Rafael Abreu*

O desenrolar frenético dos fatos, que nos atropelam diariamente, me conduziram a duas lembranças do ano de 2015. Lembrei-me, por exemplo, de uma conversa que aconteceu em uma aula do ensino médio, quando um estudante se manifestou: “professor, eu tenho a impressão de que todo sociólogo é de esquerda”. Depois da questão, um outro aluno se apressou e respondeu: “eles são de esquerda, pois recebem assistência do governo, oras”. Um outro caso interessante foi uma ligação que recebi de um velho amigo, também no ano passado: “e aí, como anda a tese?”, ele me perguntou. “Tô quase lá, no finalzinho”, respondi. “Ah, que bom! Mas também já tava na hora, né? Chega de viver mamando nas tetas do governo… você precisa arrumar um trabalho no setor privado”, disse ele como que dotado da voz da sabedoria.

Esses diálogos me levaram a refletir que aos olhos dessas pessoas eu não era apenas um “petista”. Ao que parece, eu era um “petista” encostado, que teria inventado uma tal de tese para viver no sossego enquanto assistia aos jogos do Corinthians – o que só piora minha a situação, segundo os estereótipos e as “listas da Odebrecht”. Mas, neste mesmo ano, o caldo engrossou ainda mais para o meu lado quando jornalistas, revistas, religiosos e Projetos de Lei passaram a denunciar a “ideologia de gênero” e a doutrinação ideológico-partidária no contexto educacional.

Não demorei muito a perceber que, em alguns casos, lidava, no meu cotidiano profissional e pessoal, com questionamentos inspirados em Olavo de Carvalho e Ludwig von Mises. Estes nomes não estavam apenas presentes nas minhas experiências, mas se apresentaram, em 2015, nas manifestações contra o Governo Federal. Nesses protestos, inclusive, a cor vermelha foi terminantemente proibida diante da hegemonia verde-amarela.

Pareceu-me, então, que alguma coisa estava em curso: a exigência “sem partidos”, registrada nas manifestações de Junho de 2013, sobretudo entre aqueles que mobilizavam o repertório patriótico, segundo a definição de Angela Alonso, sofreria uma mutação e uma generalização em 2015, na proibição de camisetas vermelhas. Como consequência, aqueles que se arriscaram em usar a cor vermelha, no domingo “nacional” na Paulista, foram rechaçados, inclusive por meio de agressões físicas, num sinal de que os protestos não admitiriam qualquer manifestação estética/de pensamento da diferença. É isso mesmo: a estética passou a denunciar o pensamento e, como num passe de mágica, o pensamento passou a determinar a estética.

No caso da violência aos “vermelhos”, era como se estas ações se justificassem por meio dos aspectos que mencionei em minha experiência pessoal: o “petista” acomodado, o vagabundo que se sustenta com a ajuda do governo, não possui o direito à manifestação. Sendo assim, o sujeito mereceria um corretivo, uma punição, por ser portador de um comportamento moralmente deturpado. De modo semelhante ao que acontece nos linchamentos ao redor do país, a justiça violenta antecede a avaliação dos fatos, da “culpa” e dos ritos legais e institucionais: em dia de manifestação verde-amarela na Paulista, não importa se a camiseta vermelha é resultado de um “descuido”.

A lógica da punição, diante da guerra em curso, não se restringe ao desavisado que circula na manifestação vestindo a cor proibida. Recentemente, um economista/blogueiro, que operou a junção mencionada acima, entre Olavo de Carvalho e Mises, divulgou uma lista de 766 artistas e intelectuais para ajudar seus leitores na promoção de um “boicote geral”, contra “os comparsas dos bandidos” que queriam transformar o Brasil em um “Cubão”. O boicote consiste em não ler, comprar ou frequentar eventos das pessoas citadas.

