Rafael Betencourt*

Serra X Costa

No dia 24 de junho de 1911, o arqueólogo americano Hiram Bingham  se aventurava pelo alto Peru, na região do vale do rio Urubamba, com o objetivo de encontrar a última capital dos incas depois da invasão espanhola, a cidade de Vilcabamba. A subida repleta de perigos e adversidades lhe rendeu a maior descoberta arqueológica do Peru, a cidade de Machu Picchu. Na época os achados de Bingham tornaram-se parte de um contexto maior, a cultura andina era recuperada em discussões sobre a nação peruana e Cusco reganhava importância política.

Pouco tempo antes, em maio de 1909, estudantes da Universidad Nacional de Santo Antonio Abad del Cusco criaram um movimento estudantil e promoveram a primeira greve geral do país em nome de algumas mudanças pedagógicas e administrativas. Dentre os articuladores do movimento estava um dos grandes escritores  da história do país, autor de “Tempestad en los andes” ,Luis Eduardo Valcárcel. Vivia-se nesse momento a grande  projeção do indigenismo, um movimento  intelectual de valorização de uma identidade andina e do resgate de uma cultura inca na literatura e nas artes. O discurso indigenista era potencializado pela ideia de se achar o “verdadeiro Peru”, sintoma de uma crise do projeto de nação que teve inicio com a independência do país, liderado por uma oligarquia criolla e que manteve em grande parte a estrutura do Estado colonial. As colonialidades se evidenciavam principalmente na serra andina,  onde a relação entre camponeses indígenas e os grandes proprietários de terra ainda era regida pela dinâmica de servidão  e altos tributos.

O historiador peruano José Luis Rénique afirma que ao longo da história do país toda idealização de um ato revolucionário foi permeado pela ideia de uma longa marcha da serra à costa, o mundo andino seria a sede de um espírito rebelde capaz de revitalizar a nação. Nesse sentido costa e serra se apresentavam como a oposição histórica  entre homem andino e colonizador, uma fratura social constituinte que foi simbolizada na polarização entre Lima e Cusco. A derrota frente ao Chile na Guerra do Pacífico( 1879-1883)  colocou o projeto da república criolla  em jogo. O indigenismo surge dessa crise, com um forte discurso de reivindicação de uma nação genuína, que teria sua essência no mundo andino. Cusco seria  então o coração dessa nova nacionalidade. Nas palavras de Valcárcel: “El Cusco y Lima son, por la naturaleza de las cosas, dos focos opuestos de la nacionalidade. El Cusco representa la cultura madre, la heredera de los inkas milenários, Lima es el anhelo de adaptación a la cultura europea”.[1]

A potencialidade transformadora do indigenismo cusquenho era resultado da fratura social em que repousava a República até então. Dois mundos, incapazes de se reconciliarem, que ainda viviam sob os paradigmas da colônia, mesmo após os primeiros projetos de modernização do país no governo Leguía.  A ruptura do isolamento de Cusco no inicio do século XX foi vivido no contexto da crise política e identitária de uma ideia de nação e um projeto de desenvolvimento agro-exportador centrado nas cidades da costa. Em 1920 o Peru era o país menos urbanizado da América Latina.

A distinção entre  os dois mundos no Peru irá moldar o cenário político do país , principalmente nos projetos pela esquerda. A ideia de que o mundo andino precisa confrontar a hegemonia da costa e promover o reencontro do país com sua verdadeira história será trabalhada de distintas maneiras ao longo do século XX, desde o socialismo indo-americano de José Carlos Mariátegui ao nacionalismo autoritário de Juan Velasco Alvarado. Durante os anos 1960 um sindicalismo agrário irá retomar a potencialidade do discurso indigenista , a esquerda revolucionária pegará em armas para transformar a ordem latifundiária do país. Foi durante essa década que aconteceu uma maior migração da serra andina para as cidades costeiras, fazendo com que o nacionalismo andino se espalhasse também na capital Lima.

 

Eleições 2016

No último 10 de abril, aconteceu o primeiro turno das eleições presidenciais no país, Keiko  Fujimori, do Fuerza Popular, e Pedro Pablo Kuczynski , do Peruanos por el Cambio, passaram para o segundo turno que será disputado no próximo 5 de junho. A filha de Alberto Fujimori liderou durante toda campanha presidencial. A emoção ficou por conta da busca pelo segundo lugar, Pedro Pablo conseguiu a vaga numa disputa apertada com a candidata pela Frente Amplio ,Veronika Mendoza, numa diferença final de  apenas 3%. A deputada por Cusco cresceu cerca de 15 % desde o início das eleições, e apareceu como a grande novidade durante toda campanha presidencial. Tanto Keiko quanto Kuczynski possuem programas de governo representativos de quase o mesmo espectro ideológico, compõem as forças de uma direita liberal no país.

