Fernando Perlatto*

Em livro publicado em 2015, intitulado O Impeachment de Fernando Collor. Sociologia de uma Crise, o professor de Sociologia da USP, Brasílio Sallum Jr. constrói um quadro explicativo orientado para compreender as razões que levaram ao impedimento do então presidente em 1992. Tendo sido eleito em dezembro de 1989, com cerca de 35 milhões de votos, Collor governou o país durante um curto período de tempo, sendo afastado da presidência da República após os trâmites do processo de impeachment, que se ancorava especialmente na acusação realizada pelo seu irmão, que o apontava como diretamente envolvido em um esquema de corrupção gerenciado pelo tesoureiro de sua campanha eleitoral. No fim de setembro de 1992, a Câmara dos Deputados autorizou, por ampla maioria, a abertura do pedido de impeachment e três meses depois o Senado aprovou o processo, resultando no banimento de Collor da vida pública por oito anos.

De maneira bem resumida, é possível dizer que, de acordo com o Sallum Jr., dois fatores articulados teriam sido determinantes para a queda de Collor. O primeiro deles, mais estrutural, estaria vinculado à crise da “forma varguista de Estado”, entendida pelo autor como um determinado modelo que tinha o “Estado como núcleo organizador da sociedade” e que funcionaria “como alavanca para a construção de um capitalismo industrial, nacionalmente integrado, mas dependente do capital externo”. O segundo fator, associado mais diretamente à dimensão política, se explicaria pela crise que foi se desenhando de maneira cada vez mais aguda entre o Poder Executivo, caracterizado pelas ações voluntaristas de Collor, e o Poder Legislativo, cuja agenda, no contexto da redemocratização, orientada para a redução da desigualdade social, se contrapunha ao programa defendido pelo então presidente da República.

Eis que passados 24 anos, agora em 2016, o Brasil se vê novamente na iminência do encaminhamento do impeachment de uma representante da presidência da República. Ainda não se sabe ao certo qual será o resultado ao final do desenrolar final do processo. Mas, é muito provável que, a partir de agora, com a aceitação pelo Senado do pedido de admissibilidade do impedimento da presidente Dilma Rousseff – e com seu consequente afastamento de 180 dias –, seu futuro político já esteja decidido e seja praticamente impossível revertê-lo.

Como chegamos até aqui? De que maneira é possível explicar como que em poucos anos a conjuntura política tenha virado de tal modo, de sorte que nos encontramos agora na pior crise da democracia brasileira, desde o fim do regime militar?

******

Uma primeira razão para explicar como chegamos até aqui deve ser buscada na dimensão econômica. Se Brasílio Sallum Jr. dizia que vivíamos, no contexto do governo Collor, uma crise da “forma varguista de Estado”, podemos dizer, parafraseando o autor, que testemunhamos neste momento uma crise da “forma lulista de Estado”. Um aspecto que tem sido pouco lembrando nas análises de conjuntura se relaciona ao fato de que vários países do mundo enfrentaram recentemente, em 2008 e 2009, a maior crise financeira desde 1929. Ainda que o Brasil não tenha sido atingido com grande força naquele momento imediato, ao contrário dos países centrais, a crise finalmente chegou e bateu forte por aqui, sobretudo a partir de 2013 e 2014. Um dos resultados desta crise foi a queda do PIB, o aumento da inflação e, sobretudo, a ampliação do desemprego, que tem jogado gasolina no clima de tensão social que o país vive hoje. Apenas a título de observação, de acordo com o Dieese, a partir de 2013, o país entrou em um novo ciclo de greves, tanto na esfera pública, quanto na iniciativa privada, evidenciando o grau de insatisfação dos trabalhadores com o atual cenário econômico e social.

