Marlise Matos*

A tradição sacraliza pela repetição do mesmo, a inércia e o eloquente silêncio do costume, impensadamente. As igrejas sacralizam pela negação da materialidade do corpo, pela sacralização e purificação da maternidade, pelo medo do desejo, intencionalmente. O Estado sacraliza pela força e o centralismo, e no Brasil pelo patrimônio, privilégio, elitismo que se realizam através dos eternizados “donos do poder”, “notáveis” e “profissionais” da política, interessadamente. A ciência sacraliza fornecendo resultados de pesquisas dúbios, suspeitos, ao colocar especialistas para justificar privilégios, construir consensos pouco porosos às críticas advindas “de baixo” e que ameacem a sua autoridade, legitimamente. E hoje os repertórios midiáticos – transnacionais e nacionalmente oligopolizados – sacralizam pelo emburrecimento, alienação e manipulação, silenciosamente.

E quem emancipa? Quem liberta? Quem busca e alcança liberdade? Arrisco a resposta: o que ainda pode advir da esfera pública mas das esferas públicas feministas – múltiplas, plurais, heterogêneas-, por oposição a todas estas espécies, no mínimo curiosas, de privatismos do interesse público. Mas qual?

Um público de novo revestido do carisma, revelação e , resgatado na santa certeza de um caminho alvissareiro de reencantamento do mundo? Não. Foi em nome da “guerra santa” que se dizimaram, de forma totalitária, populações inteiras; genocídio. Em nome da fé que foram inquiridos os cientistas pelo Santo Ofício e queimadas as mulheres “bruxas” na idade média e a autorização moral para o genocídio indígena se deu. Em nome da fé as mulheres foram excluídas dos bancos escolares, universidades e possibilidade de ter acesso ao poder/saber. É em nome da fé que padres pedófilos molestam, violam corpos infantis e adolescentes de meninas/os. Em nome da fé milhares de pessoas continuam a se contaminar pelo HIV contraindo Aids e milhares de crianças não amadas vêm ao mundo para sofrer porque não é possível planejar a reprodução. Em nome da fé se operam “conversões” de homossexuais ao caminho santo da heterossexualidade compulsória. Em nome da fé pastores duvidosos manipulam eleitores construindo falácias e mentiras sobre as transformações que os incomodam.

Então, quem sabe um público que opere pela dimensão racional-legal? Das leis, por exemplo? Não. Foram racional-legais as regras do parentesco que legitimaram e legitimam até hoje, historicamente, as trocas e o tráfico de mulheres, de crianças assim como e também o tráfico negreiro. Foram racionais as leis que ao abolir jogaram as negras libertas no mundo sem trabalho. São racional-legais as regras da democracia burguesa que excluem quase todas as mulheres, os pobres e negras/os dos direitos civis e políticos básicos: impedindo-as/os de fazer contratos autonomamente, de serem sujeito/as plenos, votar e ser votado. Foram racional-legais os procedimentos que legitimaram a figura da “mulher honesta” no código civil brasileiro e da famigerada “legítima defesa da honra” na jurisprudência dos tribunais. São racional-legais as regras que mantém privilégios de latifúndios, grandes corporações bancárias e financeiras, do foro privilegiado para representantes políticos, da cela especial para o graduado no ensino superior.

Quem sabe um público que opere pelos parâmetros científicos? Não. Foram científicos os procedimentos que legitimaram o higienismo e eugenia. Foram científicos os métodos de tratamento da “loucura” pelo magnetismo, o uso de ventosas e descargas elétricas nos neurônios. Foram científicos os critérios de seleção baseados na segregação racial, étnica, sexual e de gênero. Foram científicos os procedimentos que autorizaram o uso da quebra do núcleo celular para a produção da fissão atômica. São científicos os critérios que balizam o conhecimento sobre as armas químicas, transgênicos, pesticidas e a queima dos combustíveis fósseis. São cientificamente previsíveis os resultados dos processos crescentes de aquecimento global.

Quem sabe, então, um público que opere pelos parâmetros das mídias, especialmente as dos grandes conglomerados midiático-financeiros transnacionais? Não. Essas mídias visceralmente vinculadas aos interesses globais de classe, exploram, distorcem, falsificam, desconhecem, mutilam as imagens e símbolos das mulheres e mesmo as próprias mulheres. São hoje dispositivos poderosos de mercantilização dos nossos corpos, assim como disseminam de forma naturalizada a condição e a ditadura da opressão feminina em mensagens, campanhas, novelas, reportagens, programas. São midiáticos os efeitos da anorexia sobre os nossos corpos. São midiáticos os reenquadramentos “belas, recatadas e do lar” a insistir na reclusão privada das mulheres. São midiáticos o ethos de masculinidade viril e a cegueira igualitária de gênero, raça, etnia, geração e sexualidade. São midiáticas as estereotipias que enclausuram as jovens, as/os negras/os, os segmentos LGBT etc. São midiáticas as violações do direito à liberdade de expressão que delimitam a voz para camadas elitizadas e a audiência para o “resto”. São midiáticas a banalização e erotização da violência, em especial aquela que recobre os corpos femininos.

