Rafael A. de Abreu*

Em um texto publicado recentemente, Jorge Chaloub refletiu sobre as consequências das chamadas “Jornadas de Junho”, que nos acompanham em nossos dias de crise. “As ressacas de Junho”[1], segundo o autor, não seriam apenas resultado de supostos excessos cometidos por aqueles que ocuparam as ruas nos dias turbulentos de 2013; ou, então, de uma divisão posterior que acometeu a sociedade brasileira, que agora opera segundo o binarismo “coxinhas” versus “comunistas”. Embora este último ponto possua um altíssimo “teor alcoólico” – que começou a ser consumido em doses generosas pelos brasileiros/as nos eventos e nos debates que se iniciaram com os protestos de Junho -, a maior causa do mal-estar e das dores de cabeça que fazem Chaloub sofrer encontram assento mais profundo em um outro lugar: nas interpretações sobre Junho. Neste caso, os maiores exageros seriam encontrados em um debate político-intelectual que trata o fenômeno em questão a partir da dicotomia “tudo ou nada”: Junho, desse modo, ou assume a feição de uma caixa de pandora, responsável por expor ao sol e fortalecer todas as mazelas pátrias, ou toma o lugar de evento inédito e fundador, legitimo abre alas de um novo país que ainda não se construiu, mas já se anuncia no horizonte[2].

Vinculada à segunda afirmação encontra-se, portanto, a perspectiva que trata do “ineditismo de Junho”, posição que dialoga com o slogan “o gigante acordou”. Para Jorge Chaloub, o erro central dessa perspectiva residiria na reiteração de uma concepção tradicional, em solo tupiniquim, que consiste no diagnóstico da “passividade do povo brasileiro”. Essa posição, alimentada tanto pela história do pensamento nacional quanto pelo senso comum que lamenta a nossa inferioridade, no entanto, ignoraria as múltiplas formas de resistência e contestação registradas no processo histórico – e complexo – de nossa formação nacional[3].

No outro caso, onde se encontram os principais críticos de Junho/2013, continua Chaloub, as manifestações são responsabilizadas por uma “ascensão conservadora”, que fortaleceu a direita no país e fez emergir uma oposição reacionária ao Partido dos Trabalhadores – perspectiva que se lamenta, por exemplo, por meio do argumento de que “o MPL faz o jogo da direita”. Para o autor, entretanto, esta linha interpretativa reduz a complexidade do movimento a uma das pautas que atravessou as ruas, mas esteve longe de assumir nelas o protagonismo (…)[4].

Sendo assim, Junho/2013 e suas ressacas refletiriam a complexidade brasileira diante de uma unidade inexistente que, em contrapartida, teria contribuído para um despertar da radicalização dos embates políticos, do fortalecimento de um discurso de descrença nas instituições e da valorização das performances públicas como parte central do jogo político[5]. Estes elementos, por sua vez, estariam inseridos em um jogo complexo de interação e determinação que produziria muitos lados e diversos caminhos. Nem no segundo caso, o da descrença nas instituições, seria possível encontrar uma unidade: se por um lado Junho foi palco de uma luta por direitos (pela liberdade de manifestação contra a violência policial, pelo transporte público e outros direitos sociais, como saúde e educação), por outro viu emergir demandas e posicionamentos que giram em torno de uma concepção neoliberal de Estado, do elogio ao mercado e de uma visão moralista da política e do mundo dos costumes[6].

Se a ausência de percepção sobre a unidade inexistente produziu perspectivas equivocadas no debate político-intelectual, certa produção acadêmica, desde 2013, ofereceu um percurso mais satisfatório na compreensão do fenômeno que corroboram as refutações do autor mencionado acima. Sobretudo no âmbito dos estudos sobre movimentos sociais, os termos “complexidade” e “multiplicidade” se situam no ponto de partida para as análises sobre as Jornadas de Junho e, inclusive, sobre a sua relação com os protestos de 2015 centrados em uma agenda anti-PT ou, de modo mais genérico, contra um programa político geralmente identificado como de esquerda.

