Mayra Goulart*

1. Rio Maravilha ou a história de uma decadência:

 A história do Rio de Janeiro desde a metade do século XX pode ser resumida a uma palavra: decadência. Em termos econômicos o município nunca exibiu qualquer tipo de vocação produtiva, excetuando o turismo. Porém, até 1960, o fato de sermos a capital do país nos garantia prestígio, além de uma situação fiscal privilegiada e postos de trabalho no aparato estatal aqui instalado. Estes foram os tempos de glamour. Daí para frente, fomos ladeira abaixo.

A derrocada não foi abrupta, pois, amortizada durante os 14 anos em que fomos uma cidade-estado – paliativo esdrúxulo, que, na prática, funcionou para isolar o tesouro carioca do restante dos municípios fluminense, consideravelmente mais pobres[1]. A alegria durou pouco. Em 1974, Ernesto Geisel pôs fim aos nossos privilégios, sentenciando-nos a compartir nossos recursos com o restante do estado.

Na primeira década do século XXI, parecia que os anos de decadência iriam ter fim. O boom petroleiro da Bacia de Campos, alimentou o orgulho do carioca. Era o Rio Maravilha, adjetivo utilizado em vários programas que marcam a administração do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) no Rio de Janeiro. Dentre eles, o mais importante é o Porto Maravilha, que visa uma faraônica reforma em uma área de mais de cinco milhões de metros quadrados circundando a Zona Portuária da cidade[2]. Há, contudo, outras empreitadas que levam o nome como o Polo Maravilha, destinado ao setor turístico[3], e o Bairro Maravilha[4], destinado à recuperação de áreas da cidade através de obras de urbanização.

O boom petroleiro, as reformas e os grandes eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas) culminam a era de ouro do PMDB-RJ, estruturada discursivamente em torno dos temas do desenvolvimento econômico, da urbanização e da segurança pública. A hegemonia da agremiação no estado é objeto deste texto que buscará suas raízes em dois fatores distintos, porém interligados. O primeiro é o legado de Chagas Freitas governador da Guanabara (1971-1975) e do Rio de Janeiro (1979 – 1983), que dominou a cena pública carioca até o início da década de 1980, quando foi surpreendido pela ascensão de Leonel Brizola, eleito governador do estado por duas vezes (1983-1987 e 1991-1994) pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). O segundo fator é, por conseguinte, o declínio do brizolismo, que, até o final do século XX[5], manteve-se como principal força política no estado.

 

2. Os herdeiros de Brizola e a maldição de Chagas.

 

Como lemos em Sento-Sé (2002, 1999), durante duas décadas, a política carioca girou em torno de discursos brizolistas, categoria criada pelo autor para designar posicionamentos pró e contra o ex-governador, ainda que, originalmente tenha sido constituído com o propósito de pavimentar seu percurso até a Presidência da República (SENTO-SÉ, 2002, 87). Nas palavras do autor:

 

“A filiação ao passado mediante a criação de uma narrativa sobre o Brasil republicano foi uma marca do discurso brizolista. Além disso, foi uma tônica daquilo que veio a se tornar o brizolismo. Tal pertencimento foi repetidamente esgrimido, não somente por brizolistas, mas também por não-brizolistas e anti-brizolistas, já a partir de fins de 1978, quando a lei da anistia ainda era objeto de debates e representantes da chamada linha dura do regime militar advogavam uma anistia seletiva, que excluísse alguns exilados considerados perniciosos e indesejáveis. Evidente- mente, os sinais, positivo ou negativo, aduzidos a esse legado, variavam de acordo com o lugar ocupado por aqueles que o enunciavam. A polêmica foi possível em função da ambivalência que atravessava as percepções do período em questão (1930/1964) e das causas que levaram ao golpe militar.” (SENTO-SÉ, 2002,89)

 

Nesta medida, para compreendermos a origem da polarização entre PDT e PMDB é preciso resgatar o processo de formação dos partidos políticos ao final do regime militar, atentando para o modo como as novas agremiações se distribuíram no imaginário carioca. Criado em 1966 para abrigar a oposição consentida ao regime, o MDB foi extinto em 1979, quando decretado o fim do bipartidarismo no país. Neste ano, foi criado o PMDB, para abrigar a maioria de seus egressos, liderados por Ulysses Guimarães. Alguns dissidentes, em especial aqueles que mantinham boas relações com os militares, se vincularam ao Partido Popular (PP), liderado por Tancredo Neves.

