Gabriel Gutierrez *

Nos últimos meses, o acirramento do embate entre as principais elites políticas nacionais tem transformado a possibilidade de impeachment no principal assunto do país. No calor dos acontecimentos, todo mundo tem algo a dizer sobre o tema quente do momento, seja em conversas do dia a dia, cartazes e vídeos, seja em comentários nas redes sociais, memes e posts. Nessa polifonia de opiniões, ouve-se uma avalanche de significantes políticos relacionados à economia, à história política, ao funcionamento do Estado e suas relações com a sociedade.

É nesse contexto que emerge a figura amorfa do analfabetismo político, que faz com que ouçamos a todo momento disparates lógicos e históricos, que maltratam os ouvidos mais acostumados à discussão política. Flutuando sobre movimentos de massa, o analfabetismo político é um fenômeno relacionado à pouca formação política da população e, no âmbito da sociedade civil, configura-se hoje como um dos fatores centrais da mobilização social ora em marcha em torno do impeachment.

Em termos gerais, o analfabetismo político é resultado do encontro de uma cultura política autoritária – historicamente gerada pelo enraizamento de uma interpretação conservadora e superficial a respeito dos aspectos que forjaram a civilização brasileira – com o individualismo liberal contemporâneo, que desengaja os cidadãos de processos comunitários. Junte-se a isso a degradada imagem que o cidadão comum tem de tudo que se refere ao poder público – reputado como o lugar da ineficiência e da corrupção – e o colossal volume de informação despejado por meios de comunicação a todo momento e está preparado o terreno para o florescimento das hordas de analfabetos políticos discursivamente convictos que vemos hoje nas ruas.

Perniciosamente hostil à política, o analfabetismo político potencializa sua capacidade de ação concreta no mundo prático quando encontra seu hospedeiro na classe média tradicional, produzindo uma mistura explosiva entre conservadorismo/reacionarismo e estupidez intelectual capaz de inflamar o ambiente político nacional. Dessa maneira, ao lado de liberais, conservadores e reacionários ideológicos, conscientes dos interesses que defendem e dos valores políticos que professam, figura o analfabeto político, presunçoso e ativo no espaço público, amplificando mensagens que remetem a questões a respeito das quais na verdade ele não faz muita ideia. Apegada à crença de que sua educação formal lhe garante uma compreensão superior à das classes populares em relação aos processos sociais, esta classe média analfabeta em assuntos políticos é orgulhosa de sua opinião tosca, e vem atualizando algumas de suas facetas mais regressivas, através de uma pregação raivosa repleta de contradições teóricas, absurdos cognitivos e enunciados rasos.

No que se refere à busca de informação política, umas das principais características do analfabetismo é a dependência em relação à grande mídia. Pouco habituado a ler mais do que o jornal diário, o analfabeto político informa-se predominantemente através da televisão. Os noticiários das grandes emissoras são suas principais fontes de narrativas sobre o momento político, e tem estatuto de verdade. Segundo sua visão, a mídia não é um ator político orientado por interesses, que produz seus discursos sobre a realidade guiado por fatores jornalísticos e compromissos econômicos e políticos. Perante qualquer questionamento acerca da representação enviesada que esta mídia faz da realidade social, o analfabeto mobiliza a noção de “teoria da conspiração” – um clichê rasteiro que o sujeito utiliza para legitimar sua crença ilusória de que é possível ser informado durante décadas pelo mesmo veículo de comunicação e ainda assim ser capaz de produzir autonomamente a “sua própria opinião”.

De fato, a opinião do analfabeto guarda relação direta com a abordagem midiática do mundo político. Seu foco fundamental é constantemente o tema da corrupção. Tal forma de encarar a política é simplificadora, e obscurece temas substantivos da discussão macropolítica. A saber: quais são os compromissos reais da ação do Estado? Que grupos apropriam-se dele e satisfazem seus interesses? Como a riqueza social é distribuída? Quais são os direitos que o Estado escolhe garantir aos cidadãos e quais são por ele negligenciados? Qual será o destino social dos recursos naturais? entre outros. Nada disso entra no radar da discussão moralista sobre política, que só se interessa em saber quem é pessoalmente honesto e quem não é. Entender temas essenciais da política demanda alguma compreensão dos processos históricos e sociais ou alguma vivência concreta das disputas de poder, e é esse envolvimento que falta ao analfabeto, que sempre reduz a discussão política à batida temática do “mar de lama”. A lógica binária do moralismo resolve o problema de sua falta de formação e experiência e interdita o grande debate sobre a polis. A partir desse mecanismo, a política se resume a ladrões, safados, corruptos e seus escândalos. Seletivamente indignado com a ”roubalheira” no Estado, o analfabeto político tampouco correlaciona a corrupção no setor público com o setor privado e menos ainda admite os laços entre esse macro-processo e os labirintos microscópicos da corrupção nossa de cada dia.

