Jorge Chaloub*

Logo após os créditos, o espectador se vê em uma barbearia tradicional, onde um senhor senta em uma cadeira e mostra, com o intuito de servir de modelo, a foto do revolucionário mexicano Emiliano Zapata. Os mais velhos, ou especialmente interessados por futebol, saberão que se trata do ex-jogador Nei Conceição. Enquanto a navalha desbasta os fios, uma pequena televisão antiga transmite, ao fundo, partida da Copa do Mundo de 2014. Ao longo do documentário, o futebol será, assim como nessa cena, um pano de fundo, a partir do qual os três protagonistas falarão sobre um país em profunda transformação. Os ricos motes fornecidos pelo esporte são fundamentais para a originalidade das reflexões, que, entretanto, não se limitam ao mundo do futebol, mas revelam aspectos fundamentais da história brasileira recente.

Falamos aqui do documentário “Barba, Cabelo & Bigode”, vencedor da última edição do Cinefoot, tradicional mostra cinematográfica sobre futebol que chegou nesse ano a sua sétima edição. Dirigido por Lúcio Branco, o filme aborda três jogadores conhecidos por suas marcantes trajetórias dentro e fora dos campos: Afonsinho, Nei Conceição e Paulo Cezar Caju. Não estamos diante, todavia, de um tradicional padrão de documentários, onde os protagonistas desfilam, ao lado de amigos e “especialistas”, histórias curiosas e traçam um perfil biográfico relativamente organizado. Mesmo que o diretor inclua relatos dos personagens sobre fatos notórios da sua biografia – como a estreia de Caju no Botafogo, a militância política de Afonsinho em sua luta pelo passe livre e o conhecido convívio de Nei com os Novos Baianos – o filme antes trata das suas visões do futebol de ontem e hoje. As opções estéticas da película, que organiza um diálogo entre os relatos e uma rica pesquisa de fotografias, artigos de jornal e filmes, reforça esse objetivo, construindo uma tensão entre distintos tempos históricos presentes na narrativa.

O futebol, todavia, não é representado apenas como um jogo, mas enquanto uma forma de expressão pertencente, sobretudo, ao mundo da cultura. Os três protagonistas tornam fluídas as linhas do campo, convergentes no esforço de demonstrar que suas conhecidas atuações nos mundos da política e da cultura não são naturalmente conflitantes com o lugar do jogador, mas sim destoam do modelo de futebolista então em vias de implantação. Estreantes no futebol profissional durante a segunda metade da década de 1960, eles vivenciam uma radical mudança nos padrões de treinamento, que busca transformar o jogador em um “atleta”, impondo padrões de disciplina e preparação física anteriormente desconhecidos. Tal modelo não tolerava personalidades ativas como os três, que contestavam os padrões impostos e sofreram, por tal motivo, uma séria de restrições dentro e fora do âmbito esportivo. Os conflitos eram exemplarmente expressos na estética adotada pelos protagonistas. Em tempos de forte efervescência juvenil nas mais diversas partes do mundo, os três adotavam as longas barbas e cabelos desgrenhados, típicas dos jovens franceses de 1968, ou o visual black power, que mudava a face dos Estados Unidos. A escolha não era tolerada pelos dirigentes, que chegaram, no caso de Afonsinho, a impedi-lo de atuar, sob a justificativa de que aquela não era a aparência condizente com a prática do futebol.

A presença de preconceitos arraigados no mundo do futebol é tema mais que conhecido. O filme, todavia, é especialmente feliz ao demonstrar como a guinada sensivelmente percebida pelos jogadores se vincula a um processo mais amplo: a emergência da Ditadura Militar após o Golpe de 1964. O futebol foi mais um dos campos da sociedade duramente submetidos à regulação militar e autoritária que despontava à época, a qual buscava submeter as várias formas de expressões políticas e culturais da República então vigente à dura regulamentação das casernas, com o intuito de despi-las de todo conteúdo contestatório e renovador. Seja na seleção ou nos clubes, ganhava corpo uma lógica militar responsável por atacar parte significativa do que tornara o futebol brasileiro não apenas uma escola mundialmente conhecida, mas um caso de expressão cultural digno de nota.

