Fernando Perlatto*

Quando se depara com um livro como Breviário do Brasil, lançado recentemente no país pela editora Tinta da China, é que se tem a dimensão concreta das lacunas do nosso mercado editorial, engolido por publicações de best-sellers, sagas de heróis e livros de colorir, e carente de pérolas como essa. É de se revoltar que nós brasileiros tenhamos permanecido tanto tempo alheios a este retrato fino e sofisticado do que somos nós e do que é o Brasil, construído pela escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, essa magistral artífice das palavras. Um ensaio de tirar o chapéu, que corta e expõe com a delicadeza e a força lusitana nossas riquezas, potências e limites. Um livro a ser saboreado.

Já se disse que o olhar estrangeiro tem uma sensibilidade para captar aquilo que o radar nacional não pega, não percebe, já que tão intrinsecamente envolvido dentro da realidade, dos costumes e tradições. É claro que se pode dizer que generalizações como essas tendem a ser equivocadas pelo que elas trazem de definitivas, mas não restam dúvidas que elas têm algo de provocador. Os Estados Unidos, suas gentes e hábitos, por exemplo, ficariam muito mais turvos e sem brilho se não fosse o francês Alexis de Tocqueville com seu magistral A Democracia na América a inquirir suas riquezas, potencialidades e patologias.

A leitura dos de fora sobre o Brasil também tem iluminado muito daquilo que fomos e do que somos, rompendo-se com os clichês que servem para os turistas e para nos vender lá fora –muitas vezes reproduzidos por aqui –, mas que pouco dizem sobre nossas riquezas e nossas pobrezas materiais e simbólicas. Com todos os preconceitos que se perpetraram a posteriori, o francês Jean-Baptiste Debret, com suas tintas e frases, expôs muito do que era o Brasil do XIX, em sua Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, que, registre-se, ganhou nova edição este ano pela editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Stefan Zweig, em Brasil. O País do Futuro, também traçou retratos primorosos sobre o Brasil e os brasileiros; Lévi-Strauss desvendou nossas margens e nossos marginalizados indígenas em Tristes Trópicos, ao passo que Richard Morse e outros brasilianistas escreveram ensaios ou desenvolveram pesquisas instigantes acerca das nossas características. De diferentes prismas, maneiras e leituras, o olhar estrangeiro sobre nós, ora com erros, ora com acertos, tem buscado compreender e perscrutar este intricado quebra-cabeça geográfico, político, social e cultural chamado Brasil.

Cheguei a Breviário do Brasil de Agustina Bessa-Luís a partir de uma referência encontrada em um texto de João Pereira Coutinho, colunista da Folha de São Paulo, mencionada posteriormente por Caetano Veloso, em sua coluna no jornal O Globo, quando o compositor baiano dizia que a publicação desta obra no Brasil era “uma exigência do nosso projeto de nação”. Para Caetano, Bessa-Luís é uma “estilista como há poucos, em qualquer língua”. É deste artigo de Caetano que retiraram o trecho que consta na contracapa do livro e é nesta toada de elogio à prosa de Agustina que o escritor português Pedro Mexia – que acaba de lançar no país também pela Tinta da China uma coletânea de poemas intitulada Contratempo – constrói o “Prefácio” de Breviário do Brasil, no qual lamenta – pelo visto, repleto de razão – o desconhecimento dos leitores brasileiros de Agustina, esta potente escritora portuguesa, autora de livros como A Siliba e vencedora de prêmios e condecorações várias como o Prêmio Eça de Queiroz e o Prêmio Camões.

A fluência, a cadência e compasso da prosa de Agustina trazem ecos do Gilberto Freire de Casa Grande & Senzala – um “livro indispensável” para a autora –, mas com um sotaque português e com uma elegância estilística que supera o mestre de Apipucos no cuidado com as palavras, embora o texto do pernambucano flua com mais leveza. A escrita da portuguesa soa como uma conversa elegante, graciosa e refinada, alternando descrições minuciosas sobre suas experiências vividas em terras brasileiras, com frases potentes, discussões históricas e reflexões agudas. Agustina tem carinho e desvelo com as frases e as manuseia de forma habilidosa, em uma escrita poética, cuidadosa e esmerada, que é um exemplar raro do bem escrever.