Nesta conjuntura, o PMDB fluminense reivindicou o papel de força de resistência contra a ditadura. Por este motivo, embora tenha sido eleito governador em 1979 pelo MDB, Chagas Freitas teve seu ingresso no PMDB vetado exatamente em virtude de suas relações com o antigo regime. Não obstante, em diante do insucesso do PP, que não conseguiu estabelecer-se no plano nacional, Freitas e seus demais membros são incorporado ao PMDB em 1981.

O PDT, por sua vez, surge marcado por uma dupla disputa: com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), lutava pelo legado nacionalista, republicano e trabalhista associado à memória de Getúlio Vargas, e, com o recém criado Partido dos Trabalhadores (PT), disputava o papel de representante dos excluídos e dos movimentos sociais (SENTO-SÉ, 2002, 89-90). O discurso brizolista, portanto se identifica com a social democracia e com o novo trabalhismo, porém, desenvolve também uma feição identitária, mediante referências “às causas dos negros, dos favelados, dos habitantes das periferias, das nações indígenas, das mulheres pobres, às causas, enfim, das massas desorganizadas e excluídas da sociedade formal” (idem, 94). Sua memória, por conseguinte, está associada a “iniciativas de governo que, bem ou mal sucedidas, reiteraram esse vínculo, e sua implementação foi sempre cercada de imagens que o reforçassem”(ibidem).

Sendo assim, ainda que inicialmente centrada na figura de Leonel Brizola, a disputa entre PDT e PMDB, utrapassa seu sepultamento físico e político, uma vez que diz respeito ao confronto entre dois discursos acerca do papel da administração pública na região. Por um lado o PDT surge com um forte discurso social e trabalhista, voltado para habitantes das áreas populares que caracteriza o brizolismo (FIGUEIREDO; VEIGA; ALDE, 2000). Por outro o PMDB e os demais partidos que circundam em seu espectro, com um perfil mais conservador, direcionado aos eleitores das áreas mais nobres da cidade e centrado nas ideias de eficiência, gestão, urbanização e segurança pública (DOS SANTOS; TRAVAGIN, 2014, 122).

Não obstante, embora tenham sido eleitos com discursos críticos ao antigo líder, o Rio de Janeiro esteve sob a égide de egressos do PDT nas duas décadas que sucederam o último governo de Brizola: Cesar Maia – eleito prefeito do Rio por 3 mandatos (1994-1997, 2001-2005 e 2005-2009), intervalados pelo governo de Luiz Paulo Conde, seu então secretário de urbanismo – e Anthony Garotinho – governador entre 1999 e 2002, quando foi sucedido por sua esposa, Rosinha Garotinho (2002- 2007)[6]. Desde então, cariocas e fluminense convivem uma incontestável hegemonia do PMDB, partido no qual iniciaram suas carreiras os governadores Sérgio Cabral (2006-2010, 2010-2014) e Luiz Fernando Pezão (2014-), além do prefeito Eduardo Paes (2009-2012, 2012-).

Como afirmam Figueiredo, Veiga e Alde (2000) as eleições de 1992 e de 1994 marcam o fim da clássica divisão eleitoral do Rio de Janeiro, tendo em vista a emergência de novos discursos.

 

“Pela esquerda surge o PT, cujos votos vinham inicialmente da Zona Sul e que hoje se espalham por toda a cidade, especialmente sob a liderança de Benedita da Silva. Pelo centro surge César Maia, eleito prefeito em 1992, pelo PMDB, vencendo Benedita da Silva no segundo turno, com apoio não formal do prefeito Marcello Alencar (então PDT). Esta foi a primeira derrota do trabalhismo brizolista, da qual não se recuperou mais até hoje” (FIGUEIREDO; VEIGA; ALDE, 2000, 16).