As análises, assim, deveriam se aprofundar na busca de elementos que não estariam dispostos na superfície. Mas, por outro lado, isto não impede a possibilidade de traçar uma narrativa dos eventos: Breno Bringel[7], por exemplo, se apoiando em leituras internacionais sobre movimentos sociais[8], diferencia os movimentos iniciadores (ou movimentos madrugadores) dos movimentos derivados: os protestos, portanto, iniciados pelo Movimento Passe Livre (MPL), recepcionariam, em um determinado momento, grupos e indivíduos que passam também a desempenhar um papel importante nas manifestações. Estes últimos, no entanto, não teriam uma identificação anterior com grupos como o MPL ou com formas mais tradicionais de exercício político, como sindicatos e partidos: um ponto central aqui é que, ao contrário do previsto pelas teorias dos movimentos sociais, os “movimentos derivados” aproveitaram-se no Brasil, dos espaços abertos pelas mobilizações iniciais, sem, contudo, manter laços fortes, enquadramentos sociopolíticos, formas organizativas, referências ideológicas e repertórios de mobilização que os una ao MPL e/ou a outros iniciadores[9].

O momento em que a origem é ultrapassada, quando o aumento das passagens de ônibus deixa de ser a única demanda dos protestos – momento em que um contingente imenso de pessoas “sai do Facebook” -, foi conceituado por Breno Bringel como o fenômeno do transbordamento societário: um momento em que o protesto se difunde dos setores mobilizados para outras partes da sociedade, transbordando os movimentos sociais que o iniciaram[10]. De tal modo, nesta interpretação, Junho foi resultado de uma confluência ambígua, marcada por movimentos contraditórios de “forças centrípetas” (a externalização da indignação e simultaneidade presencial e simbólica nas mesmas ruas e praças) e “forças centrífugas” (que, a despeito da copresença nos mesmos espaços, indicavam diferentes motivações, formas de organização e horizontes de expectativas)[11].

Esta confluência ambígua presente nas manifestações de Junho/2013, consequentemente, não indicariam uma unidade, conforme os argumentos mencionados no início deste texto, mas, sim, a presença de elementos culturais e históricos mobilizados das mais variadas formas por movimentos, grupos e indivíduos. Aqui, Bringel, ao lado de Pleyers, estabelece diálogo com uma outra pesquisa sobre as Jornadas de junho, que foi realizada por Angela Alonso e Ann Mische. As pesquisadoras, a partir de definições exploradas por Charles Tilly[12], tentaram decifrar quais foram as forças sociais e culturais que alimentaram os repertórios disponíveis e utilizados pelos participantes protestos. Deste modo, a ideia de unidade perde lugar para a noção de performances híbridas que, segundo as autoras, possuiriam três fontes principais: socialista (derivada de concepções compartilhadas pela esquerda brasileira); autonomista (postura de grupos que confrontam o poder estatal e que possui vínculo estreito com as estratégias da “geração de Seattle”.); e o patriótico (que reproduziria nas ruas uma estética e um discurso nacionalista: as cores da bandeira e o hino nacional, slogans do tipo “o gigante acordou”, cânticos geralmente entoados em jogos da Seleção de futebol – “sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor…” – e o verde-amarelo pintado no rosto que remetia aos “caras-pintadas” das manifestações do “Fora Collor” em 1992)[13].

A partir da tipologia das três fontes de repertório, Alonso e Mische identificaram dois campos de ação que situavam os manifestantes nos espaços de atuação. Em primeiro lugar, as pesquisadoras descreveram um campo no qual predominou o repertório “autonomista”: ao mesmo tempo em que incorporava o repertório “socialista”, de demandas que fazem parte de uma esquerda brasileira “mais histórica”, este campo pode ser caracterizado pela recusa da lógica hierárquica e burocrática que faz parte da organização de partidos políticos e de movimentos estudantis tradicionais (basta nos lembrarmos do tipo de organização que configura o MPL: horizontalidade e ausência de um único líder)[14]. Em segundo lugar, o campo patriótico, que é, sobretudo, marcado pela hegemonia do repertório “verde-amarelo”. Este campo, que pertenceria ao momento dos movimentos derivados(…) the patriotic Field grew as the protests expanded to the broader population[15] -, embora representasse uma oposição ao repertório socialista, incorporaria demandas situadas mais a esquerda, como nos cartazes que pediam “mais saúde e educação”.

