Maria Abreu *

Provavelmente o ponto mais controverso da Operação Lava Jato, que, desde a sua segunda operação ostensiva, investiga o esquema de corrupção da Petrobrás e se encontra em curso já há mais de dois anos foi o vazamento de conversas por telefone do ex-presidente Lula com seus interlocutores partidários, entre eles a presidenta Dilma Rousseff. Nessas conversas, além de uma tentativa irresponsável de atribuições precipitadas de crimes aos envolvidos, houve uma espécie de escândalo público com os palavrões ditos principalmente por Lula.

Tal escandalização já havia ocorrido quando, antes do depoimento de Lula à Justiça Federal, no aeroporto de Congonhas, em um áudio capturado indevidamente, aparece Lula dizendo, “enfiem o acervo (cuja pronúncia foi entendida de forma equivocada como processo) no cu”. De acordo com os escandalizados, tal vocabulário não cabia na boca de um ex-presidente, ainda que em conversa privada. Note-se que Lula, em seus discursos públicos recentes, não utilizou de palavrão. A única palavra mais próxima disso foi a palavra “merda”, que ele utilizou em sua entrevista coletiva após o depoimento em Congonhas, e para dizer “o merda de um metalúrgico”, em um momento de inflamação, a meu ver, bastante condizente com a situação: Lula havia acabado de ser conduzido de forma coercitiva, com direito a espetáculo televisivo durante um dia todo, para depor e esclarecer fatos que já haviam sido esclarecidos. Não havia qualquer fato novo que justificasse aquela operação toda, como é comprovado pela transcrição de seu depoimento, disponibilizada na íntegra.

Seria interessante perguntar se os indignados com o linguajar de Lula também se incomodaram quando, em plena Copa do Mundo, os presentes em um estádio saudaram a presidenta Dilma com um alto e sonoro “vai tomar no cu”. Ou, ainda, se esses mesmos mantêm a sua indignação quando Aloysio Nunes Ferreira, senador e ex-candidato a vice-presidente na chapa presidencial encabeçada por Aécio Neves, solta seus impropérios contra jornalistas e adversários políticos. Tal indignação, portanto, emerge com mais um daqueles julgamentos morais seletivos que vêm acompanhando a avaliação das condutas praticadas por membros da classe política.

O que os moralistas esquecem de considerar é que, se as conversas de quaisquer adultos forem flagradas, nos mais diversos contextos privados, talvez poucas pessoas escapem do uso de vocabulário de baixo calão. Ele não é exclusivo de uma classe, muito menos indicador de caráter ou inclinação ideológica daquele que o utiliza. Alguns termos podem, sim, revelar preconceitos, mas que já estão presentes nas falas mais “convencionais” e “educadas” e apenas se explicitam no contexto de irritação. Aliás, preconceitos se manifestam em linguagem absolutamente cultas, quando, por exemplo, Jair Bolsonaro disse que não estupraria a deputada Maria do Rosário, porque ela não merecia. Nessa fala, não há qualquer palavrão. No entanto, poucas falas seriam tão agressivas quanto esta.

Dentre todos os palavrões utilizados por Lula talvez o que mais tenha causado incômodo, indignação, ou até mesmo reações, inclusive por parte da esquerda, foi a expressão “grelo duro”, utilizada em uma conversa ao telefone com o ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos e seu amigo pessoal Paulo Vannuchi, em que ele diz que as mulheres de “grelo duro” de seu partido – Fátima Bezerra, Clara Ant e Maria do Rosário – deveriam se mobilizar contra um dos procuradores responsáveis por uma das ações em que o patrimônio de Lula é investigado foi acusado de bater na mulher, inclusive com chibatadas. Com a divulgação dessa conversa, ao invés de ser considerado um absurdo que um profissional do judiciário bata em sua esposa e continue no exercício de sua função, Lula foi acusado de machista até mesmo por pessoas que não costumam se preocupar com a causa feminista.

Pois, como feminista e alguém que acompanha a participação de mulheres na política, além de ter participado um pouco dela, não considero que a expressão “grelo duro” seja ofensiva, nem que tenha cunho machista. Explico melhor.