 

Para além do sepultamento da herança brizolista, o triunfo do PMDB-RJ representa a vitória de um estilo de governo, isto é, a derrota do carisma pela máquina. De acordo com Sento Sé, tal sepultamento também tem como marco o ano de 1994, quando Brizola teve um desempenho pífio na eleição presidencial. Nesta altura, “não apenas o discurso brizolista perdeu boa parte de seu vigor como também a própria figura de Brizola passou a não mobilizar tanto aqueles que o rejeitaram, o que equivale a dizer que o brizolismo, como fenômeno político, deixou, pouco a pouco, de ser central nos debates públicos cariocas” (SENTO-SÉ, 2002, 99).

Para compreendermos este processo, é preciso, todavia, retornar ao antigo estado da Guanabara, palco de uma das mais interessantes disputas políticas de todos os tempos, travada entre Carlos Lacerda e Chagas Freitas. Precisamente analisada por Marly Motta (1999, 2000 e 2001), o confronto entre as duas figuras é util para compreender os modos de estruturação da política no estado, que, de acordo com a autora, tem sido marcado por três elementos: nacionalização, personalização e polarização e pala constituição de uma identidade política ambígua, dividida entre as lógicas federal e local; autonomista e intervencionista; política x administrativa (MOTTA, 1999, 3).

De seu período como capital do país, o município herdou uma imagem de vitrine da nação e baluarte da unidade nacional, que, supostamente, pairaria sobre as dinâmicas localistas e clientelísticas da política provinciana (Idem, 4), servindo de cenário para a disputas entre as ideologias e elites capazes de conduzir a nação. De fato, em nossa história recente, observamos que a política carioca tem sido utilizada como plataforma por parte de lideranças desejosas de serem catapultadas ao governo federal, o que supostamente aumenta o peso das coligações determinadas em nível nacional. Porém, quando a análise leva em consideração o restante do estado, é possível observar uma certa autonomia das articulações e lideranças locais, estabelecidas através de dinâmicas territoriais, corporativas e religiosas restritas espacialmente.

Por esta razão, em um contexto no qual as eleições para o Legislativo e o Executivo Nacionais se encontram polarizadas pela disputa entre as coligações capitaneadas pelo PT e pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), é possível observar que nos planos municipal e estadual não vigoram os mesmos condicionantes ideológicos. Ao contrário, PT e PSDB poucas vezes destacaram-se na política fluminense. Os tucanos elegeram apenas um governador, Marcello Alencar (1995-1999) e um vice-prefeito, Otávio Leite (2005-2009), enquanto o PT elegeu uma vice-governadora, Benedita da Silva (1999-2002) e o atual vice-prefeito da capital, Adilson Pires (2012-) (DOS SANTOS; TRAVAGIN, 2014, 122).O alto nível de fragmentação das coligações, por sua vez, pode ser explicado pelo caráter pragmático e ad hoc das alianças estabelecidas no plano local através de redes de “obrigações recíprocas” e assimétricas, formando o que se pode chamar de eleitorado cativo, que vota em determinados candidatos”(MOTTA, 1999, 5). Por outro lado, sobressai a falta de alinhamento entre as coligações formadas em âmbito municipal, estadual e nacional, o que se pode observar por meio de uma breve análise dos processos eleitorais ocorridos nos últimos dois anos.

Nas eleições para prefeitura, em 2012, PMDB, PDT e PT estavam unidos em uma frente de centro-esquerda denominada “Somos todos um Rio”, integrada também pelo Partido Social Democrático (PSD), pelo Partido Social Liberal (PSL), pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)[7]. No entanto, dois anos depois, o PMDB capitaneou duas alianças passíveis de serem situadas no espectro da centro-direita. A primeira, formada para o lançamento de candidatos a Deputado Federal, era integrada por PP, PSD, PTB, PSC. A segunda, voltada ao executivo estadual, era formada por PSDB, DEM, PPS, PTB, PSD, PHS, PP, PTN, PEN, PSL, PMN, PTC, PRP, PSDC, PRTB, Solidariedade (SDD) e PSC. Esta aliança, denominada “O Rio em Primeiro Lugar”, foi apresentada em oposição à “Frente Popular” formada em apoio ao candidato petista Lindberg Farias[8].