Keiko é filha do ex-presidente  Alberto Fujimori, que em 1992 aplicou um “autogolpe” ao dissolver o Congresso e fechar o poder judiciário. Seu governo foi caracterizado pelo forte autoritarismo e por uma política económica de drástica redução de gastos públicos e privatizações. Em 2000 , após uma série de casos de corrupção em seu governo, Fujimori renunciou e pediu asilo político no Japão. Em 2007 foi condenado por abuso de poder e em 2009 mais uma vez condenado pelo uso de esquadrões de morte nos incidentes de La Cantuta e Bairros Altos.  A análise de um legado do fujimorismo na política peruana expressa um complexo cenário de percepções sobre a memória de seu governo. Quando eleito em 1990, o pai de Keiko assumia o comando de um país em profunda crise económica e que vivia um de seus maiores traumas sociais. Durante toda década de 1980, a ação do grupo armado Sendero Luminoso levou o país a enfrentar suas históricas fraturas sociais da pior maneira possível. Mundo andino  e o restante do país eram contrapostos em um discurso messiânico pelo uso da violência, que tentava articular um ideário maoísta com a mobilização de referências indigenistas.  Alberto Fujimori foi o presidente que conseguiu de fato acabar com a guerrilha e prender seu líder Abimael Guzmán Reynoso. [2] Logo, o fujimorismo sobrevive e ganha força na memória popular através da retórica do medo contra o terrorismo, mesmo que o autoritarismo e a repressão de seu governo tenham sido também uma grande fonte de terror.

Pedro Pablo Kuczynski é uma figura conhecida na sociedade peruana. Ele já foi ministro das finanças e das energias nos anos 1980, Presidente da Câmara entre 2005 e 2006, e ocupou cargos no FMI e no Banco Mundial. Apesar de alinhar ideologicamente com a proposta de governo de Keiko,  a força de Kuczynsk surge da direita que rejeita a herança do fujimorismo. Por pouco não perde seu lugar para Veronika , que apresentou uma plataforma de governo pela esquerda com o foco no combate à desigualdade, no aumento dos investimentos estatais, na democratização da mídia, no combate a mineração ilegal e na substituição da Constituição de 1993, herdada do fujimorismo.  Seu crescimento expressa uma importante renovação para a esquerda do país, ainda enfraquecida pelo trauma da guerrilha do senderismo e pela repressão do governo Fujimori. Durante a campanha seu súbito crescimento a levou a ser atacada pela direita, sendo chamada de “chavista” e  acusada de ter proximidade com figuras acusadas de terrorismo.  Logo, o atual debate político está sendo realizado sob alguns mesmos parâmetros discursivos que se repetem nas últimas décadas: insegurança e terrorismo pela direita e corrupção e desigualdade pela esquerda.

O resultado eleitoral do primeiro turno evidencia uma continuidade na geografia eleitoral do país, a fratura social entre serra e costa persiste de alguma forma na preferência eleitoral de suas regiões. Os sociólogo Sinezio Lopez, em artigo para o periódico La Republica[3], indica que desde as eleições de 2001 a polarização eleitoral continua a se materializar na distinção entre serra e costa. Em 2011, o atual presidente Humala Ollanta concentrou os votos de toda serra, ao centro e ao sul, Kuczynski e Toledo disputaram a base eleitoral da costa do país. Na disputa atual Keiko levou a grande parte do país, principalmente na costa e na parte oriental da selva peruana, lugar onde geralmente os apoios variam mais entre esquerda e direita. Ao sul  Veronika massacrou seus adversários ultrapassando os 50% de votos em muitas regiões, no entanto perdeu Arequipa, região tradicional da esquerda peruana, para o candidato Pedro Pablo.  O partido da deputada cusquenha consegue  ao fim se consolidar como a terceira força política do país, crescimento que sugere um reagrupamento e fortalecimento das forças de esquerda peruana, mais uma vez fundamentando sua base eleitoral na serra andina.

Na campanha pelo segundo turno Keiko enfrentará  um obstáculo que poderá lhe custar a vitória, o voto antifujimorista provavelmente irá se concentrar na candidatura de Pedro Pablo, que deverá ganhar também os votos da esquerda andina, até então em sua maioria com Veronika Mendoza. A democracia peruana aparece em 2016 contrapondo novas e antigas figuras políticas, enfrentando seus mais profundos traumas recentes, de frente para o Pacífico mas ainda à sombra dos Andes.

Bibliografia:

MEDRANO, Karina. Incas, indios y fiestas. Reivindicaciones y representaciones en la configuración de la identidade cusqueña. Cusco: INC, 2007.

RÉNIQUE, José Luis. Incendiar la pradera. Lima: La Siniestra Ensayos, 2015.

PORTOCARRERO, Gonzalo. La Uergencia por decir “nosostros”.Lima: Fondo Editorial, 2015.

* Rafael Betencourt é mestre em História Moderna e Contemporanea pelo ISCTE de Lisboa e doutorando em História Social pela UERJ. Além de colaborador da Escuta.

** Crédito de imagem: http://www.elpopular.pe/actualidad-y-policiales/2016-04-05-keiko-fujimori-marcha-en-el-norte-sur-y-oriente-del-pais-fotos Acesso em: 01 mai. 2016

[1] Citado em PORTOCARRERO, G. La urgência de decis por “nosostros”. Lima: Fondo Editorial, 2015. Pg. 244.

[2] Não sem a mobilização da própria população andina, que se organizava em grupos paramilitares, eram os chamados montoneros.

[3] http://larepublica.pe/impresa/opinion/754407-fracturas-electorales-y-proyecciones

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