Wallace Andrioli Guedes*

Em meio a muitos relatos de salas vazias apesar de os ingressos para suas sessões estarem esgotados, o filme Os Dez Mandamentos, adaptação da telenovela bíblica homônima exibida em 2015 pela Record, tornou-se, oficialmente, a maior bilheteria da história do cinema brasileiro, com mais de 11 milhões de espectadores. Se as suspeitas em torno da veracidade desses números existem, elas não parecem suficientes para desqualificar por completo o sucesso comercial da obra, também muito bem-sucedida em sua passagem pela TV. E vale lembrar que Os Dez Mandamentos não é uma exceção no cinema brasileiro quando o assunto é êxito de bilheteria de filmes com temática cristã. Não faz muito tempo que convivemos com uma “onda” de filmes espíritas, dentre os quais se destacaram Nosso Lar e Chico Xavier, ambos de 2010, vistos por milhões de pessoas. Alguns anos antes, Padre Marcelo Rossi emprestou sua popularidade a dois projetos, Maria, Mãe do Filho de Deus (2003) e Irmãos de Fé (2004), histórias bíblicas narradas sob perspectiva católica que também obtiveram bons resultados comerciais.

Com exceção de Chico Xavier, dirigido pelo competente Daniel Filho, todos os outros guardam, em maior ou menor grau, semelhanças na pouca qualidade dramatúrgica, de roteiro e de direção. São filmes ruins, enfim. Creio que isso ocorre, sobretudo, por estarem mais preocupados com a doutrinação do público do que com fazer bom cinema. Nesse sentido, nossos filmes bíblicos se diferenciam de seus congêneres norte-americanos, por exemplo, ou ao menos de alguns deles, conhecidos também pelo imenso esmero estético e na construção da dramaturgia. Vale lembrar o magnífico Ben-Hur (1959), de William Wyler, que permanece como co-recordista de prêmios vencidos no Oscar (11, mesmo número de Titanic e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei).

Outro filme a ser tomado como excelente exemplo de articulação entre discurso de fé cristã (católica, para ser mais específico) e qualidade cinematográfica é o hoje pouco lembrado Fim de Caso (1999), de Neil Jordan, baseado em livro de Graham Greene. Conta-se aqui uma típica história de amor proibido em tempos de guerra e a narrativa se divide basicamente em dois momentos: os anos do conflito (1939-1944), quando Maurice Bendrix (Ralph Fiennes), um escritor, e Sarah Miles (Julianne Moore), esposa de um funcionário do governo inglês (Stephen Rea), vivem um tórrido romance; e o imediato pós-guerra (1946), no qual um amargurado Maurice busca descobrir as razões que levaram Sarah a abandoná-lo. Essa estrutura permite que Jordan crie cenas belíssimas, nas quais passado e presente se unem por meio do olhar nostálgico do protagonista: ao subir novamente as escadas da casa de Sarah, Maurice se lembra dos dois fazendo esse mesmo trajeto há alguns anos, encaminhando-se para sua primeira transa; ao ver a amante partir após um frustrado reencontro no restaurante que outrora frequentavam, o escritor recorda de momento semelhante, em que a acompanhara até a rua protegendo-a da chuva. Breves planos desse passado são inseridos no meio das cenas do presente e os dois tempos se sobrepõem na tela. Trata-se, portanto, de um filme visualmente inteligente, sofisticado.

Esse uso qualificado da linguagem cinematográfica também aparece na maneira como Jordan inclui o elemento religioso em Fim de Caso. O episódio chave do filme, do bombardeio que vitima Maurice, é apresentado sob dois pontos de vista, contado por cada um dos protagonistas. Se esse “efeito Rashomon” tende a ser interessante por si só, aqui ele ganha força numa simples escolha de posicionamento da câmera: ao seguir Maurice de volta ao quarto, recém-desperto após ser atingindo pelo ataque alemão, a câmera de Jordan encontra Sarah debruçada sobre a cama, rezando. Sob o olhar do escritor (e compartilhamos desse olhar nesse momento), a mulher nada fez para ajudá-lo, preferindo refugiar-se na fé a tomar medidas práticas. Como logo em seguida ela abandona o amante, constrói-se a imagem da personagem como egoísta, exatamente como Maurice a enxerga até aquele momento da narrativa. Pouco depois, a cena é repetida, agora com a câmera posicionada dentro do quarto, junto a Sarah. Após o bombardeio, ela desce as escadas desesperada e, diante da ausência de resposta de um desacordado, aparentemente morto, Maurice, retorna ao quarto, se joga sobre a cama e começa a rezar pela vida do amado. A câmera enquadra a personagem de frente, com a porta do quarto ao fundo. No exato momento que ela promete a Deus nunca mais ver Maurice se ele for poupado da morte, vemos o sujeito surgir ao fundo, redivivo. Aqui nos é permitido reinterpretar a atitude de Sarah, ao mesmo tempo que sofremos o impacto da entrada em cena de Deus, verdadeiro pivô da separação do casal e ponto de virada na narrativa de Fim de Caso, que passa, então, a ser um filme sobre outro tipo de amor, por algo maior, transcendental.

A construção dessa virada é tão cuidadosa e coerente com a história contada por Jordan e a protagonista é tratada com tamanha complexidade em suas escolhas, que pouco importa concordarmos ou não com os preceitos de uma determinada religião, acreditarmos ou não na existência de Deus. Aceitamos a intervenção divina como uma possibilidade no interior daquela narrativa, compreendemos o dilema de Sarah, a dor que a personagem experimenta, como também compreendemos a amargura de Maurice por ser trocado por alguém com quem é incapaz de competir. Envolvidos, emocionados, mas sem, em qualquer momento, nos sentirmos doutrinados de alguma forma, chegamos ao final de Fim de Caso com um nó na garganta semelhante ao provocado por outros grandes filmes de amor de época, ainda que em nada relacionados a temas religiosos, como a obra-prima Desencanto (1946), de David Lean, e os mais recentes Desejo e Reparação (2007), de Joe Wright, e Carol (2015), de Todd Haynes. Esta aí uma ótima sugestão de sessão quadrupla, aliás.

* Wallace Andrioli Guedes é Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://oberon481.typepad.com/oberons_grove/2015/01/the-end-of-the-affair.html&gt;. Acesso em:  25 mai. 2016.

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