Daniela Rezende*

Matéria da revista Veja publicada em 18/04/2016 tem como “ protagonista” a mulher do vice-presidente Michel Temer, retratada como bela, recatada e do lar:

“Bacharel em direito sem nunca ter exercido a profissão, Marcela comporta em seu curriculum vitae um curto período de trabalho como recepcionista e dois concursos de miss no interior de São Paulo (representando Campinas e Paulínia, esta sua cidade natal). Em ambos, ficou em segundo lugar. Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele).”
“Em todos esses anos de atuação política do marido, ela apareceu em público pouquíssimas vezes. ‘Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada’, diz sua irmã mais nova, Fernanda Tedeschi. ‘Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras’, conta a estilista Martha Medeiros.”

Por um lado, a reportagem logo despertou uma onda de mobilizações virtuais que criticavam o machismo da publicação. O “bela, recatada e do lar” virou “bela, recatada e do mar” ou “bela, recatada e do bar”, slogans geralmente acompanhados de fotos que “brincavam” com os adjetivos usados para caracterizar Marcela Temer. Por outro lado, houve postagens apontando que a escolha em ser bela, recatada e do lar pode ser legítima e que a crítica estaria relacionada a certo “fundamentalismo feminista” que valorizaria apenas a mulher que trabalha fora ou que questiona esses estereótipos tradicionais.

Diante dessas posições, acredito ser importante lembrar que o que está em questão nas críticas à matéria não é o fato de Marcela Temer ser bela, recatada e do lar ou de Fulana ou Ciclana se identificarem com a rotina descrita no perfil elaborado pela Veja. O problema da reportagem é apontar um perfil específico, o de Marcela Temer (mulher branca, rica, cis, jovem, escolarizada, casada, mãe), como modelo para todas as mulheres. O bela, recatada e do lar assume contorno normativo e não apenas descritivo: Marcela representaria o papel mais adequado para as mulheres no mundo público, o papel decorativo, figurativo, ornamental.

Essa estratégia é ainda mais problemática se lida à luz de dois momentos recentes na conjuntura política: 1. a carta de Michel Temer, em que o vice se queixa de ser “decorativo”; 2. a capa de Istoé de 06 de abril de 2016.

No primeiro deles, Temer justifica sua ruptura com o governo Dilma pelo papel pouco expressivo que assumira no governo: um papel decorativo, secundário, pouco importante. O que chama atenção aqui é o fato de o (alegado) papel de decorativo não ser apropriado para Temer, posto que representaria uma inferiorização, uma humilhação, enquanto o mesmo papel seria o mais adequado para Marcela (e para todas as mulheres): bela, recatada e do lar. Centrada em sua vida privada, nas tarefas da maternidade. Aparece em público poucas vezes (como na cerimônia de posse), sempre como coadjuvante. Como disse em outro trecho a reportagem: “Marcela é o braço digital do vice. Está constantemente de olho nas redes sociais e mantém o marido informado sobre a temperatura ambiente.” Afinal, como no ditado machista, “atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. O perfil termina com a frase: “Michel Temer é um homem de sorte”. Homem de sorte, porque sua mulher sabe qual é o seu lugar.

O perfil de Marcela se opõe frontalmente ao da presidenta Dilma, mulher que desde a juventude questiona o papel de coadjuvante designado às mulheres. Essa postura é componente fundamental para entender a capa da revista Istoé (edição 2417), que caracteriza a governante como “uma presidente fora de si” e a compara a Maria, a Louca. A presidenta é destemperada, suscetível a pressão, autoritária. O que se vê aqui é a descrição de uma mulher fora do lugar que historicamente lhe foi reservado, o mundo privado. Não por coincidência, a alcunha de louca é geralmente usada para criticar mulheres que ousaram questionar os papéis a elas designados na história da humanidade. Vistas em conjunto, as duas reportagens, apesar de retratarem mulheres tão diferentes e de formas tão distintas, apresentam-se como complementares e têm como efeito mostrar o que a sociedade espera das mulheres (belas, recatadas e do lar) e qual é o preço a pagar por questionar a tradição (serem taxadas de loucas, descontroladas), ainda hoje.

