Mayra Goulart*

Ao apresentar uma ferramenta analítica capaz de simplificar a dimensão política reduzindo-a a uma relação de antagonismo entre duas forças, o conceito de hegemonia assume uma função heurística, útil para a compreensão de conjunturas como a deflagrada ao longo do segundo mandato de Dilma Rousseff. Isto por que, o conceito nos permitir achatar um cenário  formado por inúmeros atores e projetos de poder concorrentes, reduzindo-a à polarização entre dois grupos, a despeito das semelhanças compartilhadas entre estes dois sujeitos e do seu alto grau de fragmentação interna. Tal simplificação, por sua vez, só é possível quando se parte do princípio de que a identidade desses dois grupos é definida de modo relacional, através das fronteiras de antagonismo formadas entre eles ao longo de um processo de disputa pelo poder, entendido pelo conceito de luta hegemônica. No caso em questão, esta luta está sendo travada entre o Partido dos Trabalhadores (PT), em torno do qual orbitam um conjunto de forças articuladas pela representação dos interesses das classes populares, e sua oposição, que congrega diferentes forças, articuladas pela percepção de ameaça face ao empoderamento dessas mesmas classes.

O presente texto utiliza essa ferramenta heurística para analisar o contexto atual, no qual se desmorona a coligação que havia sustentado o projeto político do Partido dos Trabalhadores (PT) através de uma aliança com as parcelas das elites tradicionais que, percebendo a possibilidade de ser alijada do poder por uma nova elite política, opta por apoiar o governo. É nesta conjuntura que a opinião pública internacional transforma-se em uma instância central da luta hegemônica travada no Brasil, haja vista um posicionamento crítico ao processo de impeachment instaurado contra a administração petista.

Diante disso, sobressaem as análises que culpabilizam a presidenta pela perda de um capital simbólico conquistado por seu predecessor, obtido através de um conjunto de iniciativas que reforçavam o papel econômico e político do Brasil no cenário global, acumulado sob a forma de uma inédita popularidade internacional. No plano doméstico, por sua vez, denuncia-se a mesma desatenção no tocante aos vínculos com as camadas populares com subsequente desperdício do capital acumulado por Lula da Silva.

O propósito deste comentário é analisar algumas estratégias do governo Dilma Rousseff enquanto variáveis explicativas para a compreensão da crise atual, utilizando o conceito de hegemonia para desenvolver uma hipótese acerca do seu insucesso.

 

1- Macroeconomia x Política Externa:

Conquanto à política externa, a transição entre os governos Lula e Dilma, não veio acompanhada de uma transformação radical nos eixos implantados durante as primeiras administrações petistas, que dizem respeito, sobretudo, ao estreitamento de laços com o Sul Global através de iniciativas diplomáticas, comércio e dos projetos de cooperação (SILVA & RANGEL, 2015; SARAIVA, 2010)[3]. Ainda assim, observou-se um progressivo esvaziamento dessas iniciativas. O que, de fato, ensejou uma redução na popularidade e influência do Brasil, face aos atores políticos e à opinião pública internacional. Nas palavras do ex-secretário geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães: “Não há a mesma intensidade de contatos que havia no passado. Embora não haja como dizer que houve mudança de rota, de princípios”[4].

Nesta comparação, sobressai a redução no número de viagens e visitas de chefe de Estado. De 2011 até 2014, haviam sido apenas 21 no total, incluindo as ocasiões em que um mesmo presidente veio ao Brasil mais de uma vez. Mesmo considerando que nesta contagem entra apenas um mandato, a redução é significativa, uma vez que as 63 visitas decorridas durante o governo de Lula  implicam em mais do que o dobro do observado no primeiro mandato de Rousseff. Ademais, além de não ter mantido o ritmo acelerado impresso por seu antecessor, que se transformou em um ícone mundial no tocante à diplomacia presidencial,  a presidenta também se destaca negativamente quando comparada a Fernando Henrique Cardoso (PSDB) que, durante seus dois mandatos (1995-2003), recebeu 50 visitas[5].

