Maria Abreu*

Deixa que minha mão errante adentre / Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre / Minha América, minha terra à vista / Reino de paz, se um homem só a conquista /  Minha mina preciosa, meu império / Feliz de quem penetre o teu mistério / Liberto-me ficando teu escravo / Onde cai minha mão, meu selo gravo / Nudez total, todo prazer provém do corpo / (Como a alma sem corpo) sem vestes / Como encadernação vistosa / Feita para iletrados, a mulher se enfeita / Mas ela é um livro místico e somente / A alguns a que tal graça se consente / É dado lê-la / Eu sou um que sabe”

(John Donne, tradução Augusto de Campos)

O texto acima é um excerto de um poema de John Donne, Elegy XIX: Going to bed, traduzido por Augusto de Campos. Ele foi utilizado como letra para uma canção de Péricles Cavalcanti, Elegia, gravada por Caetano Veloso, no álbum Cinema Transcendental, de 1979.

O poema, publicado poucos anos após a morte de Donne, em 1633, é uma boa demonstração de uma das características que marcam a obra do poeta, ensaísta e filósofo: uma insistência em, a despeito de sua reflexão estar no campo da metafísica, descrever as relações amorosas em seu aspecto físico. A série de elegias contém outros poemas com a mesma temática. No texto inteiro do poema[i], é possível verificar a junção de uma referência platônica de amor – junção idealizada de almas – com um esforço de abordá-lo em sua dimensão carnal. Esse poema, como outros de Donne, guarda uma musicalidade, que foi preservada na tradução de Augusto de Campos. Daí o êxito da escolha de Péricles Cavalcanti em musicá-lo.

Escrito em um contexto em que a Europa vivia o período da expansão ultramarina e da exploração colonial, nele o poeta utiliza metáforas referentes à conquista territorial. As associações entre corpo e território são frequentes na obra de Donne. É dele, por exemplo, a frase “nenhum homem é uma ilha”, contida em uma de suas meditações[ii]. No poema acima, a metáfora territorial é utilizada para descrever a relação entre um homem e uma mulher.

A metáfora territorial poderia ser utilizada para qualquer relação amorosa. Entre dois amantes, certamente a exploração do corpo do outro é atividade de precede o gozo. Mas Donne não está falando de qualquer relação amorosa, como indica explicitamente ao utilizar os pronomes she e her, e também reforçando interpretações sobre o comportamento sexual de homens e mulheres que se consagraram ao longo dos séculos. Vejamos.

A referência ao continente americano se deve à expansão territorial europeia então em curso. O corpo feminino se torna um reino de paz, se apenas um homem a conquista. Quem conquista é o homem e sua paz está na sensação de que aquele corpo é exclusivamente uma conquista sua. Para ter a certeza disso, onde cai sua mão, seu selo se grava. O corpo é território do prazer idealizado, em que as almas sem vestes se revelam. O mistério do corpo a que Donne se refere poderia ser o de qualquer amante que é desvendado pelo outro, mas, mais uma vez, não é disso que se trata: a mulher se enfeita como um livro que possui uma encadernação vistosa para iletrados. A surpresa é que ela é um livro místico, que só alguns agraciados conseguem ler.

A forma elegíaca adotada por Donne poderia ser interpretada imediatamente como um elogio amoroso à mulher: “liberto-me ficando teu escravo”. Mas escravidão que se reivindica, sabemos, não se trata de escravidão. A escravidão, aqui, é em relação ao próprio desejo, voltado para a mulher que é seu objeto. No entanto, as metáforas utilizadas por Donne são aquelas que mais tarde reforçaram, a ponto de naturalizar, uma certa interpretação sobre a mulher: ela não é um mistério como qualquer ser humano o é, mas como toda mulher. Não é aquela mulher que ele deseja que se enfeita, mas “a mulher”. Cabe aos conquistadores desvendar o que está por trás do enfeite. “O que quer uma mulher?”, perguntaria Freud três séculos mais tarde.

Deixemos, então, Donne em seu século. Muitos foram os homens que definiram, tipificaram, classificaram e descreveram o sentimento amoroso. Para eles, senhores das narrativas, das referências do que significam o amor e o prazer carnal, a mulher permaneceu por muito tempo algo a ser conquistado ou desvendado.