Para agravar o cenário, a principal fonte de recursos secou. Com a crise da China, houve uma queda enorme na exportação de commodities, que asseguraram o crescimento e a expansão das políticas de redistribuição de renda dos dois governos Lula e do primeiro governo Dilma. Na abundância dos recursos, os conflitos entre as diferentes classes sociais tendem a se acalmar, a se acomodar, a se harmonizar, uma vez que todos – ou, pelo menos, quase todos – saem ganhando na disputa pelos recursos. Este ganho para todos os lados foi, em certo sentido, uma das principais características daquilo que o cientista político, André Singer, chamou de “lulismo”, em seu livro Os Sentidos do Lulismo. Ganharam os “de cima” e ganharam “os de baixo”. Já na escassez de recursos, como é o caso do momento político em que vivemos agora, os conflitos distributivos tendem a se exacerbar e aqueles que estavam ganhando – sejam os empresários e banqueiros, sejam aqueles que ascenderam socialmente nos últimos anos – não querem perder, e isso acaba por intensificar a tensão social no país. Dessa forma, como consequência da crise econômica, nós estamos testemunhando hoje uma exacerbação do conflito redistributivo na sociedade brasileira, evidenciando que o projeto lulista de redistribuição de renda, aquele projeto harmônico e mais consensual onde quase todos saíam ganhando, chegou ao seu limite, bateu no teto, chegou ao fim, e até o momento em que a situação se acomode – o que possivelmente vai demorar a acontecer, se é que virá novamente a ocorrer – os conflitos entre as diferentes classes sociais tenderão a se exacerbar de forma significativa.

Este conflito distributivo foi intensificado nos últimos anos por diferentes embates simbólicos que vieram gradativamente ganhando maior amplitude no país. Para além da questão dos novos personagens que entraram em cena com o processo de inclusão social da era petista, cuja presença no mercado, nos aeroportos, nas universidades, tem gerado forte resistência de setores pouco acostumados com o compartilhamento do espaço do consumo e do espaço público com os “diferentes”[1], vale destacar que, a despeito dos limites dos governos de coalizão e consenso do PT, os últimos anos testemunharam a implantação de importantes políticas públicas de reconhecimento e de valorização de minorias – como as políticas de ação afirmativa nas universidades e a criação de secretarias como estatuto de ministério como a SEPPIR, de igualdade racial, e a Secretaria de Políticas para as Mulheres – que vêm provocando intensas críticas de diversos setores de uma sociedade marcadamente conservadora. O empoderamento de segmentos historicamente oprimidos – a exemplo das mulheres, dos negros e dos grupos LGBTTT –, não apenas “por cima”, mas, sobretudo, “por baixo”, mediante a organização de grupos, núcleos e coletivos em diferentes espaços, como escolas e universidades, têm incomodado e gerado resistências, ampliando os conflitos e levando a tensão social do país para outros patamares.

*****

Estas resistências às ações progressistas da era petista ganharam fôlego nos últimos anos com a reorganização e fortalecimento do campo da direita no Brasil.[2] Nas eleições presidenciais de 2014, testemunhamos, pela primeira vez, desde o processo de redemocratização do país, um movimento forte da constituição de uma “nova direita” na sociedade brasileira, composta principalmente por segmentos que apoiaram a candidatura de Aécio Neves, do PSDB, à presidência da República. Não se está a dizer aqui que todos aqueles que apoiaram Aécio eram de direita, mas busca-se, apenas, chamar a atenção para o fato de que parte importante da base social da sua candidatura foi estruturada por uma fração importante desta “nova direita” da sociedade, que é formada por grupos mais organizados, como “Vem pra Rua”, “Revoltados Online” ou o “Movimento Brasil Livre”, e outros não tão orgânicos, que se fortaleceram gradativamente ao longo dos últimos meses. Esta nova direita tem se posicionado com um discurso atravessado pelo ódio, demonstrando, inclusive, níveis de organização que não eram comuns tempos atrás, contando com o apoio de organizações como o Instituto Liberal e o Instituto Millenium e com a disseminação de suas ideias via a presença de vários colunistas em jornais de circulação nacional e mediante a publicação de obras com perfil conservador, que vêm ganhando cada vez mais espaço. Essa “nova direita” viu na internet uma possibilidade enorme para seu crescimento, através de redes sociais, como o Facebook. Em um artigo recente, a colunista do El País, Eliane Brum, destacava que, não obstante os avanços proporcionados pela internet, ela produziu efeitos perversos, uma vez que servira como campo propício para disseminação desta “nova direita”: hoje as pessoas se sentem na liberdade de defender pautas conservadoras e reacionárias, sem quaisquer constrangimentos, pois estão protegidos pelas telas, e, o que é pior, sabendo que várias pessoas compartilharão suas ideias e as expandirão. Ou seja, se antes o ódio de classe, raça e gênero permanecia, em certo sentido, velado, hoje ele é aberto e explícito; se antes o preconceito gerava um mínimo de constrangimento, a internet banalizou o discurso do ódio, criando um território propício para a floração dessa “nova direita” brasileira.