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Depois de uma explicação mais conceitual na primeira parte do artigo, vão abaixo algumas notas para um mapeamento das ideias-chave do analfabetismo político:

O SENTIMENTO ANTI-ESTADO

Em geral, o analfabeto político gosta de mal-dizer o Estado, fazendo coro aos projetos de corte liberal, invariavelmente privatistas e esvaziadores da agência do setor público perante a sociedade. Esta classe média, pouco informada e espoliada por um mercado que oferece produtos caríssimos, cai num contrassenso mortal aqui, já que seria completamente do seu interesse a expansão da ação eficiente deste Estado, provendo serviços públicos qualificados que desonerassem seus gastos familiares com a saúde e educação privadas, por exemplo. Na verdade, este sentimento contra o Estado obscurece a percepção da ação de um outro agente social decisivo: o poder econômico. Para o analfabeto, todos os males estão associados ao “campo político”, ignorando-se, assim, o fato de que no mais das vezes o poder político está a serviço dos interesses econômicos financiadores de sua campanha eleitoral. Tal incapacidade perceptiva é notável também quando mesmo nos maiores momentos de crise econômica, o analfabeto político é incapaz de questionar as próprias estruturas do sistema econômico que o massacra.

Alheia a seu próprio interesse, então, o analfabeto avança e também pragueja contra o Brasil. Fascinado pelo que resta do Estado de bem-estar social na Europa, ele ignora que tais conquistas do lado de lá do Atlântico têm relação direta com uma presença robusta do Estado demandada por lutas sociais que aqui ele condena como “baderna”. Ainda assim, curiosamente, mesmo com seu complexo de vira-lata, quando instado a aderir a algum símbolo político, o analfabeto se abraça na bandeira nacional.

IDEOLOGIA DA UNIDADE NACIONAL:

No Brasil, poucos são os que se assumem ideologicamente como de direita. Segundo a mentalidade do analfabeto político, não existe direita ou esquerda – apesar dele meio que inconscientemente escolher desprezar ícones da esquerda. Entretanto, todas as vezes que movimentos organizados em busca de direitos revelam conflitos de interesse e questionam a hierarquia social, o analfabeto reage e afirma que tais grupos querem “dividir o país”. Para o movimento negro, por exemplo, apesar de todos os dados empíricos atestarem o contrário, dizem que sua luta não faz sentido pois “somos todos seres humanos”. Nestes casos, o analfabeto político acaba por reforçar o discurso do Poder, e inverte a lógica do embate político, caracterizando o oprimido como opressor. Assim, de forma míope, ele termina por reverenciar a dominação, ao não conseguir ter olhos para ver as contradições existentes no interior da sociedade.

PARANÓIA ANTI-COMUNISTA

Tomada pela sua histeria mal informada, o analfabeto político pouco sabe sobre a dinâmica de funcionamento das instituições. Por isso, é capaz de confundir as incumbências do Executivo com as do Legislativo ou Judiciário, e de misturar primariamente as atribuições de responsabilidades dos governos municipais, estaduais e federal. No contexto atual especificamente, uma das maiores peças de non-sense gestadas pelo analfabetismo político é a afirmação de que assistimos à implantação de uma ditadura comunista do PT. No momento mesmo em que o governo implementa um ajuste fiscal neoliberal, a PF submetida ao seu ministro da Justiça grampeia a presidenta, a imprensa conservadora tem liberdade plena para criticar Dilma e conspirar despudoradamente contra o governo central todos os dias nas páginas dos jornais e a Justiça tem a prerrogativa de cassar a nomeação de um ministro pelo chefe do Executivo, acreditar nisso é passar nítido atestado de analfabeto político.

POSTURA ANTI-INTELECTUAL e ANTI-DEMOCRÁTICA:

Apesar de em geral ter educação formal, o analfabeto político pouco conhece sobre a História do país. Frequentemente, ele não articula fatos históricos com os problemas políticos contemporâneos. Assim não faz e nem quer fazer. O analfabeto costuma recusar-se a admitir evidências históricas incontestáveis. No fundo, ele nutre uma combinação de ressentimento e desprezo pela sensibilidade e bagagem intelectual do seu interlocutor opositor. Assim, quando confrontado por argumentos, o analfabeto político apela para a retórica antidemocrática, propondo candidamente a resolução dos conflitos sociais através do uso arbitrário da força. A curta história da democracia no Brasil e uma cultura política calcada no autoritarismo reforçam essa pouca disposição para o convívio com a diferença radical, o debate de ideias e o diálogo político.

* Gabriel Gutierrez é cientista político.

Crédito de imagem: http://noticias.uol.com.br/album/2016/03/22/crise-politica-manifestacoes-contra-o-governo-dilma-rousseff.htm?abrefoto=1 Acesso em: 30 abr. 2016

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