PÚBLICO versus PRIVADO:  O CORPO COMO FRONTEIRA

No primeiro texto sobre a dicotomia público versus privado, publicado aqui na Revista Escuta[iii], retomei a estruturação da obra de Hannah Arendt em torno dessa dicotomia, tendo como o totalitarismo como preocupação de fundo para a sua obra. Repito, aqui, afirmação que fiz naquele texto: “Reservar uma esfera para a ação, em que os homens são julgados pelos seus feitos, e não por serem isso ou aquilo, e uma esfera privada para as relações familiares e a memória individual, é o requisito primeiro e fundamental da dignidade humana, rompido pelo totalitarismo”. Hannah Arendt poderia ter estruturado sua teoria em torno de outras duas esferas, a do ser e a do fazer. Mas ela não fez isso. Na sua busca por reconstruir conceitos, uma vez que a tradição do pensamento ocidental fora perdida, ela reforçou uma velha dicotomia, que ela atribui aos gregos, mas que foi reforçada e traduzida para os termos modernos e contemporâneos pelo pensamento liberal. A fidelidade a essa dicotomia foi amplamente criticada pela literatura feminista (RICH, 1979; O’BRIEN, 1981; PITKIN, 1995),[iv] pois não somente deixava de destacar a desigualdade entre homens e mulheres produzida por essa divisão rígida, como também impedia a construção de uma teoria que a subvertesse. De fato, mais do que estruturar sua teoria na dicotomia público/privado, Arendt tinha como pilares distintos a esfera produtiva e a reprodutiva da vida, e um de seus desencantos com a modernidade teria sido justamente a ruptura dessa divisão, com a consolidação de uma sociedade de consumo, na qual as atividades da vida reprodutiva passam a ser ostentadas em público.

A despeito da correção das críticas, do ponto de vista de uma nova formulação, foi Susan Okin quem a rearranjou, desfazendo a ambiguidade que ela carrega: de um lado refletiria a dicotomia Estado/sociedade e, de outro, a dicotomia doméstico/não doméstico[v]. Okin não cita Arendt e, nesta sua crítica, nem poderia incluí-la, pois Arendt coloca a esfera social justamente como intermediária entre a pública e a privada, resolvendo, pois, a ambiguidade apontada por Okin. Mas o propósito de Okin é destacar, reforçando o lema feminista “O pessoal é político” – que será assunto específico de um próximo texto -, que as esferas doméstica e não-doméstica não podem ser rigidamente separadas, se o que se pretende é levar em consideração as desigualdades existentes na vida familiar na construção de uma teoria da justiça.

Se a reflexão de Okin contribuiu muito para a desconstrução de teorias permeáveis ou mesmo indiferentes à desigualdade entre homens e mulheres, quem irá desconstruir as próprias categorias “homem” e “mulher” será Judith Butler. A despeito desta importância inegável de Butler, interessa-me mais aqui as suas reflexões sobre o corpo. Butler, seguindo uma linhagem foucaultiana, leva a reflexão sobre o corpo até consequências bem longínquas, tanto ao afirmar que os seres humanos performam, o que significa dizer que, mais do que representar, há potencialmente uma afirmação identitária no agir humano – Hannah Arendt concordaria com ela, provavelmente – quanto ao reivindicar o direito ao luto daqueles que sofrem a perda de pessoas afetivamente próximas[vi]. Apenas com esses dois pontos – embora a teoria de Butler vá além disso -, compreende-se o corpo tanto como algo sagrado, no sentido de que tem um valor intrínseco, como o próprio palco em que o indivíduo expõe, concretiza e realiza o seu estar no mundo.

O corpo, nessa medida, parece ser um território impenetrável – no sentido de que não pode ser invadido -, a não ser que haja o desejo expresso do sujeito que o ocupa. Se o corpo é palco, arena ou locus, não faz sentido qualquer intervenção nesse espaço que não seja autorizado pelo seu “titular” – uso, aqui, um termo que evoca a noção de propriedade, mas não encontrei outro melhor -, ou, na falta deste (morte, inconsciência), por aquele (a) responsável pelos seus cuidados, ou por aquele (a) que poderá socorrê-lo, quando houver dano físico evidente.

