política nacional, embebidas por cervejas promocionais, ajudavam e muito na apropriação dos conceitos ditos pelos doutores dias atrás. Os debates sem regras tão rígidas, mas que sempre garantem a todos, falas e replicas infinitas, era nossa práxis diletante. Era a nossa ágora até o término da terceira saideira.

A mulher de Cláudio liga. Duas garfadas com pressa e aquele último pedaço de língua se arrastada pelo prato preso ao garfo, fazendo todo molho e farinha desaparecer em apenas uma volta e meia. Os pitacos conjunturais não eram sua única habilidade. Era hora de buscar a esposa no curso e Cláudio então faz questão de se despedir educadamente de todos, inclusive dos novatos e já descendo o único degrau até a rua, anuncia a Assis que na próxima semana retornará. Sai ileso, sem qualquer punição verbal por ter insistido em violar a lei, e ainda recebe uma saudação cordial em sua despedida e a afirmação que seu pedaço de língua estará reservado.

A prosa ganha outros contornos e destinos, e vê uma pequenina porção de bolinho de bacalhau ser servida como cortesia em nossa mesa o que imediatamente me pareceu um gesto de aceite do nosso comportamento, uma recompensa por nossa ida, nosso consumo e em particular em respeito as leis. E para não correr o risco de manchar nossa boa conduta, na primeira percepção de que a pia estava sendo enxugada e as três panelas que estavam sobre uma chapa seguiam o caminho do armário, pedimos nossa saideira e a conta. Novatos devem se comportar como tal, não podem e não devem incomodar. Isso é coisa de bar, não de butiquim.

Era hora de seguir nosso rumo em direção ao Bar do Dadinho. Nosso terceiro destino na noite de terça, onde voluntariamente fomos servos de Elcir e Assis. Era hora de sentir desafiado por um terceiro soberano, descobrir suas regras, ajustar nossa conduta e ver o que tinha na estufa como recompensa naquele próximo áspero cenário. Em cada butiquim uma edificação de poder, em cada balcão uma norma e forma de um beber civilizatório e tudo isso assentado na posição de quem está e quem não está atrás do balcão. Retorno para casa por volta de onze e vinte, após mesmo sem querer recusar mais uma saideira, e só consigo  refletir o quão desonesto são os que sustentam que as ciências sociais, a filosofia ou qualquer campo de conhecimento se erguem metodologicamente em oposição as “conversas de butiquim”. Hereges sóbrios da academia que deveriam trocar seus gabinetes por um balcão qualquer!

*Eduardo Freitas é alvinegro, técnico de assuntos educacionais da UFF – Campus de Volta Redonda -, mestre em Ciências Sociais (UFJF), e colabora com a Revista Escuta.

Crédito de imagem: Eduardo Freitas (acervo pessoal).

Notas:

[1] No dia 7 de outubro de 1934, na Praça da Sé, militantes anarquistas, trotskistas, comunistas, socialistas, sindicalistas e imigrantes fugidos das ditaduras europeias, se organizaram para evitar o que seria um grande desfile das milícias armadas de Plinio Salgado e sua Ação Integralista. A Praça da Sé virou um campo de batalha, com tiros, bombas, rajadas de metralhadoras, muitos feridos e vários mortos. O dia em que o fascismo brasileiro foi humilhado. O dia em que os galinhas verdes tiveram que voar. Para mais recomenda-se a leitura de “A Revoada dos Galinhas Verdes – Uma História da Luta Contra o Facismo no Brasil”, de Fúlvio Abramo – Editora Veneta

 

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