Carolina de Paula*

        Se um marciano vier parar na Terra, e por acaso aterrissar no Brasil entre 20 de julho a 5 de agosto, ficará surpreso com os resultados das convenções partidárias municipais que acontecerão em breve. Com certeza ele pensará: “peraí, mas como é que o PT, o partido da presidente que sofre processo de impeachment, apoiará ou receberá apoio de partidos que votaram pela sua saída do poder? Vocês são loucos! ”. É, à primeira vista fica difícil não dar o braço a torcer e concordar com o amigo marciano. Claro, ainda é cedo e não sabemos qual será a configuração resultante das convenções que se aproximam, mas pela declaração mais recente do presidente do PT, Rui Falcão, já podemos supor que teremos sim coligações municipais para o cargo de prefeito entre partidos “inimigos” em âmbito federal.

Antes de entrarmos em pânico e maldizer ainda mais o nosso sistema político que já anda tão massacrado, vamos observar alguns elementos que nos ajudam a entender por que esse modelo de coligações em nosso federalismo não é tão bizarro assim. Não estou dizendo que concordo 100% com ele, apenas proponho que pensemos sobre uma estrutura maior que envolve a decisão, aparentemente simplista, de formar uma coligação para a disputa de uma das prefeituras de nossos 5.568 municípios[1].

Se partirmos da ideia que partidos querem vencer eleições – e não apenas marcar posições ideológicas sem fins eleitorais, algo também totalmente válido –  fica mais palatável aceitar que o cardápio partidário precisará, mal ou bem, chegar aos eleitores nos pleitos majoritários municipais e não somente no jogo maior, das eleições presidenciais e de governos estaduais. Sabemos que o Brasil possui dimensões continentais, decorre daí que a nacionalização coordenada dos partidos, ou seja, e expansão de uma legenda por todo o território, não é uma tarefa fácil. Olhando para ao caso do PT, que começa inicialmente nos anos 1980 o seu processo de entrada nos municípios maiores do Sudeste, e só então, durante a gestão Lula em 2002, parte para o interior, e avança para o Nordeste – o maior salto acontece de 2004 para 2008, em que o PT mais que dobra o número de prefeituras no Nordeste, de 65 para 138[2] – percebemos o quanto esse processo é lento. Uma das dificuldades para isso reside na acomodação das velhas elites partidárias locais. Pesquisas acadêmicas já mostraram que as coligações partidárias para o Executivo municipal em municípios menores seriam as mais incongruentes, ou seja, aquelas que fazem um mix ainda maior entre partidos de diferentes matrizes ideológicas[3].

Se pensarmos do ponto de vista estratégico do PT, abrir mão de alianças minimamente razoáveis para as prefeituras significa que o próprio reequilíbrio do partido – que provavelmente pagará o preço do processo de impeachment perdendo prefeituras em 2016 –  será ainda mais penoso em 2018, quando teremos novas eleições para o Congresso. Faltam estudos que comprovem a conexão entre as eleições “intermediárias”, essa que teremos agora em outubro, e as eleições gerais, que ocorrem dois anos depois. Contudo, em recente pesquisa, há indícios mostrando que o número de prefeituras conquistadas dois anos antes guardaria relação com o sucesso, ou fracasso, em conquistar assentos na Câmara dos Deputados na eleição subsequente (Lavareda et al, 2016).  Desse modo, o cálculo do PT em fechar ou não coligações em âmbito municipal precisará levar em conta os reflexos disso no desempenho da bancada Legislativa do partido em 2018.

Há quem argumente que para o eleitorado a imagem dos partidos e da classe política, que vai de mal a pior, pode ficar ainda mais prejudicada, fortalecendo o argumento de que “coligações puras” facilitariam o processo de decisão eleitoral. Porém, não devemos subestimar a inteligência do eleitor. Não conheço dados que comprovem um interesse e/ou acompanhamento maior dos eleitores pela política municipal vis a vis à esfera estadual e federal, mas pela minha experiência realizando pesquisas qualitativas pelo interior do Brasil, afirmaria sem sombra dúvidas que é bem maior. Dessa forma, efetuar avaliações retrospectivas sobre a política da sua cidade, da economia da sua região e realizações da atual prefeitura/grupo político em exercício parecem seguir uma (boa) dinâmica própria.  Enfim, trata-se de deixar que o eleitorado avalie o cardápio partidário que lhe será apresentado em breve e escolha aquilo que mais lhe pareça coerente.

Agora, se nosso amigo marciano me questionasse sobre as coligações partidárias para o Legislativo eu tenderia a concordar com ele: sim, somos loucos. Mas isso já é papo para outro texto!

* Carolina de Paula é Pós- doutoranda em Ciência Política no IESP-UERJ (pesquisadora do NECON), e sócia-diretora da VÉRTICE INTELIGÊNCIA. Colabora com a Escuta.

** Crédito da Imagem: <http://www.liveinternet.ru/users/4462189/post264701530/&gt;. Acesso em:  30 mai. 2016.

Referências

LAVAREDA, Antonio et al. Eleições municipais de 2012 e sinais para adiante. In: LAVAREDA, Antonio; TELLES, Helcimara (Org.). A lógica das eleições municipais. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2016.

PEIXOTO, Vitor. Coligações eleitorais nos municípios brasileiros: competição e estratégia. In: KRAUSE, Silvana; DANTAS, Humberto; MIGUEL, Luis Felipe (Org.). Coligações partidárias na nova democracia brasileira: perfis e tendências. Rio de Janeiro: Konrad – Adenauer- Stiftung; São Paulo: Ed. UNESP, 2010.

[1] Temos ao todo 5.670 municípios, porém não há eleições para prefeitura em Brasília e em Fernando de Noronha (PE).

[2] http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/fpa_comunica_02_-_trajetoria_pt.pdf

[3] Peixoto (2010) detalha com mais cuidado e volume de dados essa afirmação.

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