Raul Nunes*

No clássico Mudança estrutural da esfera pública Jürgen Habermas analisa as mudanças da relação entre o público e o privado na história das sociedades europeias, entendendo como momento chave da modernidade a emergência de uma divisão mais nítida entre mercado, Estado e sociedade civil. É neste ínterim que emerge a esfera pública “como a esfera de pessoas privadas que se reúnem em um público”[1] cujo medium consiste na “discussão pública mediante razões”[2]. A esfera pública cada vez mais se consolida como parte fundamental da democracia liberal, uma vez que “por meio da opinião pública, faz a mediação entre o Estado e as necessidades da sociedade”[3]. Alberto Melucci parte daí para entender os “novos” movimento sociais: “Os atores nos conflitos são cada vez mais temporais e sua função é revelar os problemas, anunciar à sociedade que existe um problema fundamental em uma área dada”[4] (tradução minha). Os movimentos sociais são verdadeiros profetas do presente.

Um contraponto contundente vem de teóricas políticas feministas, especialmente Nancy Fraser[5] e Iris Marion Young[6], que consideram esse conceito de público demasiado fechado e apontam o apagamento dos declives sociais existentes. Fraser diz que é preciso, então, produzir um conceito não-burguês de esfera pública, que leve em conta os meios pelos quais as desigualdades adentram o público e procure combatê-los. A autora considera que sujeitos subalternos foram excluídos simbólica e efetivamente da construção dessa esfera pública e sugere, dentre outras coisas, que se criem ou incluam contra-públicos subalternos. De maneira similar, Young valoriza perspectivas elaboradas autonomamente pelos próprios grupos oprimidos a adentrarem o público.

Práticas concretas desafiam a ideia habermasiana de público que as autoras denunciavam em teoria. Campanhas como #MeuAmigoSecreto[7] e #MeuPrimeiroAssédio[8] inundaram a internet em 2015, chegaram aos jornais e revistas e causaram as mais diversas reações, deixaram a parcela masculina do público acuada e tensa. Neste mesmo ano, a militância negra conseguiu, através de mobilização virtual espontânea, pressionar para o cancelamento de uma peça considerada por elas/es racista, por fazer uso de blackface [9]. Também altamente noticiada, essa iniciativa foi considerada por uma parte do público como autoritária e fascista, além de um exemplo de censura.

Esses casos são uma boa imagem para refletirmos sobre os limites do caráter público de nossas práticas, seja como atores individuais ou coletivos. Meu argumento é que as práticas não podem ser avaliadas em sua legitimidade de antemão, apenas em sua forma, mas precisam levar em conta seu conteúdo a partir da contextualização dos sujeitos. Faço coro à ideia de Paulo Freire de que a violência do opressor difere da reação do oprimido, e de que é “na resposta dos oprimidos à violência dos opressores é que vamos encontrar o gesto de amor.” [10]. Adiro também à brilhante diferenciação da feminista negra Audre Lorde entre ações motivadas por raiva (potência criativa das/os oprimidas/os) e por ódio (poder que produz opressão):

“Porque não é a raiva das mulheres negras que está escorrendo por esse globo como um líquido doente. Não é minha raiva que lança foguetes, gasta mais de sessenta mil dólares por segundo em mísseis e outros agentes da guerra e da morte, que abate crianças nas cidades, estoca gás nervoso e bombas químicas, sodomiza nossas filhas e nossa terra. Não é a raiva das mulheres negras que corrói para um poder cego e desumanizador, direcionado à aniquilação de todas nós, a menos que nós contra-ataquemos com o que nós temos, nosso poder de examinar e de redefinir os termos sobre os quais nós viveremos e trabalharemos; nosso poder de imaginar e reconstruir, raiva por dolorosa raiva, pedra por pesada pedra, uma palavra de aceitação da diferença e uma terra para apoiar nossas escolhas.”[11] (tradução minha).

O estalo para esse texto surge da experiência presencial nas manifestações de 13 de março (pró-impeachment da presidenta Dilma) e 18 de março (anti-impeachment), ambas em 2016. Se as manifestações do dia 18 se perdiam entre denunciar a Rede Globo como golpista, entoar “Não vai ter golpe” e venerar a imagem do ex-presidente Lula, as do dia 13 eram um uníssono: “FORA PT”. É interessante notar que esse movimento se inicia com a vitória de Dilma nas eleições de 2014 e vai se delineando de diversas formas acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. No princípio, quando impeachment era um sonho distante, as pessoas se alternavam entre cogitar Aécio presidente e pedir por intervenção militar. Com o andamento do processo no Congresso, as/os manifestantes tendem a rechaçar líderes partidários (como Aécio e Alckmin) e deixar a ideia da militarização de lado; o juiz Sérgio Moro é o novo herói provisório (como o foi Joaquim Barbosa na época do mensalão). De lá até aqui o que resta é um sentimento que não pode ser entendido senão como ódio ao PT e também a Dilma, Lula, ao governo e à esquerda.