No que diz respeito ao número de viagens internacionais feitas pelos últimos presidentes brasileiros, Dilma novamente sai em larga desvantagem com 31 viagens durante os seus primeiros três anos de governo, enquanto Lula visitou 49 países no mesmo período[6]. Se contarmos o número de dias, observamos uma redução ainda maior (46,5%). Dilma esteve 144 dias fora do país em seu primeiro mandato, enquanto Lula, no mesmo período, ficou 216 dias no exterior [7]. No tocante aos destinos escolhidos, observa-se que a ênfase nos países do Sul, característica da Política Externa delineada durante as primeiras administrações petistas (SILVA, 2015), foi mantida, uma vez que registram-se proporções análogas na distribuição de viagens por continente, sendo a grande mudança observada no número absoluto de viagens.

 

Governo Número de viagens para cada região
  América do Sul América Central África Europa América do Norte Ásia Total
FHC 1 (1995-1998) 24 2 2 13 5 5 51
FHC 2 (1999-2003) 22 5 1 16 7 2 53
Lula 1 (2003-2006) 41 4 17 21 9 14 106
Lula 2 (2007-2010) 50 16 17 43 11

 

22 159
Dilma 1 (2011-2014) 22 4 7 15 5 5 58

 

 

Fonte: Elaboração própria[8].

 

Governo Porcentagens de viagens para cada região
  América do Sul América Central África Europa América do Norte Ásia Total
FHC 1 (1995-1998) 47,07% 3,92% 3,92% 25,49% 9,8% 9,8% 100%
FHC 2 (1999-2003) 41,52% 9,43% 1,88% 30,19% 13,2% 3,78% 100%
Lula 1 (2003-2006) 38,68% 3,77% 16,04% 19,81 8,5% 13,20% 100%
Lula 2 (2007-2010) 31,44% 10,06% 10,7% 27,05% 6,91% 13,84% 100%
Dilma 1 (2011-2014) 37,93% 6,9% 12,07% 25,86% 8,62% 8,62% 100%

 

Fonte: Elaboração própria

 

Conforme podemos observar na tabela acima, a partir da contagem dos número de visitas oficiais e de seus destinos, é possível reunir indícios favoráveis para afirmar que: (i) houve mudança de eixo na PEB durante os governos de Lula da Silva; e, (ii) que Dilma não rompeu com este novo paradigma, embora ele tenha sofrido uma drástica inflexão. Sendo assim, observa-se que, em relação à diplomacia presidencial, quando comparamos o número de viagens realizadas durante os governos de Lula, com as realizadas durante as administrações de Fernando Henrique Cardoso, nota-se que, além de uma variação quantitativa expressiva no volume (mais do que o dobro), há uma mudança qualitativa, nos destinos mais recorrentes, conforme indica a variação na proporção de viagens destinadas aos continente Europeu e Norte-americano, mas, sobretudo, no que diz respeito ao número de visitas à África.

Quanto à segunda afirmação, também é possível fundamentá-la a partir da análise dos dados acima, nos quais sobressai uma drástica variação quantitativa no volume, mas não uma mudança qualitativa na proporção dos destinos escolhidos. Ou seja, embora Dilma tenha reduzido a intensidade das viagens e, por conseguinte, a importância concedida à diplomacia presidencial (e à política externa de modo geral), não houve uma alteração no paradigma que se caracteriza pela ênfase nas relações com os países do Sul-Global.

Deste modo, se estas hipóteses se demonstraram plausíveis no tocante à diplomacia presidencial, resta ver se é possível fundamentá-la no tocante às iniciativas de cooperação, enquanto eixo estratégico do paradigma acima citado. Para isso, utilizaremos alguns dados disponibilizados pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

 

Gráficos 01 e 02.

imagem 1

 

Fonte: Agência Brasileira de Cooperação (ABC)

 

Gráfico 03:

Execução Financeira (2000-2014) de projetos cooperação destinados à Ásia, Europa, Oceania e Oriente Médio.

imagem 2

Fonte: Agência Brasileira de Cooperação (ABC)

 

Gráfico 04:

Execução Financeira (2000-2014) de projetos cooperação destinados à América do Sul, do Norte, Central e Caribe.

imagem 3

Fonte: Agência Brasileira de Cooperação (ABC)

 

Gráfico 05:

Execução Financeira (2000-2014) de projetos cooperação destinados à África

imagem 4

Fonte: Agência Brasileira de Cooperação (ABC)

 

Nos Gráficos 01 e 02, que apresentam o Quantitativo de Projetos e Atividades Isoladas de Cooperação por Ano, é possível indicar uma expressiva redução no número de iniciativas ao longo do primeiro mandato da presidente Dilma, em um movimento análogo ao que é inferido quando analisamos os gráficos que discriminam a execução financeira dos projetos e atividades isoladas por região. Ainda assim, cabe destacar que nos gráfico 02 e 03, referentes aos Projetos e Atividades Isoladas Novas por Ano (02) e à Execução Financeira de projetos de cooperação destinados à Ásia, Europa, Oceania e Oriente Médio (03), o movimento de queda só se inicia em 2012, sendo 2011 um ano no qual ainda observa-se crescimento.