As performances híbridas indicaram, consequentemente, que parte dos atores envolvidos nas manifestações articularam elementos dos dois campos. A preocupação central das autoras, portanto, foi a de acentuar o hibridismo de fontes e campos contra uma perspectiva que buscaria descrever Junho/2013 a partir da noção de movimento único. De tal modo, quando se fala da atuação dos campos nas manifestações identifica-se o domínio de uma das fontes, mas não a pureza de um repertório.

O hibridismo que caracterizou as Jornadas de Junho, por outro lado, não nos impede de relatar e descrever diferenciações importantes entre ações, grupos e indivíduos em 2013 – e que permaneceram no cenário nacional em um momento posterior. As manifestações naquele período também foram marcadas por conflitos, embates e debates entre os envolvidos. Quando a massa aderiu ao movimento com o slogan “o gigante acordou”, não foram poucas as vozes, ligadas aos movimentos sociais, a responder: “nós nunca dormimos, nossa luta nas ruas é permanente”.

Em São Paulo, no dia 20 de junho de 2013, o evento na Avenida Paulista ajuda na compreensão desse ponto: o MPL tentou exercer uma proteção para que os partidos políticos de esquerda pudessem participar do ato, pois desde a segunda-feira, dia 17 de junho, quando o número de participantes aumentou consideravelmente depois da “quinta-feira sangrenta”, o lema “sem partido” havia se tornado hegemônico. Neste dia de comemoração, quando o prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin recuaram no aumento das passagens, as pistas da avenida demarcaram uma diferença: de um lado, o MPL, os partidos e os movimentos sociais; de outro, uma massa difusa, mais próxima da “estética patriótica”. Muitas pessoas, obviamente, ficaram sem entender o que estava acontecendo. Mas os conflitos não tardaram: enquanto alguns gritavam o famoso “sem partido”, outros respondiam “sem fascismo”. A agressividade foi aumentando até o momento em que, finalmente, os militantes dos partidos e movimentos sociais foram expulsos da Avenida Paulista, o que levou o MPL a se retirar da manifestação.

Posteriormente, o hibridismo e a heterogeneidade nas manifestações de Junho/2013, seriam gradualmente substituídos por contornos mais nítidos que demonstravam diferenças que antes estavam mais embaçadas. Assim, para Bringel e Pleyers, as Jornadas poderiam ser classificadas como uma fase catártica que seria sucedida por uma fase de decantação[16], marcada por um maior acirramento das polarizações. Esta última fase consolidaria a existência de dois polos radicalmente antagônicos, com uma diversidade de situações intermediárias possíveis[17]. Angela Alonso, por sua vez, compreenderia as manifestações realizadas no ano de 2015, contra o governo e pelo impeachment da presidente Dilma, como fenômeno caracterizado por uma fisionomia “mais pura” do repertório patriótico[18].

Depois de Junho/2013, movimentos e manifestações dos dois lados do espectro político se fortaleceram e se intensificaram em São Paulo e outras cidades. A capital paulista não foi apenas palco dos maiores protestos contra o Governo Federal, mas também assistiu as manifestações de movimentos feministas contra o deputado Eduardo Cunha e dos estudantes secundaristas contra o projeto de reorganização do sistema educacional estadual, por exemplo. Além disso, a cidade passa um processo de reocupação dos espaços públicos, que conta com o protagonismo de movimentos e coletivos das mais variadas bandeiras – algo que remete a Junho, obviamente, mas que possui uma história recente anterior às Jornadas.

