Gustavo Cezar Ribeiro*

O pensamento conjuntural transita numa dobra entre os fatos passados e suas consequências prováveis, levando sempre em conta, muitas das vezes, os efeitos esperados das ações do analista a partir daquele contexto. Em cenários mais conturbados, quando os eventos são demasiadamente imprevisíveis e se precipitam com maior rapidez, a capacidade de calibrar a própria ação em vista do encadeamento dos fatos parece mais difícil. Dentre os muitos fatores que concorrem para a justa compreensão do momento, um parece despontar como problema prioritário: a carência de garantias sobre as informações colocadas em circulação. O ritmo dos acontecimentos, às vezes, supera o tempo necessário para a devida apuração e confirmação dos mesmos. Em tempos de informações compartilhadas majoritariamente pelas redes sociais, as notícias de qualidade e as opiniões mais elaboradas são soterradas pela profusão de mêmes de credibilidade suspeita e informações falsas ou enviesadas, sempre de facílima e rapidíssima deglutição. Mas estes fatos noticiados, apesar de controversa comprovação, não precisam ser relevantes para a tomada de posicionamento no que tange à ação política individual ou coletiva. A posição política remete a dimensões da existência humana que não estão diretamente articuladas com os “fenômenos de superfície”, mas tocam expectativas que não podem ser debeladas pela “realidade dos fatos”. Por habitarem níveis mais profundos da percepção de mundo, só podem, com os eventos, estabelecer alguns termos de negociação e ajuste.

A natureza verdadeiramente política da disputa retira dos fatos que pululam no noticiário boa parte da importância que podem aparentar – ainda que permaneçam fundamentais para a compreensão da conjuntura, pois revelam a temperatura e os termos do ajuste entre as visões políticas em confronto. Noves fora o grave problema de concentração informacional e midiática que assola a qualidade do que é dito e tomado como “opinião” no país, o mero fato de haver uma superprodução, sistemática e profissional, de notícias falsas, usadas como instrumento de estímulo às manifestações, de certo modo nos ajuda a entender a natureza da nossa controvérsia política mais ampla. Basta uma breve análise das informações que partem de lado a lado para notarmos que já há, consolidada, a imagem de uma oposição básica que cinde a população em termos irredutíveis e inegociáveis. Os termos desta divisão são produzidos por cissiparidade, qualificando um lado enquanto desqualifica o outro, indefinidamente. A construção desta oposição traz consigo o problema da inviabilização do debate político, não porque ele seja em si mesmo impossível nas atuais circunstâncias, mas porque, inexperientes que somos nesta modalidade de interação – que exige a tomada de posição frente a uma expectativa de horizonte social que nunca nos habituamos a colocar em discussão pública – acabamos por reduzi-la a termos que nos são mais imediatos, sequestrados do campo da moralidade mais pedestre.

É exatamente esta impossibilidade de filtragem informacional em tempo hábil que estimula a polarização demasiadamente emocional do debate político, o que acaba por multiplicar chamamentos urgentes por mobilização, na base do “agora você tem que participar”, sob a linguagem da “contagem de garrafas” que cada lado é capaz de levar às ruas, simplificando sobremaneira a percepção acurada da complexidade da fauna ideológica que compõe, de lado a lado, os partidários do impeachment e os defensores da estabilidade institucional.  A simplificação progressiva da leitura do contexto, caractere inerente ao processo de progressiva polarização, compõe o natural processo de formação de grupos e identidades, fazendo sempre mais sentido a definição das identidades políticas dos grupamentos e conflito a partir “de fora”, ou do seu lado oposto. As definições de marcadores coletivos tendem à maior nitidez para descrever o que não somos, posto que, quando integramos um grupo, tendemos a reconhecer sua complexidade interna e demarcar as circunstâncias específicas que caracterizam e justificam nossa própria adesão. É natural o reconhecimento de ressalvas e contradições quanto à própria filiação partidária, frequentemente acompanhada de críticas e lembretes de cisões internas que nos justificam. Ao olharmos para fora, porém, tendemos a registrar os coletivos adversários sob definidores muito menos flexíveis, generosos ou complexos.

Talvez seja interessante observar que os gritos de “fascistas” dirigidos aos indignados de verde-amarelo pode não lhes fazer qualquer sentido, não apenas porque possivelmente ignoram a referência à experiência totalitária italiana, mas porque não necessariamente sustentam concepções políticas autoritárias ou truculentas; em troca, os brados anticomunistas costumam soar anacrônicos e absolutamente despolitizados aos ouvidos dos que defendem a preservação das instituições frente às movimentações golpistas. A conformação dos dois grupos é complexa, apesar da clareza quanto à distinção cromática que lhes separa. É simples notar a complexa diversidade quando estamos próximos, como também é traiçoeira a impressão de homogeneidade quando estamos distantes. As pechas trocadas, portanto, longe de fazerem algum sentido substancial sobre a composição heterogênea a que se opõe, serve muito mais como acusação moralizante, ou como mera ritualização da demarcação totêmica dos verde-amarelos contra os vermelhos, garantindo a continuidade de um debate de surdos. É verdade que a política tem este componente inscrito na sua própria natureza, mas precisa ir além da mera troca de palavras-de-ordem.

