Bruno Garcia*

Há pouco mais de uma década, eu e uma dúzia de outros estudantes de sociologia nos reunimos numa pequena sala para assistir a aula de uma jovem professora que retornara da Bósnia. A timidez da moça e seu inglês limitado não ocultaram o entusiasmo  e o orgulho de falar sobre as transformações nos Balcãs, sobre a paz e o que discretamente foi chamado de ocidentalização da região. Na opinião dela, a Europa Central, que agora gozava do status de União Europeia, antecipava um futuro promissor para as ex-repúblicas iugoslavas depois de duros anos de guerra.

Estávamos todos familiarizados com esse tipo de discurso. Era esse o tom dos departamentos de humanas, de Varsóvia a Budapeste, nos primeiros meses depois que os países que demarcavam a cortina de ferro entraram para o bloco europeu. A euforia por ideias como democracia, mercado livre, capitalismo, direitos humanos e progresso era confirmada por uma enxurrada de financiamentos, reformas de institutos de pesquisa, além da chegada imediata de curiosos estudantes de toda parte. Eu era apenas mais um entre cerca de 140 que se inscreveram no primeiro semestre de 2005 na Universidade de Masaryk, em Brno, República Tcheca. No ano anterior o número não chegara a 40.

A Faculdade de Estudos Sociais se adaptou rapidamente às novas exigências e oportunidades e acrescentou ao seu quadro especialistas em Relações Internacionais e criou um mestrado integral em inglês sobre Estudos Europeus. O diretor do curso era um sujeito alto com pinta de jovem mal humorado, que estacionava lentamente um Porsche preto na lateral do prédio recém-inaugurado todas as manhãs, sempre no horário em que a maioria dos estudantes chegava. Além de se orgulhar de ser um “grande especialista na administração Reagan”, nosso decano coordenava um grupo de especialistas que aconselhava o governo tcheco nas negociações com os Estados Unidos para a construção do sistema de misseis anti-balísticos. Em outras palavras, era difícil encontrar um lugar mais devoto a toda ideia correlata à democracia liberal. Daí a referência ao presidente norte-americano Ronald Reagan ser motivo de orgulho, Relações Internacionais uma nova e estimulante disciplina e o Porsche em frente ao prédio da faculdade o sintoma material de novos tempos.

Tudo isso hoje parece muito distante. Essa euforia não sobreviveu aos longos efeitos da crise de 2008. Assim que a generosidade de Bruxelas secou, foi-se embora também a admiração pelo ocidente. Populistas, chauvinistas e uma extrema direita temperada pela nostalgia da estabilidade dos anos de socialismo real passaram a dar o tom. A Hungria elegeu Viktor Órban, orgulhoso defensor do que chamou de democracia não-liberal. As ideias cosmopolitas associadas ao projeto europeu viraram motivo de chacota ou foram chamadas de perigosas utopias. Países como Eslováquia e, principalmente, Polônia encheram seus parlamentos de demagogos nacionalistas, enquanto métodos anti-contraceptivos, pena de morte e o controle das fronteiras viraram capa dos principais jornais e temas obrigatórios em qualquer eleição. Como isso foi possível?

As explicações mais frequentes destacam o fato de esses países serem jovens democracias. Também falam de ressurgimento de nacionalismos, de questões históricas não resolvidas. Tudo isso sem deixar de destacar sua fragilidade aos humores do mercado. Depois de a esquerda perder a legitimidade para o liberalismo e uma ideia plural de sociedade aberta, em 1989, era esperado que aos primeiros sinais de esgotamento a oposição se organizasse em torno de um discurso iliberal e defensor orgulhoso de uma sociedade fechada.

Em um dos seus muitos grandes momentos, George Orwell lembrou que “aceitar uma ortodoxia é sempre herdar contradições não resolvidas”. Significa correr o risco de digerir e regurgitar dúvidas como certezas, frases como sentenças e tentar corrigir inconscistências ideológicas pela vontade. Infelizmente esquecemos por um tempo quão rapidamente ideias podem se tornar questão de vida ou morte. É isso que faz desse violento pêndulo ideológico na Europa Central um entre os demais ambientes exageradamente polarizados hoje.

Donald Trump, Bolsonaro ou o presidente tcheco Miloš Zeman – que defendeu ano passado a criação de campos de concentração para muçulmanos -, podem muito bem representar um novo conservadorismo populista, como muitos gostam de dizer. Mas também são resultantes oportunistas de um mesmo espírito corretivo abraçado tanto por nacionalistas raivosos na Polônia quanto pelos jovens liberais brasileiros, convencidos de que vagas teorias econômicas do início do século XX contém respostas objetivas para tudo. Nesse ambiente embrutecido por tantas liturgias dissonantes, levar a sério sua própria ortodoxia virou sinônimo de integridade.

Me pergunto pra onde foram meus professores em Brno, e se eles mudaram de ideia junto com o resto do país. Não que seja meu direito julgá-los, mudar de ideia não é um problema. Se você se importa com as coisas que estuda, talvez seja a obrigado não se levar tão a sério como um sujeito produtor de verdades. Do contrário, corremos o risco de quando a maré mudar, marcharmos juntos achando que aprendemos alguma coisa, quando foi só a certeza que trocou de lado.

*Bruno Garcia é doutorando em História Cultural na Puc-Rio, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: Getty Images. Disponível em: http://www.gettyimages.at/detail/nachrichtenfoto/crowds-celebrating-v-e-day-buckingham-palace-8-may-nachrichtenfoto/102730099# . Acesso em: 14 abr. 2016

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