As análises que foram apresentadas até aqui, portanto, caminhariam de uma heterogeneidade como forma de compreender Junho/2013, até composições mais homogêneas, que estabeleceriam, posteriormente, diferenças nas agendas que motivariam a ocupação dos espaços (virtuais ou físicos). Um ponto interessante aqui, no entanto, é a centralidade que as principais cidades brasileiras ocupam nas pesquisas mencionadas. Bringel e Pleyers, inclusive, mencionam em seu artigo pesquisas que tentam romper com uma espécie de sudestecentrismo, que consistiria em interpretar o que ocorreu no Brasil a partir dos acontecimentos no Rio de Janeiro e em São Paulo[19]. Junho/2013 não é um fenômeno totalmente decifrado e, provavelmente, o desenvolvimento e esforço acadêmico indicará um caminho de expansão das análises, como no caso de descrever o que aconteceu em outras capitais do Brasil fora do eixo Sudeste-Sul[20].

Neste caso, persiste a questão de se pensar no tema das expressões e manifestações de identidades, fontes e repertórios – se quisermos manter o diálogo com Angela Alonso – que estiveram presentes em todo território nacional no período das Jornadas. Ao que parece, uma análise mais profunda, para além do eixo Rio-São Paulo e outras importantes capitais, pode contribuir para a compreensão do complexo jogo que envolve comportamentos, posicionamentos e posturas mais heterogêneas ou homogêneas que marcaram as ações de indivíduos e grupos que ocuparam as ruas do país. Ou seja, se as pesquisas e análises passam a operar com o tema da multiplicidade de fontes, repertórios e identidades para dar conta do fenômeno de Junho/2013, a pergunta que se segue é: de que modo estes elementos se “reproduziram” e se manifestaram em outros lugares do Brasil? Como explicar tal processo?

Como se sabe, na quinta-feira feira 20 de junho de 2013, as Jornadas atingiram seu pico no Brasil. Em relação aos números de manifestantes, nesse dia mais de um milhão ocuparam as ruas, segundo os dados divulgados à época. Este evento nacional não chegou a superar os protestos em torno das Diretas Já, por exemplo. A novidade, no entanto, ficaria por conta da quantidade de cidades: no dia 20 de junho de 2013, ocorreram manifestações em 388 cidades no país[21]. No estado de Mato Grosso, por exemplo, protestos foram organizados em vários municípios do interior[22], além da capital Cuiabá: Sorriso (que conta com 80 mil habitantes), Alto Araguaia (17 mil), Alta Floresta (quase 50 mil), Rondonópolis (aproximadamente 215 mil), Lucas do Rio Verde (57 mil), Colniza (33 mil), Confresa (28 mil), Barra dos Bugres (33.700 habitantes), Barra dos Garças (58 mil), Guarantã do Norte (quase 40 mil habitantes), Cáceres (90 mil), Nova Mutum (39.700) e Sinop (aproximadamente 130 mil habitantes)[23].

Durante os eventos de Junho/2013, eu estava morando em São Paulo, o que me permitiu acompanhar os atos nas ruas da capital paulista. Mas, quando os protestos se espalharam como um rastilho de pólvora, principalmente por conta das redes sociais, passei a recolher materiais sobre as manifestações em Mato Grosso. Meu interesse nesta região específica do país se vinculava à pesquisa que realizei para a produção de minha tese de doutorado, que consistiu em uma análise sobre o processo de ocupação e formação das cidades no norte do estado mato-grossense durante a Ditadura Militar – para a realização da pesquisa, em 2012, passei sete meses em Mato Grosso, entre as cidades de Cuiabá, Sinop e Lucas do Rio Verde.

Um dos pontos interessantes nas manifestações realizadas no interior mato-grossense reside no fato de que foram precedidas por um outro tipo de organização: com a ausência de movimentos iniciadores, como no caso do MPL em São Paulo, pessoas (ou grupos) que se dispuseram a dar início às manifestações, colocavam em destaque pautas que, pelo menos nos primeiros atos da capital paulista, eram secundárias. O melhor exemplo foi o caso da oposição à PEC 37[24], que se tornou central em várias cidades, como Sorriso, Alto Araguaia, Confresa e Primavera do Leste. O tema genérico da corrupção também foi elemento precursor da indignação nas cidades mato-grossenses. Mas, por outro lado, uma das preocupações centrais era a realização de manifestações “ordeiras” e “pacíficas”.

