Luiz Guilherme Burlamaqui*

Com a crise do futebol brasileiro, a opinião pública se divide sobre a Seleção.  Outrora a mais forte do mundo, ela padece com piadas, críticas e, como não bastasse, a indiferença contumaz de boa parte do público. Neste ponto, as análises divergem sobre a ausência (ou não) de talento dos jogadores brasileiros, mas há um aparente consenso sobre o fracasso dos técnicos e dos sistemas de jogo adotados no Brasil.  Desatualizados, atrasados, arcaicos: esse é o diagnóstico sobre os treinadores brasileiros. Há aqui um aparente paradoxo, porque os técnicos brasileiros nunca foram os responsáveis pelo sucesso do futebol brasileiro. No esporte moderno, vitórias são sinônimos de prestígio, mas os técnicos brasileiros raramente souberam galvanizá-lo. Em revanche, durante as derrotas, os técnicos são tido como os únicos responsáveis pelo fracasso. Como explicar essas diferença de tratamento? Qual, afinal, o lugar dos técnicos na história do futebol brasileiro?

Um breve histórico do problema pode ajudar a responder essas perguntas. Paradigmática, nesse sentido, é a trajetória de Vicente Feola. Feola foi o primeiro técnico brasileiro a se consagrar campeão do mundo em 1958. Mas, na narrativa da conquista de 1958, não é senão uma nota de rodapé. Numa crônica muito conhecida Nelson Rodrigues chamou Vicente Feola de “o gordo salvador”.

“Não creio e explico. É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que conheci são, fatalmente, magros.”

Gordo afável, Feola era uma figura eminentemente decorativa, análoga ao bobo da corte, que está ali apenas para fazer rir. A obesidade, neste caso, aparece também como sinônimo de desleixo. Feola era tão descuidado, que dormia durante os jogos do selecionado. Muitos atribuíam a sonolência a um problema médico, causado, em espiral, pela excesso de peso.

Quando Feola estava acordado, as instruções que dava ao time eram inúteis. Talvez escape ao leitor contemporâneo o significado da partida entre o Brasil e a União Soviética da Copa de 1958. Criador da France Football, o jornalista Gabriel Hanot definiu como “a bomba Hiroshima do futebol mundial” tal a sua relevância. Havia uma aura de mistério sobre a equipe soviética durante a sua primeira participação na Copa do Mundo: eles eram comumente descritos como “expoentes do futebol-máquina”, um “futebol científico”, quase indestrutível. Embora equipes como o Dínamo de Moscou e o Spartak circulassem globo afora, sabia-se mundo pouco sobre a equipe russa. A crônica brasileira não hesitava em definir o futebol russo como “o melhor do mundo”. O Brasil, entretanto, venceu a partida, e não apenas venceu como passou como uma espécie de trator sobre sobre os russos. A imprensa inglesa descreveu os primeiros dez minutos de jogo como “os momentos mais intensos da história do futebol mundial”. Para o próprio Hanôt, não restava duvidas: ali estava inaugurada uma nova era do futebol mundial — a do domínio da seleção brasileira.

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Mas o que nós, os brasileiros, retivemos desse jogo percebido pelos contemporâneos como um jogo histórico? A famosa história de que Garrincha — o melhor em campo, por sinal — desdenhou das indicações táticas de Feola. Depois das instruções sobre como atacar e como defender, Garrincha teria feito gestos de desdém e dito: “Mas, professor, o senhor já combinou com os russos?”. Se a União Soviética era a metonímia do futebol máquina, com posições definidas e organização ao extremo, o futebol brasileiro era o seu avesso: desorganização, espontaneísmo e talento em estado bruto. Poucos jogadores sintetizam tão bem essa dualidade quanto Garrincha. Ele é frequentemente descrito como um camponês (embora tenha vivido como um operário), habitando numa atmosfera idílica, a caçar passarinhos e a brincar com seus amigos. Na biografia de Garrincha, é difícil traçar a linha tênue que separa a natureza (o instintivo) da cultura.  Parece, enfim, natural à crônica que Feola tenha exercido um papel secundário num time comandado por Pelé e Garrincha. Aliás, a entrada de Pelé e Garrincha no terceiro jogo da Copa do Mundo não teria sido uma decisão do treinador, mas um pedido de Didi e Nilton Santos, os dois jogadores mais experientes da equipe. Na conquista de 1958, Feola é um zero à esquerda.

