Wallace Andrioli Guedes*

Nas últimas semanas, em meio ao turbilhão político-midiático que vivemos, duas notícias me chamaram especial atenção. Na primeira delas, o músico Lobão, outrora progressista, mas conhecido nos últimos anos por um virulento antiesquerdismo, veio a público pedir diálogo com figuras da MPB que há muito critica, também por defenderem posições políticas opostas às suas: Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Lobão foi quase completamente ignorado pelos seus pretensos interlocutores e ridicularizado nas redes sociais, acusado de oportunista e de querer aparecer – o que, no ao fim e ao cabo, se mostrou em alguma medida verdadeiro, considerando que o músico pouco depois retornou à carga da paranoia antipetista contra seus adversários políticos. Ainda assim, com ou sem segundas intenções, o chamamento ao diálogo foi feito e, infelizmente, subaproveitado.

Na segunda notícia, mais recente, presidiários levantavam, na frente do Congresso Nacional, em Brasília, uma espécie de muro para separar manifestantes pró e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que ocupariam aquele espaço no dia da votação de tal pedido. Se o chamamento ao diálogo fora ignorado ou desmerecido no caso de Lobão, aqui ele se mostrou impossível: foi preciso construir uma barreira física entre defensores de ideias políticas opostas para que eles não se matassem.

Em janeiro, entrou em cartaz nos cinemas de algumas cidades brasileiras o filme franco-alemão Diplomacia, dirigido por Volker Schlondörff, que acompanha os instantes finais da ocupação nazista de Paris, em 1944. Diante da ordem de Hitler ao general Dietrich von Choltitz (Niels Arestrup), comandante militar da capital francesa naquele momento, para arrasar completamente a cidade, o cônsul sueco Raoul Nordling (André Dussolier) intervém, convencendo von Choltitz a desobedecer o Führer. O filme de Schlondörff é todo construído sobre a conversa entre os dois personagens, destacando o poder da palavra, quando corretamente mobilizada, para evitar atrocidades.

Recentemente, a filósofa Márcia Tiburi, preocupada com a polarização política extrema e violenta no Brasil contemporâneo, publicou o livro Como conversar com um fascista, em que lança justamente esse desafio às esquerdas: encarar o diálogo com aqueles que nos odeiam, que nos querem, em última instância, eliminados (se não física, ao menos politicamente). Diplomacia é a concretização desse conversar com um fascista e dos possíveis resultados positivos advindos daí.

Mas talvez os dois grandes filmes dos últimos anos sobre a importância do diálogo como caminho para a resolução de impasses políticos sejam Lincoln (2012) e Ponte dos Espiões (2015), ambos dirigidos por Steven Spielberg, um mestre do cinema narrativo norte-americano. No primeiro, Spielberg e o roteirista Tony Kushner acompanham a tentativa do presidente Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) de aprovar no Congresso uma emenda constitucional para acabar com a escravidão nos EUA. O segundo centra-se numa dura negociação entre um advogado norte-americano (Tom Hanks) e os governos da União Soviética e da Alemanha Oriental, para efetuar uma troca de prisioneiros durante a Guerra Fria. Situações extremas em momentos históricos conturbados, solucionadas apenas por meio da conversa entre opostos. Conversa difícil, é verdade, por vezes marcada por ameaças, confrontos e subterfúgios, mas ainda assim fundamental. Sem ela, restaria apenas a barbárie da guerra.

Comparando esse aspecto nos dois filmes, percebe-se que Ponte dos Espiões é um passo adiante na discussão lançada por Lincoln. Nesse último, o presidente norte-americano negocia, direta ou indiretamente, com seus adversários políticos, por vezes inclusive borrando certas fronteiras éticas, mas sempre jogando o jogo próprio daquele universo. No entanto, Lincoln jamais se aproxima de fato daqueles que lhe são verdadeiramente estranhos, que representam para ele a alteridade absoluta: os escravos que busca libertar.

Já em Ponte dos Espiões, o acesso ao outro ocorre no contato que James Donovan (Hanks) estabelece com o espião soviético Rudolph Abel (Mark Rylance), ainda na primeira parte do filme. Em suas conversas durante o julgamento desse último, Donovan passa a enxergar, no espião, um homem médio, excepcional em seu comportamento ordinário como ele próprio. Passa a compreendê-lo na semelhança, mas também na diferença, já que não desconsidera o que os separa política e culturalmente. Ao fazer esse movimento para fora de si, Donovan rompe com a lógica dualista que impregnava a sociedade norte-americana naqueles anos 50, que promovia ódio e paranoia e pintava Abel simplesmente como o “vermelho” que ali estava para destruir a América. Ele faz o que Abraham Lincoln não conseguiu no filme anterior de Spielberg.

Isso se deve, a meu ver, à construção de Donovan como um personagem saído diretamente de um filme de Frank Capra. Como o George Bailey (James Stewart) de A Felicidade Não se Compra, o protagonista de Ponte dos Espiões representa o suprassumo dos valores médios norte-americanos, aquele que tanto Capra quanto Spielberg consideram como fundamentais para a constituição moral de seu país: a valorização da família, o respeito à opinião alheia, a gentileza, a disposição para a conversa, sobretudo quando essa se mostra capaz de evitar grandes problemas. Lincoln também era um personagem do tipo em sua cinebiografia, mas, ao mesmo tempo, ele não deixava de estar envolvido por uma aura mítica, não deixava de ser um dos grandes heróis da história dos EUA, face presente no Monte Rushmore. Seria impossível reduzi-lo completamente ao seu lado ordinário. Não à toa, em muitos momentos de Lincoln o presidente é filmado como um monumento, por mais que em tantos outros ele se revele um homem de gostos e hábitos comuns.

Last but not least, Ponte dos Espiões também tem algo a dizer ao Brasil de 2016. Na primeira parte da narrativa, o filme critica duramente a propensão a se passar por cima das leis que regem um país em prol do atendimento a uma comoção popular. Preso e acusado de espionagem, Abel já está previamente condenado, pelo público e, o que é mais assustador, pelo juiz do caso, para quem tecnicidades e minúcias não importam diante da necessidade histórica e política de mandar aquele homem para a cadeira elétrica. Difícil não lembrar de ações recentes da Operação Lava-Jato envolvendo o ex-presidente Lula, que parece ser um alvo a priori das investigações, independente da existência de algum indício forte de crime cometido por ele: o objetivo é prender Lula; o motivo para isso se decide depois. Difícil também não pensar no desejo de muitos brasileiros de derrubar um governo, ao qual se opõem, à revelia da lei, sujeitando o devido processo legal que deve alicerçar a prática democrática a uma vontade maior de “combate à corrupção”, vista como um mal eterno instalado no Estado e localizado especificamente em um único partido político.

O personagem que, numa cena de Ponte dos Espiões, se revolta contra o juiz que decreta a pena de prisão perpétua para Abel, o policial que agressivamente questiona Donovan sobre suas razões para defender um comunista e, o que é mais triste, a figura incógnita que atira contra a casa da família do protagonista, poderiam, todos, ser brasileiros de 2016. Nesse sentido, é também sintomático que a segunda metade desse belíssimo filme de Spielberg se passe na Berlim de 1961 e que nos seja permitido ver a construção do famigerado muro que partiu ao meio a capital alemã por quase trinta anos.

* Wallace Andrioli Guedes é Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutorando em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Imagem disponível em: http://www.dvdtalk.com/reviews/69891/bridge-of-spies/ Acesso em: 19 abr. 2016.

 

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