Maria Abreu*

Hoje, dia 3 de março, Vladimir Safatle e Ruy Braga darão uma conferência para o Centro de Estudos Latino-americanos (Center for Latin American Studies) da Universidade da Califórnia (UCLA) em Berkeley, intitulada “A desintegração do lulismo brasileiro (“The Disintegration of Brazil´s Lulismo”).O termo, cuja origem desconheço, foi difundido entre os cientistas políticos a partir de um artigo escrito por André Singer “Raízes sociais e ideológicas do lulismo” e publicado na revista Novos Estudos em 2009. O objetivo de Singer era mostrar que a base eleitoral de Lula nas eleições de 2006 não era a mesma de 2002 e, que, portanto, a primeira não seria uma mera repetição da segunda. Seu argumento central é o de que o eleitorado de Lula, em sua reeleição, não se restringia a uma vertente ideológica de esquerda, mas abrangia a população mais pobre e o proletariado organizado, que optaram amplamente pela sua candidatura, após o primeiro mandato de seu governo. Singer destaca o afastamento da classe média que sempre havia feito parte do conjunto de eleitores do PT.

O sentido do termo utilizado por Safatle e Braga tem uma abrangência maior. Para eles, lulismo parece mais um “modo de fazer a política”, que consistiria na destinação de mais recursos às políticas sociais e, com isso, uma atribuição de prioridade para os mais pobres, sem, contudo, promover a sua emancipação, nem mesmo uma alteração radical na desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. Destaco, aqui, que essa é uma interpretação livre minha de textos jornalísticos dos dois, sem me referir a qualquer definição bibliográfica específica. Safatle já vem apontando, desde o primeiro mandato do governo Dilma, a desintegração do lulismo, que se fundamentaria em sua falha de origem, a ausência de um objetivo de emancipação dos segmentos mais pobres da população.

Mas há um terceiro sentido para o termo lulismo, que acabou sendo adotado de maneira bastante difusa para destacar que o eleitorado de Lula e sua base política seriam diferentes – e mais amplos – do que os do PT, seu partido. De fato, diversas pesquisas eleitorais apontam aprovações maiores a Lula do que ao PT e uma rejeição maior a este do que ao primeiro. No entanto, se é verdade que a figura de Lula atinge positivamente mais pessoas do que o PT, não se pode dizer como decorrência lógica disso que, se Lula saísse do PT, todos os eleitores do partido continuariam votando em sua figura pessoal, incondicionalmente.

Pois é esse terceiro sentido do termo lulismo que quero explorar a partir do pedido de exoneração do então Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no último dia 29 de fevereiro. Cardozo não fez esforço para esconder que a razão de sua saída seria a pressão excessiva do PT para que tivesse atitudes mais incisivas em relação ao cerco a Lula operado nos últimos meses, especialmente pelo Ministério Público de São Paulo e pelos meios de comunicação de maior alcance de público.

Cardozo, que já vinha sendo bastante criticado pela sua omissão em vários pontos caros à esquerda – como o avanço de pautas retrógradas em relação aos direitos humanos no congresso, o retrocesso de conquistas alcançadas anteriormente pelos povos indígenas e a ausência de uma política nacional de segurança, que compreenderia inclusive uma discussão ampla e séria acerca da descriminalização das drogas, condição para o enfrentamento dos problemas gerados pela guerra ao tráfico -, deixa o cargo em um momento delicado, em que tudo o que vier a ser feito a partir de agora em relação às investigações da Polícia Federal que poderiam atingir Lula, será, de forma ainda mais intensa, colocado em dúvida.

Cardozo fazia parte do núcleo decisório do governo Dilma desde a campanha de 2010, para o seu primeiro mandato. Naquela situação, integrava “os três porquinhos”, apelido dado ao trio composto por ele, Antonio Palocci e José Eduardo Dutra, que coordenava a campanha de Dilma. Em contrapartida, na sua trajetória no PT, nunca esteve alinhado à ala mais próxima de Lula. Apenas para citar um episódio que indique isso, em 2007, foi candidato à presidência do partido, pelo grupo Mensagem ao PT, movimento que apresentou plataforma com ênfase na democracia partidária e retorno aos princípios do partido. Nessa eleição, o vencedor foi Ricardo Berzoini.

Dilma, por sua vez, foi filiada ao PDT até 2001, quando se filiou ao PT para participar do programa de governo de Lula na área energética. Ganhou confiança de Lula como Ministra das Minas e Energia e, mais ainda, quando assumiu a Casa Civil após a saída de José Dirceu. Deixou o cargo para concorrer à presidência em 2010. Se nesta eleição foi vista como uma candidata cujo suporte eleitoral era conferido por Lula, em 2014 sua figura se autonomizou e suas qualidades pessoais foram colocadas mais em destaque, para além do legado do governo Lula.

O segundo mandato de Dilma vem há tempos sendo questionado pelo PT, tanto por conta dos rumos de sua política econômica, quanto por suas omissões em relação às irregularidades das investigações envolvendo políticos do partido. No último dia 26, na festa de aniversário do partido, a política econômica esteve em destaque, com o pedido de elaboração de um “Plano Nacional de Emergência”, para que houvesse uma retomada do gasto público, tanto em investimentos, como em programas sociais. Dilma, por sua vez, afirmou que não governa somente para o PT. Embora ela esteja certa, também é certo que, sem o apoio do PT, um partido forte no congresso e ainda influente na atuação de diversos movimentos sociais, seu governo fica mais difícil.

A saída de Cardozo do Ministério da Justiça, embora tenha sido a pedido do próprio, e ele não tenha deixado o governo, assumindo a Advocacia Geral da União (AGU), é uma vitória do PT sobre o governo Dilma. Mais especificamente, é uma vitória do PT alinhado a Lula sobre o governo Dilma. É difícil identificar quem apoia Dilma incondicionalmente. Em uma queda de braço entre ela e Lula – o que pode acontecer, para viabilizar a eleição de Lula em 2018 –, com o aceno do PT de abandonar seu governo, quem ficaria ao lado de Dilma?

Por outro lado, Lula sabe que, ainda que seu alcance eleitoral seja maior que o do PT, os votos deste não se transfeririam automaticamente para ele numa eventual candidatura em outro partido. Sem o PT, Lula perderia parte de sua base, não só eleitoral como política. Não está no horizonte que Lula saia do PT, porque ele não está interessado nisso, nem a maioria do partido.

Com isso, pode-se dizer que Dilma está isolada em um partido que é muito maior do que ela e está atuando de forma a preservar a si mesmo como partido, ainda que isso signifique sacrificar o seu governo. Como a oposição acena com o impeachment, serão cada vez mais duros para ela os próximos dias de governo. Em um certo sentido, ela está em uma situação pior que a de Fernando Collor, em 1992, que se encontrava isolado, em um partido criado para a sua candidatura – o PRN. Dilma está isolada em um partido forte, que não está a seu favor.  Não se sugere, com isso, que há grande probabilidade de impeachment, pois o país mudou e, embora politicamente Dilma esteja mal, o país não está nas condições em que estava com Collor, nem política, nem econômica, nem socialmente.

O que sustenta Dilma, hoje, parece ser a própria democracia brasileira, como sistema institucional. Isso, sem dúvida, é algo a ser comemorado. Mas será preciso testar tanto assim as instituições? Os custos dessa tensão, que parece ser aliviada sempre que o impeachment é afastado como possibilidade por meio de pareceres jurídicos, podem ser socialmente muito altos.

*Maria Abreu é doutora em Ciência Política pela USP, professora e pesquisadora do IPPUR-UFRJ, além de colaboradora da Escuta.

 

 

 

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