Para expor a escola então sob ataque, o filme se detém na figura de Garrincha, que surge não somente como ídolo ou modelo frente a outros jogadores, mas como uma verdadeira linhagem alternativa do modo de se praticar, conceber e, por que não, viver o futebol, como na chave já desenvolvida por José Sérgio Leite Lopes. Garrincha é representado como modelo dos então jovens jogadores do Botafogo, que, por outro lado, se confrontavam não apenas com dirigentes autoritários, como o nefasto Charles Borer, ou com uma estrutura já opressora do futebol brasileiro, mas com um outro país. Em meio a tais nefastas estruturas, os protagonistas se moviam em busca de espaços de liberdade, seja no campo- como bem pontua Nei Conceição falando da procura um futebol diferente, mais livre, no Botafogo do início dos anos 1970 – ou fora dele. As resistências não apontam para a busca de um passado idealizado, mas olham para o futuro, como bem demonstra o discurso de Afonsinho sobre o caráter de trabalhador do jogador de futebol.

Em grande momento do filme, o mesmo Afonsinho questiona o discurso corrente que atribui o sucesso da seleção de 1970 e do futebol brasileiro a adesão a essa nova forma de organização, sintetizada na comissão técnica formada por Zagalo, Parreira e Cláudio Coutinho. Zagalo, egresso do bicampeonato mundial e desafeto do jogador no clube carioca, aderiria sem restrições a esse novo mundo, diversamente do seu antecessor João Saldanha, notório membro do PCB, que caíra por confrontar tal lógica militar. O tricampeonato, na perspectiva de Afonsinho, antes se deveria à herança gloriosa da geração anterior do que às inovações militarizadas, que teriam como saldo – pouco comentado, diga-se de passagem – o pesado jejum de 24 anos que se seguiu. Como ilustração, Caju narra seu corte da Seleção na Copa de 1978, punido por ter demandado politicamente condições diversas para os jogadores e extraoficialmente banido do time nacional pelos militares. Os militares antes excluíam o talento do que procuravam conservá-lo e expandi-lo.

José Miguel Wisnik explicita – em “Veneno Remédio”, seu belo ensaio sobre o tema – como o futebol comporta múltiplas narrativas. Distintamente de outros esportes, o placar não consegue dar conta da diversidade de acontecimentos transcorridos ao longo de uma partida, mas correntemente deles destoa. Trata-se, nesse sentido, de um esporte que oferece em sua própria constituição resistências à lógica da quantificação e da mercadoria que, ironicamente, hoje o assola. Por outro lado, uma das mais longevas heranças da ditadura militar foi justamente a centralidade conferida ao mundo da economia, que passou a figurar como linguagem central não apenas do Estado, mas da própria sociedade. Entre o militarismo e a estrita defesa de uma lógica mercadológica há, por certo, mais continuidades do que aparentemente se percebe. O futebol constitui um ótimo objeto para essa constatação.

Wisnik também aponta como o futebol é influenciado pelas prática sociais que o cercam, as quais se traduzem em formas do jogo. Trata-se, entretanto, de uma lógica mimética antes marcada pela emulação, que reconstrói o mundo em outros termos, do que pela simples imitação. Exatamente por isso cabe ao futebol transmutar hegemonias geopolíticas e sociais, aspecto que nos permite olhar para o esporte que hoje por vezes nos causa tanto desconforto, dentro e fora do campo, e perceber também nele perspectivas de transformação. O futebol brasileiro vive uma crise da amplas dimensões, que vão muito além dos vergonhosos resultados esportivos, mas ganha corpo através de nítido sentimento de quebra de vínculos na relações entre torcedores, jogadores, clubes e todos aqueles que vivem o futebol. O belo filme de Lúcio Branco expõe como esse cenário possui raízes mais profundas do que um rápido olhar revela. Ao mesmo tempo, permite antever que as saídas não passam pela negação do futebol, suposto “ópio do povo” para alguns, mas podem, e devem, mobilizá-lo.

* Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Créditos da imagem: Divulgação do filme “Barba, Cabelo & Bigode”. 

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