Luiz Guilherme Burlamaqui*

Pablo Alabarces esteve na UFF em 2009. Numa palestra de quase vinte minutos, o antropólogo argentino comparava a trajetória de Maradona e de Messi. Naquele momento, Messi vivia uma situação esquizofrênica: era amado globalmente, mas, em justa medida, não despertava qualquer sentimento na comunidade argentina. Talvez a comparação com Maradona seja excessivamente cruel, mas, em 2011, o povo argentino se encantava de verdade com Carlitos, o Tévez. Para muitos, Messi era um estrangeiro atuando na seleção argentina. Ele nunca havia jogado por um clube do país. À diferença de Maradona e Tévez, Messi parece ter vivido uma vida sem revezes, insucessos ou tropeços. Muito novo foi para Barcelona, em grande parte para cuidar de um problema de altura. Para alguns argentinos, a própria presença de Messi na seleção causava estranheza. Se o futebol é essa história contínua que narramos sobre nós mesmos, a história de Messi era insossa, nada dizia sobre os argentinos. Talvez dissesse muito sobre o futebol globalizado. Mas, sobre a nação argentina, o que Messi dizia sobre a nação argentina? Na biografia de Messi, sobrava o talento, mas faltava a narrativa.

Dentro de campo, a postura de Messi acentuava essa relação distanciada. Messi é um jogador frio. Paradoxalmente, a frieza de Messi é sua virtude e seu defeito. No um contra a um, Messi não sente, não se move. Diante dos goleiros, Messi raramente fraqueja. Diante de zagueiros violentos e destemperados, Messi não reage. Muitos torcedores, entretanto, interpretaram essa frieza como descolamento do jogo. Reduzindo o problema ad absurdum, essa postura foi interpretada e tratada como uma doença mental. No Brasil (confesso não saber se se trata de um boato global), espalhou-se rapidamente a informação de que Messi era autista. O boato dizia que Messi era capaz de repetir seus chutes com tamanha precisão justamente por conta de sua doença. De acordo com o Aurélio, o autismo é um “fenômeno patológico caracterizado pelo desligamento da realidade exterior e criação mental de um mundo autônomo”. Encapsulado num mundo interior, Messi parecia não se abalar por nada.

Foi Christian Bromberger quem escreveu que os ídolos não são apenas jogadores vitoriosos, mas capazes de emular certas características de um grupo ou de uma determinada região. Muitas vezes as preferências estéticas por este ou aquele jogador dos torcedores são orientadas por classe social. Para ser ídolo, é preciso ter vínculo, forjar, de alguma forma, uma relação entre a comunidade e o estilo de jogo. Para trazer o problema ao contexto brasileiro, é impossível não lembrar de Adriano ou de Romário, e da relação continua que estabeleceram com as origens, reforçando continuamente não apenas na sua performance dentro de campo, mas fora dele. Nas palavras de Alabarces, Maradona transcendeu a condição de ídolo e ascendeu à de mito. Isso só foi possível porque o talento de Maradona encontrou fértil terreno politico para se exibir. Maradona já tinha todos os elementos biográficos para seduzir o povo argentino: a origem humilde (sempre reforçada), o sucesso no Boca Jrs (o clube mais popular da Argentina), os altos e baixos da sua carreira, a picardia, o temperamento intempestivo dentro de campo. Para Alabarces, Maradona era um “ancoragem plebeia da pátria”. Uma espécie de Perón dos anos 1990.

Durante a Copa do Mundo do México, a síntese do dilema argentino encanado por Maradona pode ser observada na performance contra os ingleses. Genialidade e malandragem confundem-se em uma performance imortalizada pela narração de Victor Hugo Morales. Argentina e Inglaterra haviam acabado de sair de uma guerra cruenta, que resultou no final da Ditadura civil-militar argentina, a morte de milhares de argentinos e perdas econômicas severas, além do abatimento moral pela derrota sem meu termos. Por essa razão especifica, o gol de mão é o mais celebrado da história das Copas do Mundo. Apesar de infringir as regras do jogo, o uso da mão é autorizado quase como um instrumento de subversão diante do quadro amplamente desfavorável. No duelo de Davi contra Golias, Maradona simbolizava a parte mais fraca, a própria nação argentina, contra a potência estrangeira. Sem mediações, Maradona era a Argentina, com suas contradições e as suas fraturas, mas sobretudo com as suas próprias potencialidades.

