João Dulci*

O momento político brasileiro é atualmente de um grau de complexidade raramente visto em países ocidentais. No entanto, paralelos podem ser tratados com a história recente de outras nações e o mesmo tem sido feito com a nossa própria história. Acredito que há alguns pontos importantes a serem lidos no atual processo de crescente tensão.

Em 2002, Lula venceu as eleições com um discurso moderado, numa campanha extremamente bem executada. A opção por adotar uma linguagem política mais acessível à população, com raras críticas ao subjulgamento por que passava o país ante o FMI, por exemplo, foi uma estratégia adotada com sucesso. A linguagem universal do combate à pobreza foi abraçada por parte considerável da sociedade, que já se solidarizava com as campanhas de Betinho, desde o início dos anos 1990. Lula se mostrava um candidato de fácil trato. No segundo turno, ninguém conseguiu reunir tantos apoiadores políticos quanto ele em campanha alguma. Os vídeos de políticos de vários partidos fazendo o movimento de chamamento com os braços tinha um número enorme de expoentes brasileiros. Some-se aos valores dessa consertação o péssimo estado em que se encontrava o país, o que dificultou sobremaneira a campanha do candidato situacionista, José Serra, cuja posição esquizofrênica de continuidade na mudança teve até votos acima do previsto.

Desde a posse de Lula, em 2003, até o fim do seu mandato, seu governo se pautou por políticas públicas simples, mas de amplas compreensão e capilaridade. O combate à fome, aliado à renegociação das dívidas nacionais numa rápida troca de prazos dos títulos públicos, a retomada de um crescimento moderado e a ligeira redução na desigualdade foram muito bem sucedidas[1]. A política de aumento continuado do salário mínimo se mostrou, em todos os modelos econométricos, uma tacada genial para a elevação do bem-estar geral. Bandeiras caras a qualquer regime de esquerda não foram levadas adiante, por, creio eu, se confiar que a situação extremada de pobreza em que vivia um quarto da população brasileira era o foco de atenções e seu combate seria suficiente para conquistar uma base permanente de apoio ao governo. Pautou-se pela moderação política e por uma caminhada pelo centro.

Desde então, o que se percebe na atitude de Lula e do Partido dos Trabalhadores é a certeza de uma eterna gratidão. O Partido não se ocupou em renovar suas bases com quadros qualificados. Tampouco executou um trabalho de conscientização e de amadurecimento político da população brasileira. Ficamos numa situação análoga à do Partido Trabalhista inglês quando da iminente vitória de Margareth Thatcher: esperou-se a permanente gratidão das massas ao líder (no caso, um partido, embora o processo tenha, de fato, começado com Clement Attlee) que a ela se aproximou e que efetivamente a atendeu.

Desde a primeira grande crise do governo petista, o chamado “mensalão”, surgiram pesquisas de institutos internacionais em que aparecia uma crescente tolerância com regimes ditatoriais, contanto que eles fossem eficientes em termos econômicos. Elas soaram cômicas, uma vez que nosso país passava pelo teste da eficiência econômica num ambiente de democracia formalmente instituída (e atuante de fato). A eleição de 2006 teve, parcialmente, a temática da eficiência na gestão, mas foi muito pautada por escândalos reverberados pela mídia. O candidato de oposição, Geraldo Alckmin, adotou uma postura inicial de confronto que o levou ao segundo turno. Quando sua postura atravessou o muro da arrogância, ele perdeu a mão e as eleições. Conseguiu a proeza de ter menos votos no segundo turno do que no primeiro. A população ainda não estava pronta para trocar o certo pelo duvidoso, como dizia o jingle do presidente reeleito. O segundo governo de Lula foi talvez o melhor governo da história republicana brasileira, o que fez sua sucessão ser um passeio sem maiores dificuldades.

No entanto, a campanha de 2010 já trazia elementos “novos” à política nacional. A relativa saturação com que a população enxergava a polarização PT x PSDB, a compreensão por parte do partido paulista de que deveria haver uma radicalização no discurso conservador (a que muitos atribuem a derrota de Serra), ataques pessoais e a intervenção direta de veículos de mídia na edição da campanha, o que ficou claro no famoso episódio da bolinha de papel, eram sinais de tempos difíceis. Essa guinada talvez tenha sido o ponto de inflexão para a tomada de consciência da elite orgânica brasileira de que ela deveria se reconstruir. A fórmula para tal esforço já era conhecida: a ocupação no campo da superestrutura através dos veículos midiáticos (e do crescente acesso à internet e às redes virtuais) e a formação de um discurso unificado e de fácil aceitação. Se faltava um momento de ocupar as ruas, ele surgiu quando das manifestações (de pautas esquerdistas, inicialmente) de junho de 2013. A tomada das ruas pelos vestidos de amarelo foi paulatina. De 2013 até hoje, inúmeros movimentos de direita surgiram e se consolidaram. Atualmente capitaneiam as manifestações contrárias ao governo.