Não será pela tradição das igrejas (sejam de quais denominações forem), pelo endeusamento da racionalidade legal-formal (seja ela social, econômica ou politicamente orientada), pela veneração à ciência burguesa objetiva, cartesiana e não será pela mídia (predatória, oligopolizada e alienante) que a tão famosa e ambicionada liberdade das e para as mulheres será experimentada. Mas algo pode e deve ser deflagrado a partir e para o Estado. Passamos de uma época em que parâmetros tradicionais de julgamento: mandamentos morais saídos da boca de Deus, máximas de ordem prática aprovadas no teste universal da razão, princípios éticos derivados de leis naturais imutáveis ou dogmas surrados da mídia venal burguesa operavam como únicas fontes e promessas de libertação: simplesmente nos mentiram, nos enganaram. E pior: associaram-se em conluio violento e violador para azeitar as engrenagens do sistema de produção capitalista predatório que, de cima para baixo, tritura os corpos, mentes e corações das mulheres, negras/os, indígenas e LGBTs especialmente aqui no Brasil. Preciso concordar com Hannah Arendt (2005), entretanto e apesar disso tudo, “que os únicos critérios de julgamento que têm algum grau de confiabilidade não são em nenhum sentido transmitidos de cima, mas provém da pluralidade humana, a condição da política” (p. 11).

Comecei a acreditar, então, depois de uma longa caminhada existencial e teórica que pode sim ser através da política que, paradoxalmente, vamos nos emancipar, mas não/nunca da tradição, da fé, dessa atual ciência/razão científica ou da produção/celebração midiático-burguesa – hoje traduzidos em instrumentos da violência vampírica capitalista – que só fazem/fizeram por nós, as “minorias”, o encarcerar, o reduzir, o oprimir, o subalternizar, o hierarquizar (especialmente as mulheres, mas não apenas elas). Para Hannah Arendt há duas modalidades básicas em que os seres humanos plurais podem estar juntos: como “iguais dos quais emana a ação” – o agir, a política; como “cada um com o seu eu-mesmo a que corresponde à atividade de pensar” – o pensar, a filosofia.

Não me permito demorar no filosofar, já que é o agir que eu carrego comigo sempre, como forma de existir, incondicionalmente. Agir sempre numa única direção: promover a possibilidade da emancipação e liberdade de todos/as, mas especialmente de cadA umA: da semelhante à mais diferente de mim. E concordo com Arendt: a promessa da liberdade humana só pode ser realizada pelos seres humanos plurais quando e somente elas/es agem politicamente. A promessa da liberdade não está nas religiões e sua fé, não está no Estado eficiente e em seus “donos”. Assim como não está nos discursos “acadêmico-científicos” e também não poderá ser encontrada nos dispositivos midiáticos. TodOs agora nos violentam, aprisionam, oprimem, mutilam compactuados que estão na engrenagem capitalista. Mas essa promessa está na potência da equação surrada entre política e liberdade levadas, quem sabe e finalmente, a sério nas esferas públicas/políticas da atuação coletiva feminista das próprias mulheres. Assim, é preciso agir e tomar o poder e a política para dar continuidade à libertação das mulheres. Há raízes muito profundas (fortemente naturalizadas, banalizadas) que insistem em legitimar o não acesso ao mundo público da política, especialmente a eleitoral, partidária, representativa. A representação política é um direito nas democracias liberais contemporâneas, mas ainda não é um instrumento efetivo de inclusão política e de promoção de justiça social e definitivamente não o é em termos de representatividade de e para as mulheres no Brasil.

A presidenta Dilma Rousseff – a primeira e a única mulher eleita Presidenta no Brasil – foi violentada e traída, a um só tempo, pela tradição, igrejas, Estado, ciência e mídia: por toda a afirmação recentemente brasileira de uma necropolítica tóxica povoada por masculinidades brancas, heterossexuais, escolarizadas, burguesas, misóginas, racistas, translebohomofóbicas. A violência voltada contra a sua figura equivale a um estupro político! Sem dúvidas! Experimentamos a expressão máxima dessa violência política sexista que o Brasil lhe impingiu, e ao mesmo tempo, violamos também nossa recente e frágil democracia. Esse é um golpe machista e violador dos direitos e da democracia, muito antes de ser violador da conquista da Presidenta Dilma.

