Pedro Benetti*

Entre o parto e o “traslado” escreveu uma carta, sem saber se ela chegaria ao destino. O local onde teve Sebastián não era uma clínica de Buenos Aires, mas sim o mais cruel e letal centro clandestino de detenção, tortura e extermínio da Argentina – a Escola de Suboficiais da Mecânica da Armada (ESMA). Patrícia, presa durante sua gravidez, foi mantida no sótão do Cassino de Oficiais, com os demais presos políticos. Provavelmente ouvia os carros passando pela Avenida del Libertador e as crianças brincando no pátio da escola ao lado. Depois de dar a luz, foi intimada pelos militares a escrever uma carta aos seus familiares, relatando o nascimento de seu filho – ainda que em circunstâncias diferentes das que realmente sucederam – e explicando que um amigo levaria a criança até a família, dado que no momento ela não podia voltar para casa. Será que algum ser humano é capaz de imaginar ou entender o que sentiu Patrícia nesse momento? Será que algum de nós pode compreender o que significa ter um filho num centro clandestino, escrever uma carta despedindo-se dele para logo em seguida ser enviada para a morte em um voo?

A radicalidade dessa experiência talvez recomende prudência no relato dos fatos. As palavras, por bem intencionadas que sejam, não podem ser suficientes para exprimir o que está contido nessa breve e extrema sequência de acontecimentos. Corro o risco, navegando nesse perigoso mar (ou talvez rio, que melhor se adequa à situação), porque as datas e números têm uma frieza que não dá conta do que realmente importa na descomemoração dos 40 anos de golpe militar na Argentina. É nas 30 mil (provavelmente muito mais) histórias escondidas que se encontra a tragédia humana capaz de destruir indivíduos, famílias e todos os laços que mantem uma sociedade como algo mais que um punhado de mulheres e homens.  É na singular, e ao mesmo tempo universal, história de Patrícia e Sebastián que se encontram todos os elementos necessários para compreender a importância do 24 de março.

Nascida na cidade de Tigre em 1956, Elizabeth Patrícia Marcuzzo era militante montonera, como tantos outros.  Estudante de ciências da educação, da Universidade de Mar del Plata, foi levada por sequestradores junto com seu companheiro, Walter Claudio Rosenfeld, de 21 anos. Era outubro de 1977 e Patrícia estava grávida. Em abril de 1978 nasceu Sebastián e depois disso não se pode determinar com precisão quando os agentes da repressão levaram Patrícia para tomar uma injeção e, em seguida, ser atirada de um avião sobre o rio. Antes de ir, Patrícia buscou confortar seus familiares, pediu que sua mãe amasse seu filho e que seu pai não se preocupasse demais. Mesmo em seus vinte anos, ela estava tranquila com as decisões que tinha tomado. Sebastian foi entregue à família da mãe, ainda que os Rosenfeld não tivessem notícia de seu neto. Na volta à democracia, as Abuelas de la Plaza de Mayo, por meio de sua filial em Mar del Plata, promoveram o encontro das duas famílias, permitindo a Sebastián recuperar em definitivo sua identidade, conhecendo a seus avós paternos.

Depois de 2003, com a revogação das leis de impunidade (lei de obediência devida e lei do ponto final) diversos genocidas foram levados a julgamento e condenados. Nesse momento, corre a terceira mega-causa sobre os crimes cometidos na ex-Esma, com 68 imputados e 789 vítimas, dentre as quais Patrícia. Na causa anterior, 14 imputados foram condenados à prisão perpétua, 3 foram condenados a penas menores e dois foram absolvidos. Hector Fébres, o único imputado da primeira causa, morreu durante o processo, extinguindo assim o julgamento.

A história de Patrícia é a história da Argentina nos últimos 40 anos. Uma história de utopia, organização, violência, mas também, mesmo depois de seu desaparecimento, de encontros, de militância, de justiça. A luta argentina é – no tempo presente – uma luta de mulheres fortes. Mulheres que enfrentaram formas de violência que sequer são concebíveis para quem não vive o mundo deste lugar. Patrícia desapareceu, mas se fez presente em cada passo das Madres em volta da Plaza de Mayo, em cada neto encontrado pelas Abuelas, em cada sentença condenatória de um genocida (quase sempre homens), em cada árvore ou parede da ex-Esma, hoje convertida em Espaço de Memória e Direitos Humanos após anos de luta dos familiares de mortos e desaparecidos. As militantes, mães e avós argentinas enfrentaram a solidão das respostas evasivas em cada repartição pública, mas se encontraram e ao fazê-lo nos revelaram a importância do cuidado, do afeto, da firmeza que só o amor na sua forma mais pura reserva. Assim, reconstruíram um país devastado. Nessa data muitos números serão lembrados, dos desaparecidos, dos torturados, dos genocidas condenados. Aos 30 mil compañeros (presentes!) fica a reverência pelo legado que nos atravessa e nos mantém em marcha. Mas hoje, por alguma razão, só quero pensar em Patrícia. Abaixo, sua última carta:

“Querida Mamá. Hoy después de tanto tiempo sin saber de mi recibís noticias mías por la presente. Lamento mucho no haberte escrito antes pero me fue imposible pues me encontraba fuera del país realizando unos trabajos.

Este es mi niño. Se llama SEBASTIÁN, lo tuve en una clínica en Buenos Aires. Pesó 3,800 kilos, nació con fórceps. Yo me encuentro muy bien en perfecto estado de salud, el portador del niño es un amigo mío que me hace la gauchada por no poder hacerlo yo en este momento pero quiero que estés tranquila pues estoy muy bien y ya me voy a comunicar nuevamente con vos.

El niño nació el 15 de abril. Quisiera que lo anotaras vos. Acá te mando su ropita y la leche. Yo le di pecho hasta ahora, complementándole los primeros días con leche Bifilac. Ahora tomará… …seguramente 150 gramos o más porque es de mucho comer. Es bastante tranquilo y de noche se despierta una sola vez a la madrugada. Las mamaderas no están hervidas. Y hay solo una tetina con un agujero.

Les mando unos regalitos para las nenas. Dales un beso muy grandes a todas. Y principalmente a Sebastián. Quiero que no se preocupen por mi les repito que estoy muy bien y que me volveré a reunircon ustedes, en este momento no me es posible ir a casa.

Mami espero que el niño te consuele la incertidumbre, querelo mucho, es un amor. Denle saludos a papá que tampoco esté preocupado por mí. Un beso a todos mis queridos, les pido que se cuiden mucho todos, espero estar muy pronto, haré lo posible porque así sea. Sin mas me resta mandarles un beso muy grande a los cuatro. Uno a Sebastián. Se que suena incompresible pero sabés cómo pienso también sé de tu desacuerdo para con lo que hago. Todo se solucionará para bien. Paty.”

*Pedro Benetti é meio-argentino e militante diário pelo Nunca Más!, além de colaborador da Escuta. 

** A imagem que acompanha o texto é de autoria das Abuelas de la Plaza de Mayo e foi retirada do site: http://aquimequedo.com.br/2016/03/22/40-anos-golpe-civico-militar-argentina/  

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