Essa informação, todavia, não contradiz a hipótese de que as novas diretrizes de política externa, implementadas nas primeiras administrações do Partido dos Trabalhadores – caracterizadas pela ênfase na diplomacia presidencial e pela valorização das iniciativas de cooperação e comércio com os países do Sul Global (HIRST; LIMA, 2010) – sofrem, durante o governo de Dilma Rousseff, uma inflexão sem quebra paradigmática. Isto por que, conforme observado nos gráficos acima, o marco na desaceleração é o ano de 2011, sendo 2010, o ano de maior crescimento.

Deste modo, ainda que em seus primeiros dois anos de governo o volume de iniciativas tenha sido maior do que no início do governo de seu antecessor, percebe-se que, enquanto este foi caracterizado por um contundente movimento ascendente, aquele sobressai pelo declínio acelerado, particularmente quando observamos a queda ocorrida entre os anos de 2012 e 2013.

Esta modulação, todavia, também se verifica quando examinamos os dados da diplomacia presidencial, aqui analisada através do número de viagens oficiais dos chefes de Estado. Isto porque, embora tenha havido também uma desaceleração entre 2009 e 2010, a queda no número de viagens só adquire um caráter pronunciado em 2011, ano da posse de Rousseff. A partir de então, esses valores se mantêm expressivamente mais baixos quando comparados aos registrados durante o governo Lula.

 

Gráfico: 06

imagem 6Fonte: Elaboração própria

 

No entanto, se é inquestionável o impacto da dimensão subjetiva na desaceleração neste processo, haja vista os indícios de que a presidente não exerceu o mesmo protagonismo do que seu antecessor, é importante não julgar essas diferenças apenas como o desdobramento da personalidade e dos estilos pessoais dos respectivos chefes de Estado. Elas devem ser entendidas como produto de uma opção estratégica que deslocava a principal frente da luta hegemônica travada pelo PT para o campo macroeconômico, em detrimento de outras áreas como a política externa e a assistência social, que haviam caracterizado o governo Lula.

Mesmo levando em conta as diferenças pessoais, é possível supor que a ruptura Dilma Rousseff com o perfil conciliador e pendular de Lula, pode ter sido o resultado de uma opção em prol de uma atuação mais programática e confrontadora face às elites políticas tradicionais, cujo compromisso com o padrão de subdesenvolvimento de nossa sociedade e com o péssimo padrão de vida da população ultrapassa considerações puramente econômicas. Tal opção, entretanto, poderia ter sido conciliada com a continuidade do ativismo na área de política externa.

Sendo assim, ao negligenciar a importância do capital simbólico frente à opinião pública internacional e às camadas populares brasileiras, Dilma desperdiçou um recurso que poderia ter desempenhado um papel fulcral na disputa travada pelas forças progressistas organizadas em torno do Partido dos Trabalhadores, desestimulando as investidas do campo conservador.

2- A traição da burguesia nacional.

Antes de culpar Dilma por suas supostas inabilidades face ao gênio político de Lula, talvez seja mais interessante reconhecer na dinâmica de concertação por ele estabelecida uma camisa de força que bloqueou a realização de reformas estruturais. Estas reformas, mesmo quando não são contrárias aos interesses econômicos das elites nacionais, esbarraram no seu conservadorismo e, sobretudo, na percepção de que a melhora das condições de vida das camadas populares pode representar uma ameaça à manutenção de seus privilégios. Em favor deste argumento, é possível reconhecer no primeiro governo Dilma um esforço de romper com as limitações que engessaram os avanços sociais e econômicos durante as administrações de Lula. Estes, de modo geral, se limitaram a iniciativas de inclusão via consumo, conciliadas com a manutenção da ortodoxia macroeconômica, sustentada no tripé formado pelo superávit primário, câmbio flutuante e reduzidas metas de inflação.