Mais um exemplo: como se sabe, no dia 22 de março, Teori Zavascki determinou ao juiz Sergio Moro o envio das investigações que envolvem o ex-presidente Lula ao STF. A decisão pautou-se no fato de que, nos grampos telefônicos divulgados para a rede Globo, constava a participação de pessoas que possuem foro privilegiado (Dilma Rousseff e Jacques Wagner). Ao ser publicizada a decisão, o ministro se tornou alvo de manifestações nas redes sociais e na frente de sua casa, sendo taxado de “traidor”. Ao decidir contrariamente aos desejos daqueles que “combatem o PT” ou, na generalização em curso, os “vermelhos”, o ministro do STF se transformou em um “comunista” que deveria ser perseguido. Não se discute, nesse caso, a legalidade e validade da decisão, mas a necessidade de represália àquele que se comportou de modo inadequado.

Ultimamente, casos como esses se espalham como rastilho de pólvora, chegando até ao universo das crianças das classes médias. Geralmente, essa onda de violência é subestimada pela grande mídia. Na mesma toada, dificilmente um político da oposição reprovará os ataques e invasões realizadas em sedes do PT ao redor do país. Exemplos semelhantes não faltam e o/a leitor/a poderia ainda apontar outros que eu desconheço.

Gostaria, então, de me concentrar na oposição mencionada, no recorte binário que se tornou hegemônico na crise atual. Os casos mencionados – do professor de sociologia, da pessoa que veste vermelho na manifestação verde-amarela na Paulista, do intelectual, do artista, ou do juiz do STF que “contrariou” o antipetismo – revelam que está em curso a construção – ou a consolidação – de uma narrativa que recoloca o binarismo político em um contexto que parecia fadado a ter de lidar com as multiplicidades e diversidades que encontram guarida na Constituição de 1988. O principal aspecto desta narrativa consiste em atrelar elementos em chave negativa que vinculariam determinadas pessoas e posições: o partido corrupto, liderado pelo político ladrão, que fornece programas e benefícios sociais (pobres e estudantes, por exemplo) aos que se acomodam como se fossem parasitas da sociedade brasileira. Qualquer relativização ou desvio em contraposição a esta narrativa, como no caso de Teori Zavascki, poderá gerar uma punição que consiste, no mínimo, em enquadrar o indivíduo no grupo dos sujos, feios, malvados e comedores de mortadela; portanto, dos “petralhas”, “comunistas”, que precisam ser rechaçados.

As pessoas que são enquadradas do lado de cá, dos “vermelhos”, sabem que a coisa não funciona bem assim: no interior desse grupo, que a narrativa binária entende como homogêneo, existe uma miríade de posicionamentos, possibilidades e debates. Isto nos leva a uma questão importante, sobre o significado político e social em torno da consolidação do pensamento e de práticas pautadas no binarismo político.

Nas ciências sociais brasileiras, tornou-se central a recepção das chamadas teorias pós-coloniais. O ponto de partida, em uma perspectiva que envolve vários olhares e caminhos, geralmente é caracterizado pelo tema da “desconstrução dos binarismos”. Este debate iniciou-se com a publicação, em 1978, do livro “Orientalismo”, do crítico literário Edward Said. Basicamente, a percepção de Said desenvolvida neste livro, constitui-se na afirmação de que, na distinção construída entre Oriente e Ocidente, tem-se a definição do primeiro enquanto uma construção dos discursos provenientes do segundo. Orientalismo, ou seja, os discursos capazes de criar e recriar uma distinção cultural e política, sempre como representações do “outro”, foi capaz de operar uma produção e reprodução de uma complexa hegemonia, onde as narrativas produzidas sobre o orientalismo refletiriam a superioridade dos ocidentais. Posteriormente, Stuart Hall, por exemplo, conhecido intelectual pós-colonial, generalizou a dualidade de Edward Said, Ocidente/Oriente, para Ocidente/resto (West/rest). Hall, então, enumerou as fontes discursivas que alimentaram a polaridade ao longo do processo de expansão colonial: o Ocidente (civilizado, desenvolvido, bom), em contraposição ao “resto” (selvagem, atrasado, ruim).