Acredito que muitas pessoas que tenham participado de movimentos políticos – sejam eles ligados a movimentos sociais ou estudantis – ou mesmo ambientes profissionais em que homens sejam o sexo predominante, já ouviram em reuniões a expressão “colocar o pau duro na mesa”, como sinônimo de “mostrar força” ou “mostrar quem tem o poder sobre a situação”. De forma oposta, “não ter colhões” significa não ter coragem, ou não ter condições, para implementar uma determinada medida. Expressão menos usada, mas presente em alguns contextos, é a “vamos enfiar apenas a cabecinha”, se referindo a situações em que não haverá grandes danos, apenas o necessário para que um determinado objetivo seja alcançado. Esta última expressão, ainda, tem uma conotação de ludibrio do interlocutor, fazendo referência ao homem que, ao tentar arrebatar sexualmente uma mulher virgem, lhe engana dizendo que colocará “só a cabecinha”. Para além dessas expressões, bastante machistas, acredito que muitas outras igualmente ou até mais constrangedoras já foram ouvidas pela maioria das mulheres que participam de esferas de decisão de alto nível, em que a potência masculina é associada ao poder e isto não é questionado justamente por esses espaços serem predominantemente ocupados por homens.

Mas, se a potência sexual masculina e o poder sempre estiveram correlacionados, por que, de repente, a afirmação da sexualidade feminina, por meio da expressão “grelo duro” causaria estranheza? Neste caso, não se trata apenas de mais um moralismo, voltado para qualquer palavrão, mas parece ser, sim, um incômodo pela expressão de algo que se encontra interditado pelo debate público: a potência da sexualidade feminina. Essa potência, decorrente de uma visão da mulher como sujeito desejante, atuante e, no caso, político, destoa da posição tradicional da mulher, ausente dos debates públicos, assumindo frequentemente a posição de objeto que deve ser preservado e reservado em posições discretas, em que se configure seu papel complementar ao masculino ou mesmo inexistente.

Na “História da Sexualidade” Foucault indica que uma das formas eficientes de dominação é reservar ao dominado a inexistência. Em relação à sexualidade, a melhor forma de reprimi-la é interditá-la. No caso da sexualidade dos homens, ela vem à tona para associar-se ao poder político – eminentemente fálico – que lhes pertence. No caso das mulheres, em menor número no espaço político e, no brasileiro, praticamente inexistentes, a melhor forma de reforçar sua falta de poder parece ser a de relegar a sua sexualidade ao interdito: dela não se pode falar. A sexualidade da mulher é algo que só pode ser exposta nas capas da Playboy ou nos comentários machistas soltos a cada vez que uma mulher considerada gostosa pelos homens passa pelos corredores das instituições políticas em Brasília. Como exemplo disso, recordemo-nos de Mônica Veloso, amante de Renan Calheiros que foi capa da Revista Playboy, em 2007. Com a alcunha de “mulher que abalou a república”, seu poder foi o de desestabilizar o então – assim como hoje – presidente do Senado.

Diante disso, considero que Lula não foi machista. Ao menos não quando utilizou a expressão “grelo duro”. Nesse momento, tratou as mulheres como iguais e como sujeitos tão ou potencialmente mais fortes do que os homens. Mas isso significa uma defesa incondicional de Lula, no que tange ao machismo? Acredito que não. Ao relegar toda a sua vida doméstica para Marisa Letícia, sua esposa, de forma ostensiva em seu depoimento à Polícia Federal e também no episódio em que, no jardim do Palácio Alvorada e na Granja do Torto, foram esculpidos, no jardim, arranjos no formato da estrela símbolo do partido, considero que Lula foi mais machista do que ao utilizar “grelo duro”. Nos oito anos do governo de Lula, pouco se ouviu a voz de Marisa Letícia, e a ela foi atribuída a responsabilidade por vários fatos da vida doméstica de Lula que ele próprio não conseguia ou não queria explicar.

Portanto, o que se pode dizer é que a expressão “grelo duro” só pode ser ofensiva a ouvidos moralistas. Para a maioria das mulheres, que se aventuraram na vida e tiveram que ser corajosas todo dia, seja assumindo postos de comando, sejam voltando do trabalho tarde da noite, correndo riscos de serem violentadas ou assediadas, seja educando e provendo, sozinhas, seus filhos, seja afirmando sua sexualidade como sujeitos, “grelo duro” pode ser considerado um elogio de potência. Potência que nunca faltou às mulheres, a não ser que lhes tenha sido retirada ou interditada.

*Maria Abreu é doutora em Ciência Política pela USP, professora e pesquisadora do IPPUR-UFRJ, além de colaboradora da Escuta.

** A imagem que acompanha este texto é de autoria de Alvaro Almgren.

Anúncios