Tais esforços, abarcados no que o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, denominou de “nova matriz econômica”, caracterizam o início do governo Rousseff[9] e foram viabilizados por altas taxas de crescimento econômico e  popularidade[10], garantidos por um índice de desemprego de 4,3% (o menor da história recente) e por uma valorização real do salário mínimo de 72% (entre 2002 e 2014) (SINGER, 2015, 2). Juntas, essas iniciativas podem ser vistas como movimentos de contestação, ainda que moderadas, à supremacia do capital financeiro em favor da economia real e seus protagonistas: no caso, a burguesia nacional e as classes populares.

Com este objetivo, foram adotadas uma série de políticas voltadas ao setor produtivo através do Plano Brasil Maior (PBM), lançado em agosto de 2011, no contexto em que se alastravam as preocupações sobre a reprimarização da pauta exportadora e da economia brasileira como um todo, haja vista o contínuo aumento da importância do comércio de matérias primas nos últimos dez anos (CARVALHO & CARVALHO,2013). O programa se dividia em duas dimensões de estímulos: vertical, voltada aos setores prioritários (mais competitivos ou mais vulneráveis), e horizontal na qual se inserem os programas de defesa comercial, o aumento dos recursos destinados à pesquisa e inovação (em especial da FINEP), a formação e qualificação profissional e os mecanismos de incentivo ao investimento (sobretudo, a partir do BNDES), entre outros.  Na dimensão setorial, destacam-se aquelas voltadas à área de petróleo e gás, à indústria naval, ao complexo de saúde, ao setor automotivo, à indústria aeronáutica e espacial, de bens de capital, das tecnologias de informação e comunicação e do complexo de defesa[11].

Em setembro de 2014, por meio de uma Medida Provisória (MP), o governo atacou outro gargalo à expansão da indústria nacional: o alto custo da energia. A MP 579 tinha como propósito reformar o marco regulatório do setor energético, garantindo uma redução de 20% no valor médio pago pela eletricidade.

No que diz respeito à qualificação de mão de obra, outro importante gargalo à expansão industrial, cabe destacar a criação do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Além de uma importante iniciativa voltada à formação de mão de obra qualificada, cuja escassez soma-se aos inúmeros outros “gargalos que dificultam sua expansão, o PRONATEC[12] almejava reduzir o peso do setor de serviços no mercado de trabalho brasileiro, que tem remuneração média inferior ao setor industrial.

Outras medidas levadas a cabo nesse período também podem ser consideradas sob a perspectiva de um afastamento com relação às parcelas da elite nacional associadas ao capital financeiro, cujos interesses materiais se contrapõem àqueles atrelados ao crescimento da economia real, haja vista uma disputa pelos recursos disponíveis para investimento. Dentre elas podemos citar: a desoneração da folha de pagamentos do setor industrial; a elevação do IOF; a redução do IPI de produtos específicos; a atuação do Banco Central no mercado aberto de câmbio; e, principalmente, a redução da taxa de juros (GODOY & GURGEL, 2014).

Conforme observado nos gráficos abaixo os primeiros anos do governo Dilma se caracterizam por um considerável processo de redução das taxas de juros, interrompido em julho de 2013, data que também demarca uma inflexão nas taxas de popularidade da presidenta, até então ascendentes.

Gráfico 07

imagem 7

Fonte: Banco Central

 

Gráfico 08

imagem 8.png

 

Nesta última decisão, reside o que acredito ser a variável determinante no desmoronamento do pacto que o PT acreditou ter estabelecido junto as elites econômicas e políticas tradicionais. Isto porque, a redução dos juros representa uma inédita confrontação ao poderio até então incontestável das elites financeiras, que se insurgiram contra o governo e foram seguidas pela burguesia nacional, em um movimento que não pode ser explicado em termos puramente econômicos.

Daí a utilidade da perspectiva teórica acerca do processo de formação identitária, apresentado em Hegemonia e Estratégia Socialista (1985). Nesta obra, Chantal Mouffe e Ernesto Laclau rechaçam o elemento essencialista que, na abordagem gramsciana, determinava a origem classista das identidades políticas, enquadrando-as, a partir de um prisma schmittiano[13], como produto ad hoc de uma relação de antagonismo[14]. Sob este prisma, é possível compreender a decisão da burguesia nacional de romper com o Partido dos Trabalhadores, seguindo o movimento das elites financeiras como resultado de sua própria formação identitária, atrelada a uma relação de antagonismo e à percepção de ameaça face ao empoderamento das classes populares.