As duas grandes manifestações recentes contra o governo Dilma – a de março de 2015 e a de março de 2016 –, ainda que não possam ser reduzidas exclusivamente ao campo da direita, sendo muito mais complexas do que isso, são, sem dúvida nenhuma, o resultado mais organizado da floração e do fortalecimento dessa “nova direita” brasileira. Ainda que os manifestantes não fossem todos de direita, constituindo-se um público muito mais heterogêneo, tivemos, em março de 2015 e março de 2016, as duas maiores manifestações organizadas pela direita brasileira desde as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”, em 1964, e isso não é de pouca relevância. E também não é de pouca relevância o fato de que essa “nova direita” conseguiu, pela primeira vez, mobilizar de forma significativa setores da sociedade que não são necessariamente de direita para contestações direcionadas contra governo, sinal de que lograram sucesso em difundir este descontentamento por amplos setores da população.

Um dos pontos mais importantes a ser destacado no que concerne a esta discussão é que esta reorganização da direita não permaneceu restrita ao âmbito da sociedade civil, conseguindo construir espaços importantes no plano da representação política. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), logo após os resultados finais das eleições legislativas de 2014, analisou o perfil dos mais novos deputados e senadores recém-eleitos e chegou à conclusão de que naquele pleito foi eleito o Congresso mais conservador desde 1964. Com o termo “congresso conservador”, o DIAP queria precisamente se referir a essa demografia do Congresso, que se viu reforçada nesta última legislatura por bancadas conservadoras, que já ficou, de forma sarcástica, reconhecido como bancada “BBB”, “Bíblia, Boi e Bala”. Projetos como a redução da maioridade penal, a flexibilização do estatuto do desarmamento, a “desideologização das escolas” impulsionada por movimentos como o “Escola sem Partido”, o avanço de terceirização e a aprovação do chamado “Estatuto da Família”, passaram a ganhar força e visibilidade na pauta legislativa. Atualmente, mais de 50 projetos com perfil claramente conservador tramitam no Congresso Nacional, seja atacando o direito dos trabalhadores, seja atacando direitos de minorias.

Vale destacar que este processo de fortalecimento de direita na sociedade e na representação política foi impulsionado, em grande medida, como decorrência da radicalização da oposição, especialmente do PSDB, que, fragmentado e sem discurso, se viu empurrado cada vez mais para o campo conservador. Além de contestar imediatamente os resultados das eleições de 2014 e de vir sistematicamente obstruindo as votações no Congresso Nacional apenas para dificultar as ações do governo – inclusive em torno de pautas que sempre defendeu, a exemplo do fator previdenciário –, o PSDB deixou-se contaminar pelo discurso da radicalização, imaginando que poderia surfar nesta onda conservadora. Porém, o PSDB vem dando impulso a determinadas forças as quais ele mesmo não tem tido condições de conduzir. Estas forças mais conservadoras da sociedade parecem preferir figuras como Jair Bolsonaro a Aécio, Serra e Alckmin, e não estão dispostas a se contentar com discursos moderados, preferindo estimular ou, no mínimo fazer vistas grossas, a ações como ataques a sedes do PT, pichações no Instituo Lula, recusa de atendimento a filha de mãe petista, xingamentos em restaurantes e hospitais, e ataque a pessoas na rua simplesmente por vestirem camisas vermelhas.

*****

Da mesma forma que a face progressista das políticas sociais e simbólicas da era petista provocou resistências à direita, o outro lado da moeda, a face conservadora desta era – marcada pela manutenção de compromissos com setores atrasados e retrógrados da política nacional, pelo não enfrentamento de pautas históricas da esquerda, como a reforma política, a democratização dos meios de comunicação e a taxação das grandes fortunas, pelo desenvolvimentismo “pelo alto” cuja marca maior foi Belo Monte – gerou fortes resistências à esquerda. As manifestações de junho de 2013, ainda que marcadas pela heterogeneidade e embora não possam ser compreendidas como pertencentes exclusivamente ao campo da esquerda, nasceram pela esquerda a partir de organizações como o Movimento Passe Livre (MPL). A despeito do fato de os descontentamentos que ganharam vida em junho não tenham sido direcionados apenas contra o governo federal, aquelas manifestações evidenciaram que havia setores que se organizavam à esquerda e que não estavam mais satisfeitos com as políticas da era petista, demandando ações mais democratizantes, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista social.