A despeito de vitoriosa, a trajetória de Feola não é singular. Via de regra, o técnico brasileiro foi sempre visto como uma figura sem importância, um “distribuidor de coletes”, capaz de escolher os melhores jogadores em campo. Essa história é consoante à narrativa-mestra do futebol brasileiro: um futebol desorganizado, sem inovação tática, dependendo quase exclusivamente de um talento natural dos jogadores. Quando se é vitorioso, portanto, as explicações assumem esse tom, celebrando o dom de Ronaldo, a habilidade de Pelé, a genialidade de Didi. Quando se perde, as explicações operam igualmente no plano da natureza: a pane da seleção de 2014, o destempero emocional de 1950 e 1954, ou ainda a volúpia incontida ao ataque do time de 1982.

Nesse momento, podemos voltar a outro trecho da crônica de Nelson Rodrigues. Ainda fascinado com a gordura de Feola, Rodrigues dá uma utilidade à banha: “(…) Numa terra de neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor.”  Parece claro qual o papel dos técnicos para Rodrigues: “lubrificar as emoções”. Ao longo da história do futebol brasileiro, essa imagem do técnico como indivíduo responsável por domar as emoções, peneirá-las, enquadrar o talento natural dos jogadores, vai reaparecer uma serie de vezes. Aqui, o pêndulo oscila no que diz respeito à forma do controle: ora é preferível um técnico de estilo autoritário, à Dunga ou à Argel; ora, um técnico como Joel Santana, o “Papai Joel”, mais afável e receptível às emoções e aos sentimentos dos jogadores. Como Feola, a barriga de Joel amainava as emoções.

Por essa razão específica, o acesso de técnicos negros sempre encontrou barreiras tanto nos clubes quanto na seleção. Para José Paulo Florenzano, “a imprensa esportiva, de modo geral, atribuía o insucesso da empreitada ao simples acaso, às circunstâncias adversas, ou, ainda, à inaptidão para o exercício do cargo.” O futebol não é uma ciência objetiva, mas um jogo onde a sorte e o acaso desempenham um papel determinante. Nesse terreno arenoso, a distância entre competência e racismo é quase nula. Na cultura popular, a figura do negro é comumente aproximada à do bom selvagem, como alguém incapaz de controlar as próprias emoções. Treinadores de sucesso inquestionável, como Gentil Cardoso e Didi, sempre tiveram suas asas cortadas quando aspiravam a voos mais altos. Ambos nunca treinaram a seleção brasileira e Didi fez quase toda a sua carreira no exterior.

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Inegavelmente, Vicente Feola foi um dos maiores técnicos da história do futebol mundial, e tem no currículo mais de 500 jogos pelo São Paulo e duas passagens à frente da seleção. Feola trabalhou com o maior técnico da história do futebol mundial, Bella Guttman, no São Paulo, em 1957. Para Jonathan Wilson, autor de Invertendo a pirâmide: a história do sistemas táticos, Feola adaptou o estilo de jogar de Guttman, formando um 4-3-3 altamente inovador na seleção brasileira de 1958. Para o mundo, Feola entrou para a história como um exímio técnico. Para a crônica brasileira, um gordo afável.

*Luiz Guilherme Burlamaqui é flamenguista, faz doutorado em História na USP e colabora com a Escuta.

Créditos de imagens: Foto Vicente Feola- disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Vicente_Feola#/media/File:Vicente_Feola_1958.jpg

Demais imagens – Arquivo da France Football

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