Os eventos em Sinop, principal cidade da região norte de Mato Grosso, ajudam a elucidar o que ocorreu naqueles dias no interior do Centro-Oeste brasileiro. Nesta cidade, jovens universitários organizaram o “Vem Pra Rua Sinop” e convocaram uma manifestação para a sexta-feira, dia 21 de junho de 2013. A cidade de Sinop, assim, reuniu cerca de seis mil pessoas, segundo a contagem da Polícia Militar – dez mil manifestantes, segundos os organizadores. Ao contrário do que aconteceu em São Paulo ou em outras grandes capitais, a manifestação sinopense nunca reproduziu os conflitos que resultaram do encontro entre os “cidadãos comuns” e militantes de partidos políticos e movimentos sociais de esquerda. Mesmo assim, na véspera do evento, os organizadores enviaram um recado para a população: essa luta é de todos nós independentemente de partido político, portanto, não vá com camiseta, faixa ou qualquer outra coisa de partido[25].

Nesta cidade, entre os pedidos dos jovens organizadores, também era possível constatar a preocupação com a manutenção da ordem para que os atos transcorressem de modo pacífico. Nestas cidades mato-grossenses, diferentemente dos eventos em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, não foram presenciadas ações de grupos como os Black Blocs. Obviamente, com o clima vivenciado pelo país naqueles dias, essa era uma preocupação das forças de segurança em Sinop. Um dia antes da manifestação, o Tenente Coronel da Polícia Militar declarou: acredito que a manifestação em Sinop será tranquila, porque aqui a população está em outra sintonia, mas caso haja alguma situação de violência ou depredação ela será contida imediatamente[26]. Mas nada aconteceu e o sucesso do evento foi comemorado nas redes sociais.

É interessante observar que, mesmo se considerarmos a declaração do oficial da PM, sobre a baixa probabilidade de ocorrer atos violentos (entre os próprios manifestantes ou ações de Black Blocs), o conflito esteve presente, como possibilidade, em um cenário hipotético, antes e durante a manifestação. Isto pode ser constatado, primeiro, no pedido para que as pessoas não levassem, ao local da passeata, símbolos de partidos políticos. Em segundo lugar, os organizadores comemoraram o fato de que a manifestação se manteve, em todo o trajeto, “pacífica” e “ordeira”, conforme mencionado anteriormente.

O ponto de chegada do trajeto da manifestação sinopense foi a Câmara dos Vereadores. Este momento contribui para a compreensão do ponto levando no parágrafo anterior: quando a passeata chegou ao local, algumas pessoas se adiantaram e, com uma extensa bandeira verde-amarela, se posicionaram na frente do prédio público com a intenção de protegê-lo contra possíveis ataques. Nenhum manifestante, no entanto, esboçou uma reação de destruir ou invadir a casa do Legislativo municipal. Este evento é interessante, pois, tanto no discurso quanto na performance e encenação política (de proteger a Câmara e ter uma manifestação ordeira como um objetivo central), Sinop se conectava com o que estava acontecendo em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, por exemplo, cidades que assistiram cenas de conflitos intensos. Por outro lado, ao “impedir” que tais eventos acontecessem, era como se os manifestantes em Sinop pudessem se vangloriar de realizar um protesto idealmente perfeito[27].

No decorrer de sua própria “Jornada”, a cidade também reproduziu a profusão e diversidade de pautas que caracterizaram as manifestações ao redor do Brasil[28]. Neste caso, é como se Sinop representasse um laboratório das Jornadas de Junho, ao permitir uma melhor compreensão a respeito do processo de adesão de brasileiros que determinariam a mudança de fisionomia das manifestações que nasceram na capital paulista; de pessoas, portanto, não vinculadas a uma vida guiada pela pedagogia política mais tradicional: (…) vamos manifestar a nossa revolta com tudo o que vem acontecendo, com o descaso político, não só em todo o Brasil, mas também em nossa cidade. Sinop está tomada de violência e descaso político (…)[29], declarou um dos organizadores do evento.

