Marcos Lacerda *

Ensaio a partir do espetáculo “A cuíca do Laurindo”, de Rodrigo Alzuguir

A proposta deste pequeno ensaio é fazer uma apresentação, amorosa e afetiva, do belo espetáculo “A cuíca do Laurindo”, um musical idealizado pelo crítico e historiador da canção popular, Rodrigo Alzuguir e que tem no seu elenco nomes importantes da música brasileira contemporânea, como Marcos Sacramento e Nina Wirtti. O espetáculo tem como fio condutor da sua narrativa canções de samba das décadas de 30, 40 e 50, feitas por autores como Wilson Batista, Haroldo Lobo, Herivelto Martins e Noel Rosa, entre outros.

A excelência do espetáculo “A cuíca do Laurindo” é expressiva. Para quem foi ver, ficava visível a sintonia entre os atores, a alegria do canto, o vigor e a destreza técnica dos músicos, a estrutura do cenário, as escolhas da forma de desenvolvimento e organização da narrativa, o humor fino, como se estivéssemos diante dos melhores momentos do teatro de revista. Um ator excepcional, Alexandre Rosa Moreno, interpreta o personagem central do espetáculo, Laurindo. Ator fino, culto, elegante e excelente cantor. Tudo certo no lugar certo. Rodrigo Alzuguir, autor da ideia, também é ator, mesclando personagem e cantando muito bem. Mas a melhor encenação fica com Nina Wirtti. Exuberância cênica e vocal; presença de palco maravilhosa; afinação sublime e muita expressividade. Ficamos todos vendo uma artista que parece estar em sua plenitude.

O que une conceitualmente as canções e dá consistência à narrativa é a presença da figura de Laurindo, em grande parte delas. Laurindo, na nossa sugestão de leitura, é uma espécie de herói por onde se enovelam vida e morte, alegria e tristeza, como se fosse um mediador entre a dimensão terra-a-terra da imanência no cotidiano de violência explícita, conflitos pessoais, dores e agruras do existente; e a dimensão da transcendência, espaço da criação de fantasia e da possibilidade de grandeza. Como um herói mítico, parece ser aquele que faz o movimento de retorno à vida, à alegria, à transcendência da criação – ao samba – quando o pêndulo cai para a morte, a tristeza e a dimensão imanente da realidade cotidiana.

O samba e o carnaval se situam justamente neste limbo, entre a promessa de felicidade da potência da criação e a tristeza profunda da violência bruta e, no limite, até mesmo amesquinhada da realidade cotidiana. A movimentação ambivalente entre os dois polos, cuja síntese mais expressiva é a movimentação permanente entre a alegria e a tristeza, é um dos temas centrais do samba e da canção brasileira em geral.

A principal canção, que dá fundamento para toda a história, é Triste Cuíca (Noel Rosa/ Hervê Cordovil). Nela, temos a descrição poética de uma traição envolvendo Laurindo – o sambista tocador de cuíca – Zizica e Conceição, atravessada ao som da cuíca. É a partir desta canção que muitas outras aparecerão com destaque, e isso também no âmbito do contexto histórico e político, como o caso em especial de Praça Onze (Herivelto Martins/ Grande Otello) – que remete às revitalizações urbanas que quase sempre levam a remoções de bairros e casas populares – fazendo dobradinha com Laurindo (Herivelto Martins). Se na primeira o tom é de lamento e tristeza, pois o fim da praça onze, lugar mítico de fundação e gênese do samba, conduziria ao fim das escolas de samba

Vão acabar com a praça onze/ não vai haver mais escolas de samba/ não vai/ Chora o tamborim/ Chora o morro inteiro

Na segunda, o tom é afirmativo, em resposta feliz à primeira, com o protagonismo de Laurindo

Laurindo subiu o morro gritando/ não acabou a praça onze/ não acabou/ vamos esquentar/ os nossos tamborins

Aqui podemos ver a dialética permanente entre morte e vida, tristeza e alegria, sendo Laurindo aquele que vem trazer a vida e a alegria e esquentar os tamborins, que antes choravam, assim como o morro inteiro. Laurindo como quem vem instaurar a beleza, a vida e a alegria da criação.

