Francini Venâncio de Oliveira *

Quando muito recorrentes, certos temas parecem indicar os grandes debates que pautam e orientam o pensamento de uma época, tornando-se verdadeiros indícios dos discursos e do programa intelectual de toda uma geração. Octavio Paz, por exemplo, abre seu famoso ensaio O Labirinto da Solidão(publicado pela primeira vez em 1950)chamando a atenção do leitor para “a insistência com que em certos períodos os povos se voltam para si mesmos e se perguntam”[1] – bem como para a existência de um certo sentimento de inferioridade que insistia em permanecer no imaginário nacional.

O filósofo Samuel Ramos (1897-1959), imbuído da tarefa histórica de reconfigurar a cultura e a realidade mexicanas em contexto pós-revolucionário, já havia denunciado décadas antes essa espécie de “desconfiança instintiva”, a pairar sobre o mexicano e fazê-lo duvidar constantemente da originalidade de suas expressões e de sua capacidade criativa frente ao mundo.[2] O mexicano, escreve Paz embebido nas ideias de Ramos, “sucessivamente afrancesado, hispanista, indigenista, atravessa a história como um cometa de jade, que de vez em quando relampagueia”[3]e traz à tona sua orfandade nessa busca incessante por filiação.

Servindo-se de uma interpretação ensaística bastante peculiar, esses autores compreendiam a história do México em grande medida como a história do homem à procura de sua origem, mas de um ser que também deseja e reivindica de alguma maneira os laços estabelecidos com o Ocidente, sem, no entanto, lograr ultrapassar os fantasmas e o peso da herança colonial.

O tema da falta, longe de ser uma exclusividade da intelectualidade mexicana, apresenta-se de forma recorrente também no Brasil e em outros países da região, tendo se transformado, destarte, em uma das marcas do chamado pensamento social latino-americano. A preocupação com o sentido das idiossincrasias locais foi, aliás, um dos tópicos a atravessar o debate acerca da modernidade e seus respectivos impasses em contextos periféricos, seja na perspectiva da falta, acima mencionada, seja na chave do atraso e, consequentemente, de sua necessária superação. De Silvio Romero a Mário de Andrade; de Sérgio Buarque a Florestan Fernandes, este traço um tanto quanto reincidente e incansável pela busca do “caráter nacional” pode, a meu ver, ser facilmente identificado pelo leitor já familiarizado com as coisas do Brasil – independentemente da diversidade das orientações teóricas aí presentes. [4]

Este vezo por vezes excessivo em torno do que não fomos nem poderíamos ser, quando comparados à Europa, foi aos poucos ganhando novos contornos, bem se sabe; assim como também foi sendo superado por perspectivas de análise que emergiam no pós-guerra como necessárias para que nos afastássemos de vez de uma lógica binária e eurocêntrica do saber, que mais parecia nos condenar a uma vida de todo amarrada àquele “complexo de vira-lata” – sagazmente percebido por Nelson Rodrigues entre nós, ainda que em contexto futebolístico e diverso deste.

A emergência de novos aportes analíticos ancorados em perspectivas pós-coloniais não invalida, contudo, a importância dos autores clássicos do pensamento social brasileiro e latino-americano; tampouco nos impede de reconhecer a relevância de muitas iniciativas promissoras e frutíferas desses intelectuais em diversos países do continente americano. Uma dessas iniciativas foi, inclusive, destacada recentemente pela própria Escuta – quando trouxe à baila, na seção Escuta Recomenda, um projeto idealizado por Darcy Ribeiro na década de 1960 e que, a meu ver, evidencia a nobre motivação do antropólogo em prol da democratização do acesso da população à cultura nacional para o exercício da vida pública, mas sobretudo para fazer com que tomássemos posse daquilo que que nos dizia respeito  para que, enfim, nos transformássemos no que poderíamos ser. Refiro-me, para ser mais exata, ao projeto editorial da Biblioteca Básica Brasileira (BBB), retomado pela FUNDAR (Fundação Darcy Ribeiro) e cujo propósito reside em ofertar ao público em geral uma espécie de “guia básico” de autores e obras consagrados pela tradição para se conhecer e se compreender melhor o Brasil, comment Il fault, aos brasileiros.

A trajetória e as ideias de Darcy, assim como de outros ensaístas, eram tecidas e costuradas em parceria com outros intelectuais da América Latina, que construíam projetos similares, e só fazem sentido se compreendidas através da ancoragem que possuíam na vida pública e política que tais intelectuais mantinham e eram por ela alimentados.

Como a revista vem insistindo em sublinhar por meio de seus colaboradores mais frequentes desde que foi lançada, em tempos de crescente e já saturada especialização, o intelectual público parece ter desaparecido ou, no mínimo, ter sido jogado para escanteio, tornando-se assim uma figura démodé, que mal sobrevive à margem desse processo.

Ocorre-me então uma observação bastante provocativa de Russell Jacoby, feita em 1987 em Os últimos intelectuais, ao comparar o “intelectual à antiga” a um cavalo e uma carroça, com o intuito de denunciar seu deslocamento frente a esta nova lógica. Em tempos cada vez mais acirrados de institucionalização do saber, a imagem surge, sobretudo, como fonte de resistência e nos convida a uma reflexão de tipo raro em nosso meio, envolvendo os rumos que as universidades, com seus saberes apartados da vida pública e cada mais compartimentados, têm tomado. Parafraseando Antonio Candido: não seria tempo de começarmos a nos apalpar novamente? A Biblioteca Básica Brasileira de Darcy Ribeiro pode ser um bom (re)começo.

 

* Francini Venâncio de Oliveira é mestre e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo(USP) e pós-doutora pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), além de colaboradora da Escuta.

Créditos da imagem: Alvarez Bravo.

Disponível em: < http://www.elfikurten.com.br/2014_08_01_archive.html&gt;. Acesso em: 06 jul. 2016.

[1] PAZ, Octavio. O labirinto da solidão e post scriptum. 3ª. ed.Trad. Eliane Zagury. SP: Paz e Terra, 1992. P.14

[2]Cf. RAMOS, Samuel. El perfil del hombre y la cultura en México. México, 1934. (1ª ed.)

[3] PAZ, O. Op.cit. p.24

[4]Cf. IANNI, Octavio. Tendências do pensamento brasileiro. Tempo Social. SP:USP, nov.2000.

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