Ao final da passeata, os manifestantes cantaram o hino nacional, assim como aconteceu em Lucas do Rio Verde, que reuniu duas mil pessoas no dia anterior[30]. Em Sinop, ao final do hino, em cima de um carro de som, um cidadão declarou: ser patriota não significa apenas saber cantar o hino. Ser patriota significa tomar o Brasil de volta para nós, tirar da mão da política corrupta[31]. O protagonismo de uma simbologia nacional – recusada por movimentos autonomistas, por exemplo – também esteve presente no protesto que ocorreu no município de Primavera do Leste: conforme publicado na imprensa, o convite para a manifestação no Facebook colocava como objetivo central mostrar que somos uma nação unida[32].

Posteriormente, em 2015, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop, figurariam como cidades representantes do interior do Mato Grosso nas manifestações contra o PT e Dilma Rousseff: em Sinop, houve passeata pela Avenida Júlio Campos, também contra a corrupção de forma geral e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Muitos usavam “verde e amarelo”. Cerca de 25 entidades, ligadas a diversos setores de atuação, organizaram o movimento de forma pacífica. (…) Nos cartazes, havia dizeres como o “setor produtivo exige mais respeito e o Brasil não aguenta mais”, “Sergio Moro estamos com você”, (…) “Corrupção é crime”, “Corrupção Mata”, “Fora corruptos” e “Fora quadrilha do PT”[33].

“O nacional”, “ser patriota”, “o nós”, a “nação unida” e a “ordem”, parecem indicar que em outros lugares, Junho/2013 se realizou – do início ao fim – sob a hegemonia de uma “estética/repertório patriótico”, conforme definiu Alonso e Mische. Manifestações “pacíficas” e “ordeiras”, terminando com a execução do hino nacional, como no caso de Sinop e Lucas do Rio Verde, diferentemente dos jograis do Movimento Passe Livre, sugerem que uma noção de unidade e homogeneidade atravessou o território do país, a despeito da diversidade das demandas expostas nos cartazes. Obviamente, isto aparece aqui como uma hipótese: como explicar um fenômeno que, possivelmente, conectou pessoas de diversos lugares, com o auxílio de poderosas redes de comunicação e informação contemporâneas, que se manifestaram por meio de símbolos e expressões comuns?

Esses indivíduos que tomaram para si os protestos que se iniciaram com as mobilizações do MPL em São Paulo, em aproximadamente 400 cidades do país, apresentam, assim, um novo desafio à sociologia brasileira: mesmo com suas participações de difícil definição, pessoas ao redor do Brasil conheceram as ruas portando desejos, comportamentos, condutas e valores semelhantes, algo que antigamente só nos era possível observar nas maiores cidades brasileiras, ou seja, nos aglomerados urbanos considerados mais modernizados e desenvolvidos. Pode-se afirmar que a sociologia deve agora explicar quais são os processos e elementos que estabelecem conexões de parte da população do interior do Brasil ao que ocorre nas capitais da região Sudeste, Sul e Nordeste. O que torna possível, portanto, que uma questão que dizia respeito aos paulistanos, cariocas, belo-horizontinos, porto-alegrenses ou recifenses, rapidamente tenha sido identificada como um problema de sinopenses ou luverdenses.

A pista, obviamente, são os inúmeros fenômenos modernizantes que transformaram a fisionomia de parte do território brasileiro. Embora a opinião pública e a população dos grandes centros ignorem muitas mudanças consolidadas nestas localidades, o processo de modernização nas últimas décadas nos obriga, inclusive, a impor limites ao modo como nos acostumamos a lidar e fazer circular a tradicional categoria “sertão brasileiro”, quando geralmente nos é exigida uma explicação sobre as diferenças que marcam regiões “atrasadas” e regiões mais “modernas”.

