Fernando Perlatto*

Paulina é um soco no estômago. Um soco muito bem dado, daqueles capazes de deixar o atingido pelo murro completamente atordoado. Quando o filme argentino, dirigido por Santiago Mitre e vencedor da mostra Semana da Crítica, em Cannes, 2015, termina permanece-se na sala de cinema durante alguns minutos tentando se recuperar da pancada, buscando colocar as ideias no lugar e organizar o fluxo corrente de imagens, interpretações e leituras que o filme provoca durante toda a exibição. É um filme instigante. A cabeça não para.

Da interpretação magistral dos atores é escusado dizer muitas palavras. Dolores Fonzi, a Paulina, arrasa em uma atuação visceral, contida quando necessária; explosiva no tom correto: a deterioração física e psicológica da personagem e a sua força, viço e determinação são transpostos com uma sensibilidade ímpar. Com Oscar Martinez, na interpretação fina, elegante e emocionada do pai de Paulina, nós sofremos, nos revoltamos, nos indignamos com e contra ele. Sua atuação virtuosa, no sentido pleno da palavra, invade a tela a cada aparição. Completam o elenco outros atores como Cristian Salguero e Esteban Lamothe que colocam o nível do filme nas alturas.

A direção de Santiago Mitre é precisa e o roteiro, construído por ele e Mariano Llinás, muito bem articulado. A cena mais dolorosa do filme, a do estupro da personagem principal, que serve de base para o enredo que se quer contar, é narrada com a brutalidade que uma cena como esta deve ser narrada; não se tem concessões e metáforas, não se tem melodramas: é a barbaridade, a selvageria, a humilhação, o aviltamento contra a mulher na mais pura essência, que revolta, que dá nojo, que causa ojeriza, sobretudo quando visto sob a memória recente do estupro brutal perpetrado contra uma adolescente de dezesseis anos na zona oeste do Rio de Janeiro. A violência que se exibe na tela dói ainda mais porque nos é contemporânea.

Os diálogos muito bem arquitetados e a construção não linear da narrativa torna a trama mais complexa, pluraliza e torna mais cinzentos os pontos de vista, evitando assim, ou pelo menos dificultando, interpretações chapadas, fechadas, preto no branco. Na verdade, é contra um tipo de leitura simplificada, ancorada em binarismos de heróis e vilões, bonzinhos e malvados, que o roteiro se coloca: aqui não se quer explicar, não se quer encontrar moralismos fáceis; busca-se a problematização, o questionamento, a abertura, a inquietação o tempo inteiro. Não se tem zona de conforto ao assistir Paulina. Quando o espectador pensa que encontrou uma resposta, é lançado para outro lado, é arremessado em outra direção; embaralha-se, complica-se; não se tem moralismo, não se tem lição: o que temos são seres humanos, envolvidos em dilemas íntimos, contradições subjetivas e relações da mais alta complexidade.

Talvez esta seja uma das marcas mais interessantes dos filmes argentinos e que fazem com que eles tenham a potência que têm: essa capacidade de não dar respostas fáceis sobre os seres humanos, de mostrar suas fraquezas, dúvidas, imprecisões e dilemas, de explicitar dramas sociais e morais sem necessariamente escancarar situações e sem procurar soluções simplórias. As escolhas não são dadas a priori e não há um caminho e uma solução tranquila de ser tomada. Paulina é isso, essa complexidade, como o é também o recente Truman, de Cesc Gay, com as interpretações brilhantes do sempre presente Ricardo Darín – com seu personagem Julián, enfrentando um câncer em estágio avançado –, Javier Cámara, como Tomás, o melhor amigo de Julián, e a própria Dolores Fonzi, que, não obstante em um papel coadjuvante, também brilha. E como foi também Relatos Selvagens, de Damián Szifron e tantos outros filmes argentinos que vêm sendo produzidos em uma sequência arrebatadora.

As decisões tomadas pela personagem principal de Paulina surpreendem, saem do roteiro previsível da vida idealizada e dos filmes hollywoodianos. Aquele que não é capaz de ter qualquer tipo de alteridade vai se revoltar com o filme. Achá-lo irreal, desnecessário. Porém, aquele que consegue ver o outro, que se sensibiliza com a dor das pessoas, é tocado, sai mexido do cinema, desordenado. Imbuídos de uma perspectiva social e de um feminismo radical, concordamos com as escolhas de Paulina, com suas decisões sobre seu próprio corpo, seus enfrentamentos com o pai, o noivo, a sociedade; depois, imbuídos de um senso de justiça e de um feminismo de outra ordem, discordamos, avaliando outras consequências dos seus encaminhamentos, os impactos que uma decisão individual podem causar para várias outras mulheres; mais tarde, voltamos a concordar, para depois discordar novamente, até chegarmos à conclusão de que não é necessário encontrar respostas. O mundo não é feito de respostas fáceis e a potência do filme é justamente explicitar isso. Da fronteira argentina se expõe a barbárie e as contradições do mundo.

Sem cair em um relativismo banal, o filme, sob o olhar de Paulina, questiona a todo o momento o que é ser justo em um mundo desigual e machista, sobretudo em uma área localizada nas margens, nas franjas da sociedade, onde, na ausência do Estado e de suas instituições, a pobreza e as violências físicas e simbólicas, com todas as suas atrocidades, ganham ainda mais dramaticidade. Talvez a força de Paulina esteja justamente no seu exercício radical – tão necessário para os dias atuais – de compreensão do outro. Compreensão esta que perturba e que faz pensar. Um filme que deve ser visto.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

 

Anúncios