É desnecessário enumerar as muitas formas pelas quais a incapacidade de escuta produz definições chapadas dos grupos em conflito. A redução da divisão em vigor em fascistas-golpistas versus comunistas-corruptos revela ao menos duas debilidades graves do nosso convívio republicano: primeiro, uma insuficiência interna aos próprios grupos para a produção de consensos capazes de qualificar e tornar públicas suas posições; segundo, a ineficácia dos canais, espaços e linguagens que sejam capazes de produzir alguma interlocução entre os grupos conflagrados. A evidência da ausência de falta de organicidade dos grupos organizados se traduz no fato de que os manifestantes pró-impeachment reclamam para si a condição genérica de “o povo”, enquanto os vermelhos dizem lutar “pela democracia”, ambos os termos demasiadamente plásticos para posicionamentos que exigem concretude se se quiserem politicamente efetivos. Os primeiros não acreditam negar a democracia, e os segundos não se julgam à parte do povo. Repetem, mesmo nas ruas, o subterfúgio da realpolitik eleitoral que se aferra a platitudes retóricas capazes de nublar intenções profundas. O jogo político, contudo, se dá em torno destas últimas – as enigmáticas e incômodas “finalidades” -, que podem e devem – sob pena de nada aprendermos – vir à praça pública.

Um belo exemplo da insuficiência que seria atribuir a pecha de fascistas aos que defendem a deposição presidencial e a etiqueta de comunistas aos que defendem a legalidade está na pesquisa feita por professores da Unesp no interior das manifestações de rua que receberam novo fôlego e claro viés anti-governo no final de 2015. Nestas, viu-se que a maioria dos manifestantes pela deposição do governo Dilma, frequentemente associados à destra do espectro político, revelaram posicionamentos concretos acerca do papel do Estado coerentes com o ideário típico dos “vermelhos”, enquanto os manifestantes pela continuidade institucional, teoricamente à esquerda, ostentavam muitas vezes o mais inequívoco conservadorismo “de direita” sobre questões morais.

O atravessamento entre ideologia e pertencimento identitário muitas vezes inviabiliza o debate político, favorecendo os operadores profissionais e calejados da realpolitik, capazes de transitar no fogo cruzado de opiniões a partir da manipulação de símbolos vazios, organizando, em torno de si, uma aparência de consenso. É triste notar que os principais atores a desfrutarem diretamente da vitória da proposta de impeachment serão pertencentes a uma das agremiações mais anódinas e perspicazes de nossa república, o PMDB. E é mais triste ainda perceber que, provavelmente, na hipótese da derrota da tese do impeachment, idem: advirá um PMDB fortalecido que, sobre os escombros de um governo moralmente dilacerado, terá plenas condições de acelerar a implementação de seu pacote de reformas regressivas.

A chamada das divergências ao espaço público deve dar sentido à vida republicana e não pode prescindir da possibilidade de dissolução e redistribuição dos contingentes sociais em oposição. O atual corte que distingue os grupos pró e anti-impeachment não é definitivo, mas pode adquirir um novo contorno na medida em que os poderes representativos, o Legislativo e o Executivo, de uma forma ou de outra, retomem as condições de tocar adiante a vida política nacional. Após este largo recesso forçado pelo qual passamos, em que a pauta política está congelada pelas expectativas trazidas diariamente pela Operação Lava Jato, quando forem retomadas as decisões que afetam diretamente a vida da população e que colocam em evidência as disputas concretas sobre distintas concepções de país, aí sim, teremos condições de avaliar o tamanho do “fascismo” que produzimos e da suposta “adesão popular” à pauta do impeachment. 

Em circunstâncias algo idealizadas, talvez contaminadas pelo wishful thinking de um republicanismo que nunca tivemos, é possível imaginar que os que hoje gritam pelo golpe possam, logo adiante, abandonar o barco do verde-amarelismo e aderir às consignas das esquerdas pelo simples reconhecimento do conteúdo político que se escondia, sem ser devidamente explicitado, por detrás de um pretenso discurso moralizante.A bem da verdade, esta possibilidade parece decorrer da falta de organicidade dos próprios grupos mobilizados, cuja capacidade de aglutinação está associada, muito mais, ao chamamento exasperado de última hora, pelas redes sociais, pelo ar cataclísmico do noticiário “oficial”, pelo tom despolitizado da platitude de se colocar “contra a corrupção”, do que a um processo duradouro de construção coletiva de programas e posicionamentos. É certo que nem todos, talvez sequer a maioria, dos que hoje se mobilizam pelo golpe, sustentam convicções marcadamente conservadoras. Mesmo no campo das esquerdas, cuja história é marcada pela capacidade de produção coletiva de pautas, são bastante frágeis os sinais de organicidade e consenso real, posto que suas forças estavam, ao longo dos últimos anos do petismo, ou imersas no torpor do poder, ou esgotadas pelas próprias disputas internas. É possível também que, nesta projeção de futuro próximo, muitos destes que hoje se alinham à esquerda, seja pela adesão irrestrita às exigências de uma política institucional intrinsecamente conservadora, seja pelas formas oficiais de desmobilização e criminalização dos movimentos sociais que lhes ameaçam a estabilidade, já tenham assumido suas posições do outro lado da luta política.

*Gustavo Cezar Ribeiro é doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ, em Filosofia pela Université Paris 1 e professor do IFTM, além de colaborador da Escuta.

** A imagem que acompanha o texto foi retirada do site:  http://www.myreviewer.com/Blu-ray/133289/Modern-Times–Dual-Format-Edition/133389/Review-by-David-Beckett

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