Sair do metrô ouvindo os brados de “FORA PT” de uma horda branca, velha e endinheirada[12] ecoando no longo e claustrofóbico caminho até finalmente emergir em Copacabana foi uma das experiências mais amedrontadoras da minha vida. O que me impressionou, porém, foi que no diálogo as pessoas eram, no geral, bastante receptivas. Pessoas comuns. De cujas entranhas vibrava até a garganta um sonoro “FORA PT”, estimulado pelos vários trios que passavam pela avenida. Pessoas com posicionamentos diversos (até mesmo progressistas), todavia unidas pelo ódio.

Como propus mais acima, só podemos avaliar se se trata de raiva ou ódio analisando os sujeitos devidamente contextualizados. Comecemos pelo perfil: a assombrosa ausência de pessoas negras e pessoas jovens contribui para que essa fração da sociedade possa ser vista como uma elite, em sentido socio-econômico. Quanto à demanda, em específico, salta aos olhos que esse seja um movimento meramente destituinte. O rechaço a boa parte dos líderes, incluso a rejeição de 84% do mais provável presidente em caso de impeachment – Michel Temer –[13], aliado ao fato de que se criou um vale tudo pela queda do PT (apoio incondicional a Moro é um exemplo que se via nas camisetas #SomosTodosMoro), além da seletividade na escolha dos (possíveis) corruptos a serem punidos – deixando de fora o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que conduzirá o processo do impeachment sendo réu no STF – põem em cheque a legitimidade da causa. Soma-se a isso episódios elitistas (chamam sindicalistas da CUT de “mortadela”), sexistas (a presidenta é referida como “vagabunda”, “vadia” e toda sorte de impropérios relacionados ao fato de ser mulher) e racistas – frise-se que recentemente um ator gritou “Fora Dilma” em sua peça, foi contrariado pela plateia e declarou ser uma afronta ser peitado por um negro[14].

Manuel Castells[15] percebe que a ação social se inicia no reino dos sentimentos. Um complexo caminho vai da ansiedade, perpassa pelo medo, da raiva é tornado indignação, compartilhado se transforma em entusiasmo, passa por uma identificação que gera empatia e finalmente produz um horizonte de esperança. Assim se constroem redes de indignação e esperança mundo afora. O que se vê nas manifestações pró-impeachment agora não é nada disso, mas marcadamente o ódio canalizado no slogan “FORA PT”, que vai resvalando em violência física para com pessoas que “aparentem” ser de esquerda: ciclistas, pessoas usando roupas e acessórios vermelhos, dentre outros.

Diferente dos usos possíveis da raiva, não há nada que um movimento odioso possa criar. Por isso preocupa o crescimento do aglomerado “FORA PT”, bem como sua obstinação com o fim e irresponsabilidade para com os meios. Chegamos à beira do abismo que pode descambar numa profunda e irreversível queda ao fascismo, em dois sentidos. Num primeiro, o movimento pode se tornar fascista ao incitar ou promover a aniquilação de grupos específicos, notadamente grupos subalternos. Ainda, corremos o risco de cair na pior armadilha fascista: a banalidade do mal. Esse conceito surge da surpresa de Hannah Arendt, alemã judia, ao perceber que o nazista Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS responsável pelo transporte de milhões de pessoas para os campos de concentração, era completamente normal; apenas cumpria as ordens que lhe eram dadas sem questionar. Faço meu o apelo de Arendt: precisamos refletir detidamente para não sermos iludidos a fazer a coisa “certa” só para descobrirmos no fim as atrocidades que deixamos pelo caminho. Que 2016 não termine em barbárie.

*Raul Nunes é mestrando em Sociologia pelo IESP-UERJ e colabora com a Revista Escuta.

**A imagem que acompanha este texto foi produzida por Gabriel Novaes. Ela foi retirada do site: http://cargocollective.com/gabonovaes/Manifestacoes-Pro-Impeachment

Notas:

[1] HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública. São Paulo: Editora UNESP, 2011, p 135.

[2] idem.

[3] ibidem, p 140.

[4] MELUCCI, A. Acción colectiva, vida cotidiana y democracia. México: El Colegio de México, 1999, p

[5] FRASER, Nancy. Rethinking the Public Sphere: A Contribution to the Critique of Actually Existing Democracy. Social Text (Duke University Press) 25 (26): 56–80, 1990.

[6] YOUNG, I.M. Polity and Group Difference: A Critique of the Ideal of Universal Citizenship. In: Christiano, Thomas (org.). Philosophy and democracy. An Anthology. Oxford: Oxford University Press, pp. 250-274, 2003.

[7] http://noticias.r7.com/cidades/mulheres-fazem-campanha-para-denunciar-amigos-machistas-24112015

[8] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/22/politica/1445529917_555272.html

[9] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/25/opinion/1432564283_075923.html

[10] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p 24.

[11] LORDE, Audre. LORDE, Audre. Sister Outsider: essays and speeches. Berkeley: Crossing Press, 2007, p 133.

[12] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1749640-protesto-cresce-mas-manifestante-mantem-perfil-de-alta-renda.shtml

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