A chave explicativa da “desconstrução dos binarismos”, além de produzir debates acadêmicos intermináveis, tornou-se uma das peças na engrenagem da luta política por direitos. A dicotomia entre superiores e inferiores, assim, precisava ser vencida para garantir o reconhecimento do “outro”. No Brasil – país desigual, violento, racista, machista e homofóbico – a recepção de tais teorias, entre outras, animou a luta pela diversidade e por direitos, entre intelectuais, ativistas e movimentos sociais.

Mas a história não é uma senhora determinada a caminhar em linha reta em direção ao céu. Estamos diante, portanto, da reafirmação de discursos binários, que contrapõem dois grandes grupos no Brasil. A narrativa binária agora em curso parece afirmar, em um campo, a supremacia da punição em detrimento da esfera dos direitos (questão muito bem conhecida pelos pobres nas periferias brasileiras). Consequentemente, indivíduos e grupos, arrastados para o lado dos “comunistas”, passam a reagir, como se fosse uma “revolta do oriente”, por meio do recurso da generalização. Não parece mais haver saída, neste momento, e por mais que as pessoas resistam ao pensamento binário, não ser “vermelho comunista” significa fazer parte do oposto, dos chamados “coxinhas”.

A cada dia que passa, a divisão imaginada decanta no mundo real. Entre tantos outros eventos, o conflito e a repressão na PUC em São Paulo, no dia 21 de março, que colocou, de um lado, apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff e a PM paulista e, de outro, jovens que gritavam “não vai ter golpe”, revela tal situação. De modo igualmente preocupante, a imagem do Juiz Sergio Moro, do herói em busca da vingança a qualquer custo, que passa a ser idolatrado pela massa verde-amarela, parece confirmar o que mencionei acima. No confronto aberto, de Moro contra Lula e o Planalto, exemplificado pela condução coercitiva do ex-presidente e do caso da divulgação dos grampos, a divisão encontrou seu aspecto fundamental e nuclear: ou vencerá o lado da punição, mesmo que acima da Constituição, ou o do direito, que agora inclui dispositivos elementares, como o direito à presunção da inocência e o direito à privacidade – tema que, inclusive, deslocou entidades, juristas e advogados para um dos dois lados.

No caso do Juiz Moro, assistimos a um movimento perigoso: ao atuar no interior de uma instituição estatal, e ao se colocar acima da necessidade de justificação legal, ele se estabelece como representante de uma parcela da população, ou seja, aqueles que legitimam a punição a qualquer custo. Pautados na figura do justiceiro, imbuídos de um moralismo que possuiria a missão de limpar a sujeira nacional, representante e representado violentam os ritos tradicionais da democracia representativa brasileira e a letra da Constituição. Sendo assim, diante da “recusa da política” entre a massa verde-amarela, tão comentada nos dias que correm, ou das análises que decretam o fim da Nova República, devemos nos perguntar: para onde nos levará esta recusa e este fim?

Se eu não estou a sofrer de um quadro de loucura paranoica, o binarismo (re)colocado entre nós, manifestado em todas as esferas da vida social brasileira, permitirá, portanto, apenas um lado vencedor. A árdua tarefa da desconstrução, realizada a partir do diagnóstico de que vivemos em um mundo plural, diverso e heterogêneo, que alimentou mentes e corações, encontrou no tempo presente uma infame encruzilhada: fomos arremessados de volta para um cenário de divisões e hierarquias simplórias. Defender um lado, agora, em oposição à lógica da punição a qualquer custo, transformou-se na luta para retomarmos o direito de desconstruir.

*Rafael Abreu é doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ, além de colaborador da Escuta.

** A imagem que acompanha este texto foi produzida por André Falcão. Ela foi retirada do site: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/o-petista-o-coxinha-e-o-judeu.html

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