Em Cabo Laurindo (Haroldo Lobo/Wilson Batista), novamente a figura do personagem de Laurindo. Após voltar da luta na segunda guerra, Laurindo é recebido com alegria no morro, “coberto de glória”, celebrado por Salgueiro, Mangueira e Estácio. Num dado momento, a canção parece se aproximar do que pode ser uma menção implícita a um chamamento para a luta revolucionária

Dizem que lá no morro/ Vai haver transformação/: “Camarada Laurindo estamos a sua disposição!”

Laurindo volta da guerra e, ao mesmo tempo, se apresenta como aquele que vem conduzir o povo para a luta pela transformação social. Se o Laurindo da segunda canção de Herivelto vem anunciar a alegria e a vida através do samba, ou seja, através de uma das nossas artes mais potentes; aqui ele vem anunciar a luta revolucionária como possibilidade de transformação social profunda. Nos dois casos, Laurindo aparece como uma espécie de herói do povo, que vem para trazer a alegria e a transformação, estética e/ou social, invertendo a movimentação que, na sua ausência, estavam situados na tristeza na morte e na realidade dura e seca do cotidiano sem a possibilidade da criação.

Novamente o tema da vida e morte, da alegria e tristeza. Ir para a guerra significa ir para uma luta entre a vida e a morte, entre a possibilidade de retorno “glorioso” e renascido, e o risco do aniquilamento. Laurindo volta, garboso, forte e afirmado. E, ao mesmo tempo, volta como promessa de transformação no morro. Na canção de Herivelto, Laurindo sobe o morro anunciando que a praça onze não vai acabar, que o samba continua e que é a hora de se esquentar os tamborins.

Poderíamos ainda destacar outras canções, como “Conversa, Laurindo”, que desmente a sua narrativa épica, desencanta de forma cruel o mito e, claro, várias outras que vão conferindo inteligibilidade à narrativa e construindo a sua trama. Não o faremos neste ensaio, pois isso nos levaria para outros caminhos. A riqueza do espetáculo permite muitas leituras e o caráter excepcional do repertório permite um deleite afetivo e intelectual interminável, o que só vem a provar a força poética e musical do samba carioca e do Rio de Janeiro, dentro deste contexto cultural e histórico específico.

São canções que mostram, assombrosamente, que a melhor música popular possível feita no Brasil neste período tinha que passar necessariamente pelo samba carioca e pela cidade do Rio de Janeiro. É um dado incontestável, que o espetáculo nos apresenta como evidência luminosa e real. Causa-nos espanto e alegria ao mesmo tempo ver a força da canção popular brasileira e o lugar de centralidade que o Rio já ocupou. A excelência insuperável das canções nos deixa feliz, nostálgicos e algo desamparados: ficamos sonhando com um contexto cultural em que era possível fazer tantas canções espetaculares como neste período.

Ora, as canções que mostramos até agora tem na figura de Laurindo o mediador entre a vida e a morte, a alegria e a tristeza, aquele que vem trazer “a cruz da vitória”, a volta do samba e do carnaval, aquele que vem reverter o quadro de tristeza profunda pelo risco do aniquilamento físico na guerra, pela impossibilidade da criação estética no carnaval e no samba; Laurindo vem trazer a beleza da possibilidade permanente de felicidade como afirmação que se volta contra o desespero trágico da iminência do fim inevitável de tudo. Diante do contato real com a violência bruta da realidade, Laurindo parece ser a figura, por fim, que encarna a possibilidade real de superação através da arte e da luta política. Como se encarnasse o desejo do povo brasileiro de se afirmar na sua beleza. O óbvio oculto que paira como fantasmagoria nas muitas clivagens e fissuras que atravessam a sociedade brasileira.