A intepretação equivocada do significado de junho de 2013 por parte do governo Dilma e por parte do próprio PT ajuda a explicar muitos dos descaminhos que trouxeram o país para a crise atual. Diversos setores do PT se colocaram a priori contra junho de 2013, acusando as manifestações de conservadoras e abdicando de fazer qualquer disputa nas ruas. É certo que em junho de 2013 havia pautas à direita, mas havia também uma agenda a ser construída pela esquerda relacionada, por exemplo, à questão do transporte público e da reforma urbana, assim como à temática da corrupção. No que concerne mais especificamente a este ponto, vários segmentos do PT, sobretudo do grupo majoritário, optaram por ignorar a temática da corrupção, associando-a à retórica udenista conservadora, perdendo de vista que a agenda do combate à corrupção – sobretudo quando ancorada no tema do financiamento das campanhas eleitorais – é republicana por excelência e, portanto, da esquerda. Ao exercer as práticas de financiamento que antes condenava e ao fazer vistas grossas à corrupção praticada por figuras iminentes do partido, o PT se viu enfraquecido, reduzido, diminuído para enfrentar com a grandiosidade necessária a crise política e social que se avizinhava na conjuntura brasileira.

Somem-se a estes erros do PT, os reiterados equívocos políticos durante os dois governos Dilma. Se, no primeiro governo, ainda que tomando medidas progressistas – a exemplo de políticas desenvolvimentistas, que nem Lula tivera coragem de propor –, ela o fez de forma equivocada, uma vez que conduzidas de forma centralizada, “por cima”, deixando de mobilizar “por baixo”, os atores que poderiam dar sustentação ao projeto e enfrentar as resistências que fatalmente viriam – como aquela organizada pela FIESP –, no segundo governo, Dilma protagonizou uma guinada à direita, adotando uma agenda completamente contrária àquela que ela havia defendido durante o processo eleitoral e que derrotara o candidato Aécio Neves. As nomeações de Kátia Abreu, a grande liderança do agronegócio, para o Ministério da Agricultura, do conservador Gilberto Kassab para a pasta das cidades – que, ressalte-se, após de junho de 2013, deveria ser considerada como prioridade do governo –, e de Joaquim Levy, economista abertamente liberal e que, inclusive, apoiara a candidatura de Aécio durante o processo eleitoral, para o Ministério da Fazenda –, somadas a iniciativas como o apoio, ainda que com vetos, à Lei Antiterrorismo, foram ações que fizeram com que o apoio político pela esquerda ao seu governo se esfarelasse.

*****

A todas as questões anteriormente discutidas, deve-se destacar que Dilma passou por um processo, muito semelhante àquele analisado por Brasílio Sallum Jr. em relação ao governo Collor, de tensionamento cada vez mais significativo com o Poder Legislativo, em especial com a Câmara dos Deputados. Durante os dois mandatos de Dilma, vimos uma presidente que mostrou uma enorme dificuldade em governar e estabelecer relações com o Congresso Nacional, construindo os acordos políticos necessários para assegurar a governabilidade. Para o bem ou para o mal – isto, ainda, a história haverá de avaliar –, Dilma não demonstrou capacidade ou vontade de estabelecer uma negociação mais forte com o Congresso como fizeram os presidentes anteriores, especialmente Fernando Henrique e Lula, asseverando o bom andamento do chamado “presidencialismo de coalisão”. Ao não proceder desta forma, o que se viu foi a exacerbação das tensões e as crises com o Poder Legislativo, fazendo com que, gradativamente, ela visse reduzida, quando não implodida, sua capacidade de pautar a agenda do Congresso Nacional.