Esta questão, portanto, exige uma perspectiva que se dedique a analisar o processo histórico de formação/modernização das regiões que compõem o território brasileiro. Deste modo, não se trata especificamente sobre Junho/2013, mas dos elementos que tornaram este fenômeno possível – se quisermos entender mais a sua extensão do que a sua manifestação nos grandes centros. Como compreender, portanto, o fato de que setores expressivos da sociedade brasileira se manifestem de modo mais homogêneo, criando algo próximo de uma “comunidade imaginada” em meio a um cenário de diversidades e formas de vida heterogêneas? Talvez, tal perspectiva nos ajude a entender os conflitos e as divisões atuais na sociedade brasileira, para além das explicações fáceis sobre jogos conspiratórios nos quais indivíduos são modelados pelas elites ou pela mídia tradicional, sem exercer influência alguma. Para o bem ou para o mal.

*Rafael Abreu e doutor em Ciência Política (IESP/UERJ) e colabora com a Revista Escuta.

Crédito da imagem: Hudson Ponts/Agência O Globo Fonte: http://oglobo.globo.com/brasil/no-ano-dos-protestos-numero-de-filiacoes-partidos-despencou-11828231 Acesso em: 23 mai. 2016.

[1] “As ressacas de Junho”, de Jorge Chaloub, foi publicado no blog “Revista Escuta”. Disponível em: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/02/15/as-ressacas-de-junho/. Acesso em 18 fev. 2016.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] Idem.

[6] Nas palavras do autor: “Se tais movimentos comungavam com o impulso inicial das Jornadas da desconfiança em relação às instituições vigentes, as enormes diferenças entre ambos não permitem, de modo algum, colocá-los no mesmo saco. Igualar críticas à direita e à esquerda é, na verdade, procedimento comum de quem deseja desqualifica-las, mas pouco ajuda a compreender o cenário político que ora se delineia”.

[7] Bringel, Breno. Sentidos e tendências do levante brasileiro de 2013. In. Dossiê Temático (NETSAL): As Jornadas de Junho em perspectiva global. Rio de Janeiro. Dez. de 2013.

[8] Neste caso, Breno Bringel cita um trabalho de Doug Mcdam. Ver: Bringel, Breno. Sentidos e tendências do levante brasileiro de 2013. In. Dossiê Temático (NETSAL): As Jornadas de Junho em perspectiva global. Rio de Janeiro. Dez. de 2013, p. 18.

[9] Ibidem, p. 19.

[10] Bringel, Breno; Pleyers, Geoffrey. Junho de 2013… dois anos depois. Revista Nueva Sociedad especial em português. Out. de 2015, p. 8.

[11] Idem.

[12] Principalmente as concepções de “ciclos de protesto” e “repertórios” que são resultado de fontes sociais e culturais.

[13] Alonso, Angela; Mische, Ann. June demonstrations in Brazil: repertoires of contention and government’s response to protest. em From contention to social change: rethinking the consequences of social moviments and cycles of protests, ESA Research Network on Social Movements Conference, Universidade Complutense de Madri. Fev. de 2015, p. 16-19. Ver, também: Bringel, Breno; Pleyers, Geoffrey. Junho de 2013… dois anos depois. Revista Nueva Sociedad especial em português. Out. de 2015, p. 8.

[14] Alonso, Angela; Mische, Ann. June demonstrations in Brazil: repertoires of contention and government’s response to protest. em From contention to social change: rethinking the consequences of social moviments and cycles of protests, ESA Research Network on Social Movements Conference, Universidade Complutense de Madri. Fev. de 2015, p. 20.

[15] Idem.

[16] Bringel, Breno; Pleyers, Geoffrey. Junho de 2013… dois anos depois. Revista Nueva Sociedad especial em português. Out. de 2015, p. 08.

[17] Ibidem, p. 09.

[18] Alonso, Angela. Protesto pode ser gigante, mas tende a ser estéril. Folha de São Paulo, 16 de Ago. de 2015 visões da crise. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/08/1669286-protesto-pode-ser-gigante-mas-tende-a-ser-esteril.shtml.