Publicado originalmente em 1991, após uma viagem por diferentes cidades brasileiras organizadas pelo Centro Nacional de Cultura de Portugal, Breviário do Brasil não é, como destaca Mexia no “Prefácio”, um livro “de viagens”, mas sim “um diário civilizacional”, composto de um ensaio principal e outros pequenos textos e discursos proferidos em diferentes ocasiões. Agustina passeia pelo país não como uma desconhecida, uma vez que já visitara o Brasil, tendo seu pai vindo para cá quando ela tinha doze anos e atuado como comerciante no Rio de Janeiro, e seu tio-avô tenha morado na Bahia. Também conhecia o Brasil via a imaginação de autores que cita e mobiliza em sua reflexão, como Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego, Ariano Suassuna e Raduan Nassar. Destaca isso com ênfase no texto “Quimera e literatura”. Mas, sua arguta observação é a dos novatos, dos que se abrem à compreensão do outro, daqueles que olham o diferente sem buscar encontrar ali o reforço de estereótipos e visões pré-concebidas, daqueles que sabem que “a parte mais interessante do Brasil não pode ser localizada por uma excursão de burgueses que se movem por admirações históricas e coletivas e que esperam sempre ser recebidos como vice-reis porque pagaram a viagem”. O Brasil, diz Agustina, “não se deixa ver, nem ouvir, senão por assombração”. Sua natureza é trágica.

A autora reconhece as limitações do olhar estrangeiro sobre o país, ao afirmar serem os europeus “demasiados débeis para este sol, esta claridade tropical, este segredo que resiste às maiores contradições”. O que temos com Agustina são impressões parciais, insights, visões apuradas de diferentes aspectos da sociedade brasileira. Não se trata de dizer que é uma leitura desinteressada e neutra. Não é. Agustina ama o Brasil e isto transborda nas suas palavras. Escreve “como se pusesse o joelho em terra no confessionário do Brasil, e contasse peripécias que são amores bem compreendidos”. Há, ela mesma admite, “uma ternura imensa em correr o Brasil em simples reza, onde não entram memórias, só uma fé tranquila”. Tendo se proposto inicialmente a escrever “um livro carinhoso e breve” que traçasse o desenho de seus passos no Brasil, Agustina diz que esta nação não se entende com poucas palavras e que para narrar este “país grandioso e cheio de sublimes encostas para vencer (umas botânicas, outras religiosas, outras históricas)”, com “gente de muitas almas e conversas”, “gente boa”, “que até Lampião tinha sentimento no coração errante”, é necessário mais.

O livro foi, nesse sentido, “um monumento que o engenho lavrou e o coração abriu aos mares comuns que temos”; para Agustina, seu verbo fez-se de admiração. Mas, não há o leitor de achar aqui idealizações positivadas, palavras elogiosas apenas – ainda que as encontre – ou concessões ao Brasil e aos brasileiros. Se se parte de uma pré-disposição positiva, ela não se concretiza em um texto ingênuo e pueril; há também a percepção do nosso avesso, das perversidades deste Brasil, atravessado pelas marcas da escravidão, por violências várias, pobrezas, calamidades, perigos, desigualdades e preconceitos.

O livro poderia se chamar Breviários de Brasis, uma vez que é dos diferentes Brasis que Agustina fala. A autora reconhece esta diversidade como potência e é no Gilberto Freyre do “Manifesto Regionalista”, de 1926, que se apoia para valorizar a importância da heterogeneidade e das diferenças regionais para a riqueza de uma nação: “quanto mais as regiões se distinguem em costumes e tradições, mais a curiosidade dos povos é por eles acentuada e a criação é libertada da tirania do modelo único”. São várias as geografias as quais Agustina percorre – Rio de Janeiro, Recife, Brasília, São Luís, Belém, Fortaleza, Manaus, Salvador, João Pessoa, Ouro Preto, Mariana, São Paulo, Petrópolis… – e, a partir do olhar sobre cada uma delas, de suas gentes, sotaques, comidas, bebidas, plantas, arquiteturas, esculturas, objetos, cheiros, sons, vestuários, crenças, costumes, tradições, a escritora lusitana pensa o Brasil. Ao caminhar pelo país, Agustina se interessa por aquilo que o historiador Fernand Braudel chamou de “civilização material” das regiões, mas vai muito além, pois sabe que “uma pátria é um sentimento e não um punhado de razões”. Se há generalizações sobre o país ao longo do texto – e as há, uma vez que se quer falar de Brasil –, elas se fazem sem que as especificidades sejam deixadas de lado, em uma dialética refinada entre particular e geral, entre as singularidades e o todo que forma a ideia de uma nação.

Como parte da ideia de que uma civilização se define por comparação, Agustina está o tempo todo a confrontar a Europa com o Brasil e os europeus com os brasileiros. O Brasil e os brasileiros parecem excessivos aos europeus pelo gosto que se tem de viver por aqui, ao contrário dos da Europa que estão “confinados ao já visto pelos outros”, que se deleitam somente “com a medida das emoções alheias” que lhes são familiares. O brasileiro, diz Agustina, “é a sua via, e não pede ao espírito dos outros, romancistas inclusive, nenhuma estética essencial, e só a personalidade dum ator, e não a obra, o poder impressionar”. A escritora portuguesa coloca muita “confiança no povo do Brasil”, pois o brasileiro prefere a alegria sem ser leviano ou insensato, sem “se fantasiar de herói em nome da tristeza”; não é, segundo ela, ao contrário do europeu, “um homem atormentado”, enganando a vida com a alegria e convivendo “com a tristeza sem fazer dela uma estética, um manto constelado que se guarda no fundo de uma arca, como uma coisa que não se usa todos os dias”.