Ademais, levando em conta as singularidades da economia brasileira, em que o montante despendido para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública representam 42% do gasto federal, o estabelecimento da taxa Selic é a principal decisão macroeconômica do governo. Este indicador, estabelecido pelo  Banco Central (BACEN), determina a taxa de financiamento no mercado interbancário para operações de um dia, que possuem lastro em títulos públicos federais, títulos estes que são listados e negociados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic). No caso dos juros cobrados aos cidadãos e empresas pelas instituições financeiras, a correlação com a Selic se dá em virtude da determinação de que o BACEN recolha todo o excesso de moeda que os bancos têm em caixa, substituindo-o por títulos da dívida interna, cuja remuneração é maior do que quaisquer outros investimentos (FATORELLI, 2015). Por outro lado, muitas vezes o pagamento dos juros aos credores é realizado por meio da emissão de novos títulos, em detrimento da normativa constitucional (art.167 da CFB) que proíbe este tipo de operação (idem).

É neste tipo de mecanismo de multiplicação automática da dívida – e, por conseguinte, do volume de divisas oferecido aos investidores financeiros, – que reside a origem do nosso déficit público, injustamente associado a um suposto excesso de gastos por parte do Estado brasileiro. Tal associação equivocada, por sua vez, é utilizada para fundamentar discursos de austeridade voltados à redução dos investimentos estatais na economia real e nas áreas sociais. A improcedência desta argumentação, todavia, é demonstrada pela comparação do montante do Orçamento Geral da União (OGU) destinado à remuneração do capital financeiro através do pagamento de juros, em relação ao qual os demais gastos revelam-se irrisórios. Se tomarmos como parâmetro o ano de 2014, por exemplo, observamos que foram despendidos R$ 978 bilhões (45,11% do OGU) para juros e amortizações da dívida, enquanto que os gastos com saúde,  educação e assistência social somados representaram 10.53% do OGU (3.98%, 3.47% e 3.08, respectivamente).

Diante desses dados, é preciso reconhecer na política monetária e fiscal adotada entre 2011 e 2013 uma tentativa inédita na história da Nova República de reverter a primazia das elites financeiras sobre as demais classes econômicas brasileiras.  De acordo com Mantega, tal política operaria uma “mudança estrutural e fundamental” na economia do país, “normalizando” o custo do crédito no Brasil –que deixaria de ter as taxas de juros mais elevadas do mundo e passaria a situar-se em níveis compatíveis com a média dos países desenvolvidos (SINGER, 2015, 5).  Com este propósito, entre agosto de 2011 e abril de 2013, as taxas foram reduzidas de 12,5% para 7,25% ao ano; o que em um contexto de inflação acumulada em 6,59% significaria juros reais a menos de 1% ao ano. Ademais, a redução na SELIC veio acompanhada de uma estratégia, capitaneada pelo BACEN para pressionar os bancos privados a reduzirem os spreads (idem).

Essa foi a principal aposta do governo, que, por sua vez, afastou-se da frente aberta pelo seu antecessor, que havia depositado suas fichas na política externa e na assistência social. De acordo com esta perspectiva, é possível observar no primeiro governo Dilma um conjunto de propostas voltadas à alteração da estrutura econômica do país que incluíram a implementação de medidas contrárias ao interesse imediato das elites financeiras, principais beneficiárias das altas taxas de juros.

O resultado, contudo, foi a demonstração da força das oligarquias financeiras, cuja importância política se revelou mais crucial do que poderíamos imaginar. Por outro lado, a aposta de Dilma de afastar-se da égide dessas elites em prol da burguesia nacional e das classes populares tinha como contrapartida a suposição de que contaria com o apoio destes setores caso os segmentos descontentes se voltassem contra seu governo; não foi o que aconteceu. Em dezembro de 2015, duas das mais importantes entidades empresariais do Brasil, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo  (Ciesp), divulgaram uma nota conjunta em apoio ao afastamento de Dilma Rousseff. De acordo com o comunicado, 91,9% da burguesia nacional se manifestou em favor da ruptura em levantamento realizado pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp e do Ciesp (Depecon) [15].

Em particular,  Dilma apostou no setor industrial, acreditando que, a partir dos estímulos concedidos pelo Estado, ele poderia tornar-se motor do desenvolvimento nacional capitaneado pelo governo, apoiando-o quando fosse necessário.  Essa pressuposição lastreava-se não apenas nas medidas acima citadas, mas também no fato de que as principais figuras do empresariado nacional foram contemplados com contratos generosos com as estatais, em especial a Petrobrás, além do acesso privilegiado a crédito junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). Ademais, a despeito da histeria acerca da carga tributária praticada no Brasil, entre 2005 e 2014 ela teria se mantido estável em 33,5% do PIB (BIANCHI, 2015).