Essa simplificação do cenário é apenas um pano de fundo para uma tentativa de compreensão do momento atual. Se hoje atribui-se o discurso do “nós contra eles” ao presidente Lula, com sua permanente crítica retórica à elite brasileira, podemos recuar um pouco na história para perceber que Lula tomou emprestado justamente da elite a iniciativa de polarização. É óbvio que qualquer estudo de estratificação social vai mostrar que há apoiadores do governo nas classes mais elevadas, assim como há críticos nas classes mais baixas. No entanto, se tomássemos as informações para a construção de uma tipologia atual, poderíamos perfeitamente situar os apoiadores, majoritariamente, nas classes mais baixas. Digo isso, mas gostaria de lembrar que o ódio de classe no Brasil existe há séculos. E que as classes mais elevadas sempre se manifestaram quando viram seus privilégios relativos lhes escaparem, como o de pagar poucos impostos e de não ter que transferir mais que o mínimo de sua renda aos mais pobres. A inclusão foi a demonstração de que a classe alta brasileira não era mais a classe preferida pelos governantes (ao falar de classe aqui, rejeito completamente a nova nomenclatura sobre classes médias, uma vez que nossa concentração de renda ainda é covarde, pra dizer o mínimo)[2].

A reação de ocupar as ruas e bater panelas é possível em qualquer regime democrático. Os anseios anti-democráticos das ruas é que não podem ser tolerados. Se por um lado se afirma que há uma pauta que unifica as oposições no Brasil, fica claro, por outro lado, que não são os partidos políticos que norteiam os referidos movimentos. Eles têm seus políticos preferidos, mas, de modo geral, rejeitam a plena partidarização (pelo menos oficialmente). São hoje multidões e turbas que gritam desesperadamente para que um milagre ajeite a casa na política brasileira, porque o cenário de um governo sem partidos é incompatível num regime democrático republicano como o nosso. Enquanto isso, “toleram” os protegidos pela grande imprensa. Seria esse o desejo real das ruas? Nesse caso, estamos correndo sério risco. Se as ruas são mais uma vez o impulso para que se forje um acordo pelo alto, talvez fosse bom compreender que uma traição à classe apoiadora é pior que a rejeição de uma classe opositora.

Esse papel de insuflador da turba é incorporado com perfeição pelo PSDB. Seus principais quadros são expulsos dos movimentos de rua, mas cinicamente agem como se os comandassem, numa postura de quem claramente acredita que um processo de impeachment acalmará a população até 2018. Talvez seja a tacada mais irresponsável já vista no país nos últimos anos. Se a turba age antidemocraticamente, uma hora ela cometerá um crime mais grave e se tornará passível de qualquer punição. Se ela é encampada por um partido, esse lhe fornece legitimidade, mas passa a correr o mesmo risco da situação anterior. Fica a pergunta: com quem sentarão para o diálogo os pós-Dilma? Qual político os representa? Movimentos populares que querem ingressar na política sem a representação partidária impõem o risco permanente de não serem mais que uma multidão de revoltados. E segurar multidões não é tarefa fácil, ainda mais num país onde se lincha um bandido sem julgamento, ou onde se ocupa a fachada da residência de um ministro do Supremo Tribunal Federal, a depender de sua decisão.

A multidão se move num processo de indignação seletiva, norteada por uma intolerância com qualquer tipo de diferença ideológica. Não estamos vivenciando um momento democrático, como desejam crer alguns, mas sim uma caça às bruxas em que falar e se posicionar tornou-se algo extremamente perigoso, até para aqueles cuja função é essa. Esse cenário traz à mente os momentos finais de Salvador Allende. Seu compromisso com o povo que o elegeu e com sua consciência o impediu de renunciar. O congresso chileno inviabilizou qualquer agenda positiva que tirasse seu governo da crise em que se encontrava. Os apoios internacionais minguaram, principalmente com o avanço das ditaduras nos países vizinhos. Sua base, no entanto, permanecia na rua. Os gritos de “Allende, Allende, el pueblo te defiende” calaram-se quando falaram mais altos os canhões de Pinochet. Depois disso, o que ocorreu foi a mesma perseguição intolerante a qualquer pessoa que se assemelhasse com um comunista, mesmo que a todo e qualquer esquerdista (ou mesmo social-cristão, em alguns casos) coubesse tal rótulo. Nas turbas de verde e amarelo não me parece muito diferente. As manifestações “pacíficas”, segundo a cobertura midiática, rejeitam qualquer diferença, selecionando os manifestantes com a ajuda da polícia. Qualquer traço social-democrata na biografia dos presentes pode ser considerado como o “violento” “crime” de comunismo. O linchamento é, portanto, iminente.

É preciso termos total cuidado com os fatos do presente. Delatar vizinhos por suas afinidades ideológicas, combater professores pelo que postam ou deixam de postar nas redes virtuais, atear fogo em sedes de entidades estudantis, atirar bomba contra institutos, destruir sedes de partidos e invadir reuniões sindicais não são atitudes condizentes com o que se espera de um regime democrático.

*João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e colabora com a Revista Escuta.

** Imagem disponível em: http://meusonhar.com.br/sonhar-com-multidao/

[1] Se os percentuais de redução dos índices de Teil e de Gini parecem pequenos, é importante recordarmos que a elasticidade dos problemas socioeconômicos brasileiros é muito pequena. Estamos sempre a empurrar elefantes.

[2] Se há uma classe que permanentemente distribui seus proventos a favor do todo, é a classe baixa, que assiste aos infinitos incentivos públicos para empresários, além de pagar impostos diretos desequilibrados, sem falar nas ridículas alíquotas do Imposto de Renda.

Anúncios