Em um momento como o atual, em que nós no Brasil estamos vivendo em maré-baixa, atravessados por crises várias, o livro de Agustina serve também como um sopro de esperança a chamar a atenção para as potencialidades civilizatórias deste país intricado e complicado que é o Brasil. “Temos que aprender com o Brasil”, sentencia a autora. O Brasil, para Agustina, diferentemente da Europa, ao não ter Freud como tutela – que faz por lá da cultura um “lugar árido, ainda que cultivado, como certos jardins franceses em que prevalece a geometria e onde não crescem flores” –, “escapa às contradições da agitação terrena e deixa que o divino coexista e trabalhe com os homens”. O Brasil “é um precioso cofre de imaginações que nos garante o valor absoluto da pessoa”. Nesse sentido, o país se constitui como “um espaço público a preservar em que o estilo de vida ocioso do europeu, o paradoxo da solidão no meio da maior visibilidade, são negados por um romantismo que se pode definir como o sentido do jogo que é viver”. O Brasil, dirá Agustina, “ensina-nos essa via suburbana que é a alma”.

Em sua procura pela comparação, Agustina encontra traços portugueses em terras brasileiras, seja no pinheiro de altas copas de Curitiba, seja na arquitetura, na fauna, nos gostos, roupas, feiras, carroças, crenças e costumes de diferentes regiões, como Ouro Preto e Petrópolis. O brasileiro é um pouco o “português do avesso”, “com uma paixão de pequenos factos que se resolvem devagar e que não precisam da importância que lhes dão os criadores dessa importância”. Como bem destaca a escritora, Brasil e Portugal têm uma “História comum que nada pode desarticular; e há uma história original, feita pelo caráter das suas regiões, na qual ninguém pode interferir, na medida em que está preservada geográfica e etnologicamente”. Ainda que a nós brasileiros e aos portugueses não se movam “obrigações nem obediências”, permanecemos ligados “por muito mais do que pelos fios dos interesses e as redes de memória” constituindo uma “irmandade luso-brasileira”, que “significa um tempo comum em que todos os afetos do mundo, todas as confidências do bem e do mal, passaram em denso conflito na cidade, erguida pedra a pedra por um só carácter – o da língua, o da vontade, o do espírito”. Um dia, diz Agustina, “nós, portugueses e brasileiros, seremos a conferência dum entendimento humano – uma mitologia. Quem sabe?”. Apesar dessa ligação, Agustina ressalta ser estranho “que, sendo o mar uma língua de água que nos uniu, tivesse hoje que marcar distância tão grande. Éramos dantes mais vizinhos; hoje somos parentes antigos de quem merecemos a herança mas não sei se a aproveitamos bem”.

O Breviário de Agustina pode contribuir para reduzir esta distância e promover, via letras, uma reaproximação Brasil-Portugal. A consolidação da editora Tinta da China no Brasil, com sua coleção “Grandes Escritores Portugueses”, que já publicou escritores como Herberto Helder e Antero de Quental, é um passo importante nesse sentido. Poucos autores portugueses circulam por aqui com destaque – com as exceções, talvez, de Camões, Gil Vicente, Eça de Queiróz, José Saramago, Valter Hugo Mãe e Gonçalo Tavares –, da mesma forma que nossos escritores circulam pouco por lá. Há que se reconhecer a importância de acontecimentos como o Prêmio Camões para este processo de reaproximação, embora apenas à guisa de comprovação do distanciamento, conheçamos muito pouco da escritora portuguesa Helia Correia, vencedora do prêmio em 2015, e os portugueses quase nada conheçam de Raduan Nassar, escritor brasileiro ganhador deste ano. Iniciativas como a criação da Biblioteca Digital Luso-Brasileira, impulsionada por bibliotecas brasileiras e portuguesas, e que visam digitalizar e colocar em domínio público o acervo bibliográfico daqui e de lá devem ser saudadas pelos que elas têm de positivo no sentido de possibilitar uma maior integração e diálogo entre literaturas que ainda pouco se conhecem.

A publicação do Breviário do Brasil e a entrada de Agustina no nosso mercado editorial devem ser saudadas e comemoradas como eventos importantes pelos muitos e múltiplos caminhos que abrem para o Brasil e os brasileiros.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Imagem retirada do site: <http://mundodelivros.com/agustina-bessa-luis/&gt;. Acesso em: 04 jul. 2016.

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