[19] [19] Bringel, Breno; Pleyers, Geoffrey. Junho de 2013… dois anos depois. Revista Nueva Sociedad especial em português. Out. de 2015, p. 07.

[20] Ver, por exemplo: Moraes, Alana; Gutiérrez, Bernardo; Parra, Henrique; Albuquerque, Hugo; Tible, Jean; Schavelzon, Salvador (Orgs.). Junho: potência das ruas e das redes. Friedrich-Ebert-Stiftung. São Paulo. 2014.

[21] Manifestações foram realizadas em 388 cidades do país. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2013/06/21/manifestacoes-foram-realizadas-em-388-cidades.htm. Acesso em 27 de abr. de 2015.

[22] Manifestações se espalham por cidades de MT. Disponível em: http://circuitomt.com.br/editorias/cidades/29462-manifestacoes-se-espalham-por-cidades-de-mt-veja-todos-os-locais.html. Acesso em 27 de abr. de 2015.

[23] Os dados sobre o número de habitantes nessas cidades foi retirado do site Cidades do IBGE, disponível em: http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/uf.php?lang=&coduf=51&search=mato-grosso. Acesso em 04 de mar. de 2016.

[24] Com o aumento de manifestantes ao redor do país, a Proposta de Emenda à Constituição 37/11 passou a ser combatida nas ruas. A autoria da proposta foi do deputado Lourival Mendes (PT do B-MA), que consistia em atribuir exclusivamente às polícias Federal e Civil a competência para investigações criminais. A oposição à PEC 37 residia no fato de que, se aprovada, o Ministério Público poderia ser impedido de realizar investigações criminais por conta própria. Na terça-feira, 20 de junho de 2013, o Plenário da Câmara Federal rejeitou a aprovação da proposta de emenda.

[25] Sinop adere à onda de protestos no Brasil. Disponível em: http://www.celeirodonorte.com.br/VerNoticia/8146/769. Acesso em 27 de abr. de 2015.

[26] Comércio de Sinop fechará mais cedo nesta sexta-feira por causa de manifesto. Disponível em: http://www.expressomt.com.br/matogrosso/comercio-de-sinop-fechara-mais-cedo-nesta-sexta-feira-por-causa-de-manifesto-67471.html. Acesso em 27 de abr. de 2015.

[27] Ver, por exemplo, as imagens e a reportagem “Cerca de 6 mil pessoas participam da manifestação em Sinop. Disponível em: http://g1.globo.com/mato-grosso/videos/v/cerca-de-6-mil-pessoas-participam-de-manifestacao-em-sinop/2649747/. Acesso em 02 de mar. de 2016.

[28] Imagens da manifestação de Sinop podem vistas na reportagem produzida pelo programa local Piicast. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5n2zGM2mm9c. Acesso em 27 de abr. de 2015.

[29] Sinop adere à onda de protestos no Brasil. Disponível em: http://www.celeirodonorte.com.br/VerNoticia/8146/769. Acesso em 27 de abr. de 2015.

[30] Protesto reúne mais de 2 mil pessoas nas ruas de Lucas do Rio Verde. Disponível em: http://www.cenariomt.com.br/noticia/298074/protesto-reune-mais-de-2-mil-pessoas-nas-ruas-de-lucas-do-rio-verde.html. Acesso em 02 de mar. de 2015.

[31] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=F5j5suv6B0s. Acesso em 02 de mar. de 2015

[32] Hoje tem manifestação em Primavera do Leste/MT. Disponível em: http://saotomenoticias.blogspot.com.br/2013/06/hoje-tem-manifestacao-em-primavera-do.html. Acesso em 02 de mar. de 2016.

[33] Confira como foram as manifestações contra a corrupção em Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde e Cuiabá. Disponível em: http://www.giromt.com/confira-como-foram-as-manifestacoes-contra-a-corrupcao-em-sorriso-sinop-lucas-do-rio-verde-e-cuiaba/. Acesso em 02 de mar. de 2016

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