Assim, o problema não é ser bela, recatada e do lar, mas que o slogan seja tomado como um padrão para um grupo específico de pessoas, tendo como fundamento o gênero. O problema então não é as mulheres escolherem ser “do lar”, mas que essa seja uma “escolha” que historicamente só se apresenta às mulheres. Nesse sentido, cabe refletir: o fato de ocupações domésticas serem tipicamente femininas é fruto de uma coincidência ou convergência entre escolhas individuais? A ausência das mulheres dos espaços de poder e decisão é também fruto de escolhas?

A crítica ao “bela, recatada e do lar” não deve ser tomada como um questionamento a escolhas individuais, mas como uma denúncia daquelas situações em que não há escolha ou que os constrangimentos estruturais apresentados às mulheres comprometem sua autonomia. Que mulheres (em termos de raça, classe, geração, por exemplo) podem escolher genuinamente serem do lar (lembrando que escolha envolve a existência de pelo menos duas alternativas viáveis)? Quantas vezes o recato foi usado como mecanismo de opressão das mulheres (vide, por exemplo, a culpabilização das mulheres que sofreram violência, estratégia que geralmente mobiliza o argumento do uso de roupas consideradas inadequadas)? Quantas vezes a beleza foi tida como a principal e mais relevante característica das mulheres, o que serviu e serve para silenciar e negligenciar suas contribuições para a ciência, para a política, para as artes?

Por fim, é importante entender que a crítica feminista não condena que mulheres sejam “do lar”. Essa é uma leitura equivocada. A reivindicação de que mulheres pudessem ocuparem outros espaços além do doméstico é uma demanda historicamente construída (associada à proibição legal de que mulheres estudassem e trabalhassem) que assume contornos distintos contemporaneamente, já que a igualdade jurídica foi alcançada, mas se mostrou insuficiente para a eliminação de relações de subordinação. Esse é um debate complexo e imprescindível, que passa pelos conceitos de divisão sexual do trabalho, separação entre público e privado, autonomia. Há produção consistente sobre o tema e, para quem quiser se inteirar do assunto, gostaria de indicar algumas contribuições:

BIROLI, Flávia. Agentes imperfeitas: contribuições do feminismo para a análise da relação entre autonomia, preferências e democracia. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 9, p. 7, 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n9/01.pdf. Acesso em 26/04/2016.

BIROLI, Flávia. Autonomia, opressão e identidades: a ressignificação da experiência na teoria política feminista. Revista Estudos Feministas, v. 21, n. 1, p. 81-105, 2013. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2013000100005. Acesso em 26/04/2016.

DAVIS, Angela. La clase y la raza en los albores de la campaña pelos derechos de las mujeres. In: Mujeres, raza y classe. Madrid: Ediciones AKAL, 2005.

FRASER, N. Para além do modelo senhor/serva: sobre O contrato sexual, de Carole Pateman. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Teoria política e feminismo: textos centrais. Vinhedo, Editora Horizonte, 2013.
HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, 2007. Disponível em: http://scielo.br/pdf/cp/v37n132/a0537132. Acesso em: 26/04/2016.

KERGOAT, Danièle. Divisão sexual do trabalho. In: LABORIE, Francoise; LE DOARÉ, Hélène;

SENOTIER, Danièle. Dicionário crítico do feminismo. Ed. UNESP, 2009.

PATEMAN, Carole. Críticas feministas à dicotomia público/privado. In: MIGUEL, Luis Felipe;

*Daniela Rezende é doutora em Ciência Política (DCP/UFMG), professora e pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais da UFV, além de colaboradora da Escuta.

Crédito de imagem: http://i.huffpost.com/gadgets/slideshows/245568/slide_245568_1396779_free.jpg?1345243986000 Acesso em: 28 abr. 2016.

 

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