Estas tensões com o Legislativo, é claro, foram agravadas pelos conflitos entre a presidente Dilma e o PT com o PMDB. O PMDB é hoje o partido que conta com o maior número de deputados na Câmara dos Deputados e ter seu apoio sempre foi condição sine qua non para a manutenção da governabilidade em praticamente todos os governos após a redemocratização do país; daí, o termo “pemedebismo”, formulado por Marcos Nobre, em seu livro Imobilismo em Movimento. O PMDB deu suporte a quase todos os presidentes desde o fim do governo Sarney, com a exceção do governo Collor e do primeiro governo Lula, não à toa, governos que passaram por crises sérias com o Poder Legislativo, no caso do Collor a crise que levou ao “impeachment”, e no caso do Lula, a crise que levou ao chamado “Mensalão”. Após esta crise no governo Lula, rapidamente houve uma reaproximação do PT com o PMDB, justamente porque o Lula buscava assegurar a governabilidade no Congresso Nacional. O PT manteve boas relações, ainda que tensas com o PMDB, até recentemente, quando os conflitos começaram a se exacerbar. Dilma buscou, sobretudo desde o início do segundo governo, enfraquecer o PMDB e fortalecer alternativas partidárias, a exemplo da proposta da criação de um partido liderado por Gilberto Kassab, chamado “Partido Liberal”. Essas iniciativas não foram bem sucedidas e geraram mais crises com o PMDB. O ponto alto desta disputa foi a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, quando o PT lançou um candidato, Arlindo Chinaglia, para concorrer contra o Eduardo Cunha, do PMDB, e Cunha foi o vitorioso. A partir dali, as relações se deterioraram cada vez mais, sobretudo devido ao comportamento do próprio Cunha – que acolheu o pedido de impeachment contra Dilma em dezembro de 2015, no mesmo dia em que o PT decidiu votar contra ele na Comissão de Ética, onde era investigado – e do vice-presidente Michel Temer, que, desde a carta escrita à presidente Dilma, passando pelo áudio “vazado” do Whatsapp, foi se afastando cada vez mais do governo e costurando o rompimento e o processo de impedimento.

Diretamente relacionado às questões acima discutidas, é importante que se ressalte que testemunhamos, ao longo dos últimos meses, um fortalecimento significativo do Poder Legislativo, sobretudo da Câmara dos Deputados. Dados divulgados recentemente mostram que esta Câmara dos Deputados que aí está teve o maior índice de produção legislativa dos últimos vinte anos. Este fortalecimento poderia ser saudado, pois, em um movimento contrastante com o que ocorrera desde o processo de redemocratização do país, ele evidencia uma independência do Poder Legislativo frente ao Poder Executivo. Porém, o problema é que tivemos um Poder Legislativo, talvez nunca antes tão fortalecido como agora, porém nunca antes também tão conservador como o que temos agora e tão refratário à agenda da presidente da República, sobretudo quando ainda era conduzido por Eduardo Cunha. Para corroborar o argumento da hostilidade, basta pensar que a coligação da presidente Dilma elegeu, em outubro de 2014, 304 deputados federais; em abril de 2016, menos de dois anos depois das eleições, o governo não conseguiu, ao menos 172 votos necessários para barrar o processo de impeachment.

*****

As relações conturbadas entre os Poderes Executivo e Legislativo ficaram ainda mais complicadas pelo contexto da Operação Lava-Jato, que tem deixado em suspenso o país. Sobre a Lava-Jato é importante destacar que ela nasce com uma vocação e uma perspectiva fortemente republicana, orientada para desvendar os vínculos entre empreiteiras e o sistema político. E nasce, diga-se, de passagem, pois houve pela primeira vez no país condições da Polícia Federal e dos órgãos de controle atuarem de forma autônoma, algo que não acontecia no passado. Porém, gradativamente a Lava-Jato foi se desvirtuando, contaminada pelas disputas da conjuntura política, passando a adotar, sob a condução do juiz Sérgio Moro, um direcionamento claramente seletivo. Some-se a esta seletividade, as denúncias que passaram a ganhar repercussão em relação à condução do processo por Sergio Moro. Episódios como a condução coercitiva do ex-presidente Lula e a divulgação seletiva de grampos obtidos de forma ilegal, em direta articulação com a Globo News, assim como denúncias de atropelo do Ministério Público e violações de direitos humanos para a obtenção de provas, escancaram e trouxeram à luz os problemas da Lava-Jato e o enfraquecimento de sua dimensão republicana. Ainda que o juiz Sergio Moro tenha sofrido várias críticas de diferentes setores, inclusive do Judiciário, e tenha sido repreendido pelo Supremo Tribunal Federal – que, diga-se, de passagem, também foi um ator fundamental para o agravamento da crise –, o dano causado pela condução coercitiva e pela liberação das escutas já estava feito e estas ações apenas contribuíram para jogar ainda mais lenha em uma fogueira que já vinha se esquentando.