Mas, uma das canções, podemos dizer, se situa no centro mesmo de toda a narrativa do espetáculo e é, seguramente, o lugar aonde os muitos conflitos que o atravessam – de ordem política, histórica, estética, urbana, afetiva e amorosa – pousam, ou encontram guarida, ao menos no que diz respeito ao sentido, ao que confere inteligibilidade à narrativa. É o caso de “Triste Cuíca”, canção que paira sobre todas as outras canções e será, aqui na nossa sugestão de análise, o lugar da síntese possível, ou mesmo da rasura inconciliável, entre os polos que se atraem e se repelem, como a vida e a morte, a alegria e a tristeza, a realidade cotidiana e a criação artística.

Na primeira parte da canção, o tom ameno apresenta uma situação de enlaçamento amoroso feliz. A metáfora do “boi mugindo” como expressão do som da cuíca de Laurindo nos remete a um tempo bucólico, telúrico até, no qual a aliança entre a música com a terra é análoga à imagem do casal em estado de estabilidade afetiva. Laurindo e Zizica vivem um momento de união amorosa plena

Parecia um boi mugindo/ aquela triste cuíca/ tocada pelo Laurindo/ o gostoso da zizica

Não fosse por um detalhe: a tristeza que ecoa no som da cuíca. Trata-se de uma cuíca triste, de uma triste cuíca, título da canção. A palavra “triste” sintetiza a história contada na canção. Na segunda parte, os versos da canção descrevem a traição de Laurindo

Ele não deu a Zizica/ a menor satisfação/ e foi guardar a cuíca/ na casa da Conceição

A situação, na narrativa da canção, se inverte drasticamente. A traição de Laurindo deixa o samba “diferente”, pois a traição de Laurindo representa também o silenciamento da triste cuíca, pois ele, ao guardar a cuíca na casa da conceição, deixa de tocá-la

Diferente o samba fica/ sem ter a triste cuíca/ que gemia feito boi

A canção termina com uns versos misteriosos, que dão o desfecho à trama. O sorriso enigmático da Zizica, como se estivesse sendo vingada da traição de Laurindo, ao saber que o “esconderam”

A Zizica está sorrindo/ esconderam o Laurindo/ mas não se sabe onde foi

Na versão apresentada no palco, “mataram” é cantada no lugar de “esconderam”. Fica ainda mais evidente que Laurindo foi assassinado. “A zizica está sorrindo/ já mataram o Laurindo/ mas não se sabe quem foi” canta um dos nossos maiores cantores contemporâneos, Marcos Sacramento.

O sorriso enigmático da Zizica. O sumiço com o Laurindo. O mugido de boi da sua triste cuíca. O tom da canção que permanece igual, mesmo com as mudanças drásticas na trama. A violência do código de vingança como forma de solução do conflito. A alegria amena que abre a canção e o desfecho trágico do fim. A vida e a morte ecoando a triste cuíca.

Poucas canções sintetizaram tão bem a dimensão trágica do samba, bambeando entre alegria e tristeza, entre a vida e a morte, entre a imanência terra-a-terra da vida comum e a transcendência da criação artística. A dor profunda do momento de transição entre estes dois polos sempre foi tema dos maiores sambas que já foram feitos. Laurindo era aquele que permitia o retorno à vida, à alegria, à transcendência da criação artística. Morto, quem será?

O sorriso enigmático de Zizica ainda está por ser desvendado.

* Marcos Lacerda é  Mestre em antropologia e sociologia pelo IFCS/UFRJ e Doutor em sociologia pelo IESP/UERJ. É diretor do Centro de Música da Funarte/Minc e idealizador do projeto “Contemporâneos na Funarte”. Integra o núcleo de pesquisa SocioFilo/IESP, vinculado a UERJ e que atua como um laboratório colaborativo. Faz parte do conselho editorial da Revista Cadernos do Sociofilo,. É também editor da Revista de crítica musical Polivox, além de colaborador da Revista Escuta.

 

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