A perplexidade diante desta ruptura, deu lugar a algumas conjecturas por parte dos analistas. Em texto publicado quatro dias depois do comunicado da FIESP, o professor da UNICAMP Álvaro Bianchi apresentou algumas suposições acerca da questão. Segundo ele, a decisão sinalizaria que os empresários paulistas:

  1. Consideram que o ciclo de desenvolvimento econômico baseado na expansão do crédito e do consumo, gerenciado pelos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, está encerrado.
  2. Deixaram de acreditar que o atual governo seja capaz de reestabelecer uma dinâmica de crescimento econômico, por meio de um ajuste fiscal e da reforma trabalhista que consideram necessárias.
  3. Passaram a considerar que a crise política é um entrave para a recuperação 
econômica, na medida em que cria uma situação de desgoverno e diminui a margem 
de manobra da equipe econômica.
  4. Não estão dispostos a esperar por uma vitória da oposição em 2018 e desejam uma 
solução imediata para esta crise, a qual passa pelo PMDB paulista e pela liderança de Michel Temer. 
(BIANCHI, 2015, 3)

 

Os quatro argumentos, contudo, não me parecem suficientes para explicar a decisão da burguesia nacional que, até o momento é uma das principais prejudicadas pelas dinâmicas judiciais envolvidas no processo de impeachment, em especial a operação Lava-Jato[16]. Sob a lente neogramsciana, no entanto, torna-se mais fácil analisar essa decisão que, quando considerada em termos puramente utilitários, parece carecer de sentido. Isto por que, o conceito de luta hegemônica nos permite compreender que a identidade da burguesia nacional não se define em termos puramente econômicos, sendo configurada também a partir de uma relação de antagonismo com as classes populares.

Em função disso torna-se mais fácil entender por que estes atores não foram capazes de estabelecer uma relação sólida de confiança com as novas elites políticas, simbolicamente associadas às classes populares, ainda que seu compromisso para com os trabalhadores tenha se mantido nos limites dos interesses do empresariado. Com o declínio da popularidade do PT, sobretudo após as manifestações de junho de 2013, a burguesia nacional se viu diante da possibilidade real de que essa nova classe política pudesse a ceder lugar às elites tradicionais, simbólica e socialmente desvinculadas das camadas populares. Aproveitando essa ocasião e contrariando as expectativas daqueles que ainda acreditavam na racionalidade do homo economicus, nossos burgueses abandonam o barco do governo, delatando-o pelos privilégios escusos que lhes foram concedidos.

*Mayra Goulart é Professora da UFRRJ e coordenadora do OPLOP, além de colaboradora da Escuta.

**Este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) intitulado: Bolivarianismo e luta hegemônica no Brasil: (re)significações do conceito durante o governo do Partido dos Trabalhadores (2005-2015)

Fonte da imagem: http://contenidoseducativosdigitales.edu.uy/contenido/el-boom-economico-de-finales-del-siglo-xix/  Acesso em: 12 jun. 2016.

 

Bibliografia:

BIANCHI, Álvaro. “Por que a Fiesp apoia o impeachment?”. Texto publicado no Blog Junho em 18 de dezembro de 2015. Acessado em 9/07/2016, http://blogjunho.com.br/por-que-a-fiesp-apoia-o-impeachment/.

CARVALHO, David Ferreira; CARVALHO, André Cutrim. “Desindustrialização e reprimarização da economia brasileira contemporânea num contexto de crise financeira global: conceitos e evidências.” Revista Economia Ensaios 26.1 (2013).

FATORELLI, Maria Lucia. Ciclo de juros no Brasil. Texto publicado no site Auditoria Cidadã em 30/10/2015. Acessado em 01/03/2016.

Godoy, Priscila Henriques, and Angelo Costa Gurgel. Os Impactos das Políticas de Estímulo à Indústria Brasileira. Artigo apresentado no 42° Encontro Nacional de Economia, 2014.

HIRST, Mônica; LIMA, Maria Regina Soares de; PINHEIRO, Leticia. A política externa brasileira em tempos de novos horizontes e desa os. Análise de Conjuntura, Rio de Janeiro, n.12, dez. 2010.

LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemonía y estrategia socialista. Siglo Veintiuno de España ed., 1987.

SARAIVA, José Flávio Sombra. A nova África e o Brasil e o Brasil na era Lula: o renascimento da política atlântica brasileira. Revista Brasileira de Política Internacional. Brasília, n.53, p. 169-182, 2010.

SILVA, Mayra Goulart; RANGEL, P.
Nosso norte é o Sul: A cooperação internacional para o desenvolvimento no âmbito da lusofonia. Revista Estudos Políticos. , v.5, p.541 – 561, 2015.

SILVA, Mayra Goulart. De volta à África: Solidariedade e Estratégia na Política Externa Brasileira. Revista de Estudos Internacionais. , v.2, p.271 – 290, 2015.

SINGER, André. O lulismo nas cordas. Revista Piauí. Edição 111 | Dezembro DE 2015.

[3] Sobre a viragem operada durante os governos dos Partidos dos Trabalhadores na área de política externa ver: SILVA, M. G. ; RANGEL, P. . Nosso norte é o Sul: A cooperação internacional para o desenvolvimento no âmbito da lusofonia. Revista Estudos Políticos, 2015.

[4] Ver: http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=8&cid=199482

[5] Ver: http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2014-06-02/com-orcamento-apertado-dilma-freia-pilares-da-politica-externa-de-lula.html

[6] Ver: http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2014-06-02/com-orcamento-apertado-dilma-freia-pilares-da-politica-externa-de-lula.htmler:

[7] Ver: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150113_dilma_viagens_internacionais_ms_lgb

[8] Dados retirados de https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_viagens_presidenciais_de_Fernando_Henrique_Cardoso; http://noticias.uol.com.br/infograficos/2010/12/31/as-viagens-de-lula-em-8-anos-de-governo.htm; https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_viagens_presidenciais_de_Dilma_Rousseff

[9] Nas palavras de Singer: Tratou-se, na realidade, de ousado ensaio desenvolvimentista em momento adverso, pois a segunda fase da megadificuldade capitalista colocou em marcha uma ofensiva neoliberal no mundo inteiro. Aqui, a intenção da presidente era aproveitar o mau momento global para resolver problemas estruturais da economia brasileira (SINGER, 2015, 5)

[10] Em pesquisa do Datafolha, realizada entre 18 e 19 de abril de 2012, 64% dos entrevistados avaliaram a administração de Dilma Rousseff como boa/ótima.

[11] Ver: http://www.cartacapital.com.br/economia/dez-anos-da-politica-industrial-brasileira-conquistas-e-desafios-a-superar-2913.html.

[12] O Pronatec foi criado pelo Governo Federal do Brasil no dia 26 de Outubro de 2011 pela Lei nº 12.513/2011. Desde então foram realizadas mais de 8 milhões de matrículas por meio do Programa, entre cursos técnicos e de formação inicial e continuada. (www. pronatec.mec.gov.br).

[13] Para Carl Schmitt, a gênese das identidades políticas se dá por meio de uma relação de antagonismo, estruturada em função do binômio amigo/inimigo. Ver: SCHMITT, Carl. O conceito do político. Teoria do Partisan. Ed. Del Rey, 2009.

[14] A hegemonia é, então, entendida como um atributo inerente à formação e transformação das comunidades políticas, conforme explicitado na obra em questão: “O conceito de hegemonia não emerge para definir um tipo novo de relação em sua identidade específica, mas para preencher um hiato aberto na cadeia da necessidade histórica”(LACLAU e MOUFFE, 1985, p. 07 – tradução minha).

[15] Ver: AGÊNCIA INDUSNET FIESP. Fiesp e Ciesp definem apoio a processo de impeachment. Portal Fiesp, 14 dez. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1ROjwuX.

[16] Segundo estudo da consultoria GO Associados, realizado no final de 2015 e publicado no site da FIESP, os impactos diretos e indiretos da Operação Lava Jato na economia já ultrapassavam os R$ 142,6 bilhões da economia, (o equivalente a uma retração de 2,5% do PIB). A pesquisa levou em conta os efeitos do corte de gastos da petroleira sobre a cadeia de fornecedores, além de uma retração nos investimentos de empresas líderes do setor da construção civil que estão sob investigação, estimada em 30%. Ver: http://www.fiesp.com.br/siniem/noticias/impacto-da-lava-jato-no-pib-pode-passar-de-r-140-bilhoes-diz-estudo.

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