Todas as questões acima destacadas, é claro, acabaram reverberando na popularidade da presidente Dilma, que foi se esfacelando, se desintegrando rapidamente. O ponto inicial da queda brusca da popularidade da Dilma foi a eclosão dos protestos de junho de 2013. De acordo com dados do instituto Datafolha, antes das manifestações, ela possuía 65% de avaliação “Ótimo ou Bom” e 7% apenas de “Ruim ou péssimo”. Com os protestos, seu índice de “Ótimo ou Bom” foi de 65% para 30% e de “Ruim ou Péssimo” saiu de 7% para 28%. Já próximo às eleições de 2014, seu índice de “Ótimo ou Bom” melhorou um pouco, indo de 30% para próximo dos 40%. Porém, após as eleições, seus índices de “Ótimo ou Bom” despencaram 30% até chegar a 8% em agosto e índice de “Ruim ou Péssimo” atingiu em agosto 69%. Na última pesquisa do Datafolha, publicada recentemente, ela já subiu um pouco e estava com 13% de “Ótimo ou Bom” e 63% de “Ruim ou Péssimo”, mas seus índices de popularidade, de qualquer forma, continuavam muito baixos.

*****

Foi justamente diante desta conjuntura conturbada que o processo de admissibilidade do impeachment – repleto de vícios, irregularidades, ilegalidades e atropelos – foi votado na Câmara dos Deputados e depois no Senado. Uma das questões que mais chama a atenção na atual conjuntura é a ausência de atores políticos à altura da crise, atores estes que se mostrassem capazes de evitar que o processo se radicalizasse e chegasse à atual situação. Em artigo publicado nesta revista no começo do agravamento da crise, como um último sopro de otimismo, destacava a importância da construção de uma “concertação” pública e democrática entre os setores responsáveis do governo e da oposição que permitisse ao país sair da crise que se encontrava.[3] Infelizmente este não foi o caminho adotado. A oposição radicalizou ainda mais a sua posição e os setores governistas, consolidaram seu réquiem, acreditando que figuras como Waldir Maranhão fossem capazes de fornecer alguma tábua de salvação contra o impeachment.

Agora, sob o governo Temer, o que resta ao país é a imprevisibilidade.

Se há algo a ser tomado como positivo da atual crise que fecha agora mais um capítulo com a admissibilidade do impeachment pelo Senado é a possibilidade, que se abriu no horizonte nos últimos meses, de uma repactuação de setores progressistas. Aqueles que conduziram o processo de impedimento não esperavam encontrar a resistência que encontraram e não pensavam que iam ter que lidar com uma reorganização do campo progressista, como provavelmente não se via, desde 1992, quando das manifestações do “Fora Collor”. O que merece ser destacado deste fato é que não é mais o PT quem conduz esse processo de mobilização da esquerda, ainda que seja uma força importantíssima neste processo. A repactuação da esquerda não será hegemonizada pelo PT, embora não possa prescindir dele, de suas tradições, valores e militância, como desejam grupos mais à esquerda. Para enfrentar a conjuntura que virá com o governo Temer, sob a “Ponte do Futuro”, com uma agenda que nunca sairia vencedora nas urnas, vai ser preciso uma frente ampla no sentido de assegurar a defesa contra os ataques aos direitos sociais e pressionar pelo avanço dos processos de democratização política e social do país.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: A imagem faz parte de um belo ensaio de Orlando Brito, publicado na última edição da Revista Piauí. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/fim-do-caminho/

[1] Sobre esta discussão, ver artigo de Diogo Tourino de Sousa nesta revista, intitulado “O Muro”. https://revistaescuta.wordpress.com/2016/05/09/o-muro/

[2] Para uma reflexão sobre a “nova direita” no Brasil, ver: CHALOUB, Jorge & PERLATTO, Fernando. “A nova direita brasileira: ideias, retórica e prática política”. Insight Inteligência (Rio de Janeiro), v. 72, p. 24-41, 2016..

[3] Ver: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/14/concertacao-capitulacao-ou-golpe-para-sair-da-crise/

Anúncios