Essa violência política é suportada e mantida por essa mídia oligopolizada que distorce, se omite, mente, frauda, ignora, insufla, desconstrói intencionalmente para destruir imagem política da Presidenta (e com ela, infelizmente, a de todas as mulheres políticas): uma violência simbólica concretamente cruel. Essa violência política é também silenciada por parte da nossa ciência analisa perspectivando uma (impossível) posição de neutralidade, de não intervencionismo analítico e metodológico, custando a tomar posição e a denunciar as violências democráticas em curso: uma violência científico-disciplinar manchada no sangue da(s) injustiça(s) epistêmica(s). A Presidenta a foi também traída pelo Estado, pelo Legislativo sitiado por forças neofundamentalistas falsamente religiosas mas ultraconservadoras; por Judiciário omisso, parcial e partidarizado e também por seu vice do Executivo, que assumiu o poder instantaneamente, com a voracidade demolidora de direitos de quem o deseja ocupar há séculos: violência político-institucional. Dilma é semanalmente vilipendiada em cultos e missas pelo Brasil afora, queimada na fogueira (i)moral de enunciadores da verdade de uma (má)fé que obscurece entendimentos, remove pontes de tolerância e incendeia desrespeitos vários: uma espécie mundana de violência crua movida sorrateiramente pela manipulação da fé. Dilma queimou e foi agredida em vários momentos nas ruas e praças desse país (com cartazes, adesivos, jingles, carros de som, charges, propagandas, panfletos apócrifos etc.), pois ousou romper a tradição branco-macho da política do Brasil, ousou ser mulher governando um país autoritário cuja classe política profissionalizada na falcatrua é constituída de homens que se recusam a largar o osso do poder.

Mais mulheres ocupando ousadamente o poder político darão sentido à nossa permanente luta contra toda(s) essa(s) violência(s) a Dilma Rousseff e a cada uma de nós. As mulheres brasileiras precisam ocupar o poder no Brasil para definitivamente: reinventar por completo a nossa tradição política; construir, na realidade e em bases efetivamente sólidas, o Estado laico e que objetiva o Bem Viver, um Estado pluralizado, heterogêneo, que faça valer a justiça social, econômica e política; elas vão também repor o cânone científico (especialmente o da ciência política) de um modo igualmente plural e emancipatório, desconstruindo as teorias (mal) disfarçadamente misóginas e invisibilizadoras; elas querem e vão desmontar a máquina midiática de moer carne oprimida que tritura mulheres, negras/os, indígenas, pobres fazendo-os/as ocupar o espaço “recatado” que prejulgam deveriam ocupar.

A participação das mulheres na política é uma questão de justiça! O Brasil ocupa a pior posição em termos representação de mulheres em todas as Américas (perdendo apenas para o Haiti!)[1]. Uma democracia precisa se realizar no espaço-tempo da pluralidade. E é de uma absoluta renovação democrática, efetivamente inclusiva, emancipatória e justa que esse país reclama. Agora mais do que nunca esse reclamo se inscreve no espaço-tempo da urgência e do temor da sua demolição. Muito mais mulheres na política é fazer justiça para com a diversidade de mulheres e para com toda a sociedade brasileira que está adoecida por esse modelo necrófilo de poder: um poder assassino marcado da virilidade violenta masculina que precisa ser superado por um projeto feminista atual radicalizado. O enraizamento e consolidação democráticas bem como a efetivação de um desenvolvimento realmente sustentável e justo para o Brasil não se darão sem a emancipação politicamente ativa das mulheres. O poder no Brasil precisa ser ocupado pelas mulheres que têm o feminismo nas suas veias. Será/já está sendo pelas mãos DELAS que a democracia brasileira, afinal liberta, vai ressurgir, elas estão nas ruas permanentemente fazendo esse reclamo, elas têm muito a colaborar para restaurar padrões igualitários de Bem Viver e de alegria, dimensões ainda tão distantes das massas populacionais atavicamente subalternizadas em nosso país. ElAs saberão renovar as nossas esperanças. Pense sobre isso nessas próximas eleições. Pense!

A revolução democrática de novo ciclo no Brasil será feminista e anti-racista, ou não será.

*Marlise Matos é professora associada do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais. Doutora em Ciências Humanas – Sociologia (IUPERJ). Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Psicóloga (UFMG). Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM) e do Centro do Interesse Feminista e de Gênero (CIFG), ambos da UFMG; e colabora com a Escuta.

Crédito de imagem: Acervo NEPEM. Fonte: Cartaz do Seminário de 30 anos do NEPEM.

[1] Ver o ranknig mundial da IPU (Inter Parliamentary Union) – http://www.ipu.org/wmn-e/world.htm

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