A Messi, então, o que restava? Pareceu, desde o começo, difícil replicar a experiência histórica de Maradona. Mas as acusações sobre ele vinham de todos os lados. Além de frio, a argentinidade de Messi foi constantemente posta em causa. “Por que ele escolheu jogar pela Argentina e não pela Espanha?” foi uma pergunta que o perseguiu por certo tempo. Muitos se chocavam ainda com o fato de que Messi não cantava o hino argentino na execução antes do jogo. Esse último fato foi, inclusive, motivo de amplo debate durante a Copa do Mundo no Brasil. Ele não canta por que não sabe ou por que não quer? Ambos as hipóteses levavam a uma só constatação: Messi estava longe de representar a pátria. Ainda assim, a relação entre Messi e a torcida argentina parece ter melhorado sistematicamente após a ida de Pablo Alabarces ao Brasil. Entre 2012 e 2014, a performance de Messi à frente da seleção argentina subiu muito — principalmente pelas transformações táticas, mas também pelo amadurecimento profissional do camisa 10. A ascensão da performance de Messi não se traduziu em títulos. Messi naufraga no futebol de seleções. Foram quatro insucessos consecutivos: três vices na Copa América e um na Copa do Mundo.Sucessivos fracassos o tiraram do rumo e o levaram a uma decisão extrema.

Após a derrota na Copa América, Messi decidiu agir: nó más, será melhor para todos. Ele não jogaria mais pela Seleção Argentina. A atitude extrema de Messi deve ser lida num contexto de crise do futebol nacional. Assim como boa parte das federações latino-americanas, a Associação de Futebol Argentino encontra-se quebrada, sem dinheiro em caixa, abalada pelos escândalos de corrupção da associação. A FIFA ameaçou intervir, suspendo a AFA por conta de uma intervenção direta do estado na Federação, mas recuou. Isso não amenizou a situação. Os problemas são de tal ordem que não houve dinheiro para trazer jogadores profissionais para completar os treinos da seleção e a equipe teve de recorrer à universitários. Diante do caos financeiro, Messi subiu o tom contra os dirigentes durante a Copa América: “Nós temos que ter o mínimo”.

Foi essa somatória de fracasso e caos politico que levaram a Messi, ainda de cabeça quente, a anunciar a aposentadoria. A comoção foi instantânea. Rapidamente, os argentinos começaram uma campanha pedindo a permanência de Messi. Num artigo de internet, Alejandro Wall foi categórico:

Messi me hace feliz así como está: sin mundiales, sin copas américas, sin copas de leche. Me gusta verlo jugar y es todo lo que quiero de él. Messi no tiene el relato de Victor Hugo ni el me das cada día más” de Valeria Lynch. No le pidamos que nos devuelva la infancia del ’86. Entenderá que hay que seguir intentándolo, se secará las lágrimas y volverá a hacernos felizes

Durante a entrega das medalhas, um gesto inesperado. Com os olhos vermelhos, Messi chorou. Como escreveu Arlei Damo, há uma relação forte entre o futebol e o romantismo: há beleza no sofrimento. Outrora frio e distante, Messi parece sensivelmente abalado com seus sucessivos fracassos. A Argentina parece abraçar Messi, como o filho que constantemente tenta, e fraqueja, “do jeito que é”. A Copa América de 2016 pode ter sido um ponto de inflexão na relação de Messi com os argentinos. Se Messi regressar à Seleção e conseguir, enfim, o desejado caneco, ele pode não apenas conseguir os títulos, mas pode ter achado o elemento que lhe faltava: a narrativa.

*Luiz Guilherme Burlamaqui é flamenguista, faz doutorado em História na USP e colabora com a Escuta.

Bibliografia:

WALL, Alejandro. http://www.revistaanfibia.com/cronica/te-quiero-asi-sin-mundiales-ni-copas/

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