Com essa concepção, o corpo passa a ser uma fronteira para a intervenção de outrem. E isso parece estar de acordo com vários regramentos sócio-jurídicos: não é possível fazer uma cirurgia contra a vontade de alguém, não é possível agir com violência física, no caso do Brasil, nem mesmo contra uma criança, e deveria ser uma fronteira também para que a prática do aborto fosse permitida e amparada pelo Estado, bem como qualquer relação corporal fosse estabelecida somente com o desejo manifesto das pessoas envolvidas.

Retomando a distinção entre o ser e o fazer invocada por Hannah Arendt, é preciso dizer que, nos sistemas penais liberais, são tipificadas como crimes apenas ações. Nenhum crime é passível de ser cometido por alguém apenas por este alguém ser. Mais do que isso, de acordo com textos de constituições democráticas, ninguém pode sofrer discriminação por ser algo. E aí então, não seria possível dizer que tudo que diz respeito ao corpo estaria na esfera do ser? Ainda que se trate de uma atuação – não teatral – em público, não estaria cada um, ao andar pela rua, ao beijar seu namorado ou sua namorada, ao dançar, com quem quer que seja, apenas sendo? Quando alguém decide morar com alguém do mesmo sexo e estabelecer relações sexuais com ele/ela, não está, da mesma forma, sendo? Quando alguém se veste para sair não está apenas mostrando um aspecto do seu ser? Aquele que usa drogas não está apenas atendendo a um vício – que é (ou, ao menos, deveria estar) situado na esfera do ser ­ seu?

Em contrapartida, alguém que proíbe o seu cônjuge de fazer algo que esteja incluído nos direitos básicos do ser humano, ou deixa de prestar assistência a alguém ferido, está, sim, ainda que por omissão, fazendo algo, na medida em que está desconsiderando, ou mesmo desvalorizando o outro, subjetivamente e corporalmente, se é que essas dimensões podem se separar.

Pois, se alguém ainda julga que a dicotomia público/privado tenha algum valor, do ponto de vista dos limites da ação do Estado – origem das preocupações de Hannah Arendt e outros teóricos -, acredito que ela deveria se deslocar para a esfera do corpo. Tudo aquilo que diz respeito ao corpo, desde que autorizado pelo seu titular, somente deveria dizer respeito a ele. Nenhuma intervenção, nenhum regramento deveria incidir sobre ele, o corpo. Provavelmente, nenhum corpo é um reino de paz, como imaginava o conquistador do poema de John Donne, mas todo corpo deveria ser, sim, um território sagrado, não na medida em que deva ser cultuado, mas de que deva ser respeitado em qualquer de suas formas.

*Maria Abreu é doutora em Ciência Política (USP), professora e pesquisadora do IPPUR-UFRJ, além de colaboradora da Escuta.

Imagem: Álvaro Almgren.

[i] Segue o poema integral, na tradução de Augusto de Campos (O Anticrítico, São Paulo: Cia. das Letras, 1986).

ELEGIA: INDO PARA O LEITO
Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

[ii] Meditação XVII. Esta meditação termina com a sentença: “Não pergunte por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”, que inspiraria o romance de Ernest Hemingway.

[iii] Segue link para o texto: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/05/16/revisitando-a-dicotomia-publico-versus-privado-i-o-estatuto-da-familia-pl-65832013/

[iv] O´BRIEN, M. The Politics of Reproduction. Boston: Routledge and Kegan Paul, 1981; PITKIN, H. F. Conformism, Housekeeping and the Attack of the Blob: The Origins of Hannah Arendt´s Concept of Social. In: HONIG, B. (Ed.) Feminist Interpretations of Hannah Arendt. University Park: Pennsylvania State University Press, 1995, p. 51-82. RICH, A. Conditions for Work: The Common World of Women. In: On Lies, Secrets and Silence: Selected Prose. New York: Norton, 1979, p. 1966-1978.

[v] Okin, S. Gênero, o público e o privado. Estudos Feministas Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 305-332, jan. 2008. ISSN 0104-026X. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2008000200002/8618>. Acesso em: 16 jun. 2016.

Anteriormente, o artigo já havia sido publicado em livros, em 1991 e em 1998.

[vi] BUTLER, J. Undoing gender. Routledge: 2004. Precarious life. The powers of mourning and violence. Verso, 2004.

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