Ainda 2014, porém nas eleições para o executivo nacional, PMDB e PT integravam uma mesma coligação formada em apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Denominada “Com a Força do Povo” e incluindo PSD, PP, PR, PDT, PRB, PROS e PCdoB, esta frente se opunha àquela lançada em torno do candidato oposicionista Aécio Neves, denominada “Muda Brasil” e integrada por PSDB, SDD, PMN, PEN, PTN, PTC, DEM, PTdoB e PTB à qual, no segundo turno, se somaram os principais partidos que integravam a coligação formada em torno da candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva, denominada “Unidos pelo Brasil” (PSB, PPS, PSL, PHS, PPL e PRP).

A falta de coerência ideológica e o caráter arbitrário das coligações diminuem a representatividade do Legislativo brasileiro, na medida em que sua dinâmica fica à reboque da disputa eleitoral para o Executivo. No plano subnacional, observa-se que a articulação dos interesses se volta sobretudo às eleições para prefeito e governador, “tendo em vista a característica da carreira política no país ter como prêmio maior o executivo, esfera que administra a maior parte dos recursos públicos” (DOS SANTOS; TRAVAGIN, 2014).

Por outro lado, a reprodução do presidencialismo de coalizão[9] no plano subnacional aumenta o caráter pragmático dessas articulações, nas quais os cargos legislativos são usados como instrumentos de barganha. Longe de ser produto do gênio humano de Chagas Freitas, esse sistema tem suas raízes em uma legislação eleitoral que combina um sistema de eleições proporcionais para o Legislativo, sem estabelecer barreiras significativas à fragmentação (NICOLAU, 1996).

Como salienta Jairo Nicoulau (1996), as regras eleitorais determinam o espectro de oportunidades no qual são estabelecidas as alianças políticas, servindo como variável capaz de distorcer ou estimular a representatividade política e o debate ideológico. Porém, na medida em que inexiste uma regra que organize a distribuição das cadeiras entre os partidos com base estritamente na votação alcançada (NICOLAU, 2002), partidos que nacionalmente são pouco representativos da opinião pública, se encontram sobrerrepresentados no Congresso Nacional, por integrarem coligações vitoriosas. Ademais, a escassez de limites à fragmentação partidária eleva o custo político para a formação de coalizões ((DOS SANTOS; TRAVAGIN, 2014, 125), diluindo seu conteúdo ideológico.

 

3. Hércules e a Hidra.

 

Voltando ao duelo do homem contra a máquina, encenado primeiramente por Carlos Lacerda e Chagas Freitas e reeditado, após a reunificação do estado, com Leonel Brizola no papel de líder carismático, é interessante observar como o Rio de Janeiro tem sido utilizado na construção de debates nacionais, por parte de políticos que têm como ambição a Presidência da República. Com o declínio do brizolismo, o script do cavaleiro solitário continuou sendo encenado, porém, de modo mais discreto e menos exitoso.

Por outro lado, atuando nas sombras e sem grandes arroubos retóricos, Chagas Freitas, segue como chave explicativa para a compreensão dos processos políticos no estado, haja vista seu papel como artífice da política provinciana das alianças, configuradas a partir de vínculos de pertencimento menos abstratos e ideológicos, porém capazes de formar uma máquina eleitoral imbatível.

Neste esquema, a governabilidade do estado não é produto do carisma do líder e de seu encantamento sobre os subordinados. Ela é garantida pela máquina que se apresenta como uma rede de clientela sustentada pelo acesso aos bens públicos e articulada em torno de diferentes lideranças locais, que podem surgir das associações de moradores, de grupos religiosos, de representantes corporativos (taxistas, cabelereiros, médicos) e etc.

O êxito dessa estratégia, cuja origem está no investimento prioritário de Freitas na representação estadual, permitiu que ele deixasse como legado ao MDB uma sólida, robusta e fiel bancada parlamentar na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa que, na altura, chegou a eleger 75% dos seus integrantes[10]. Trinta anos depois, após ter triunfado sobre a ameaça brizolista, o PMDB volta a ser hegemônico no Legislativo fluminense, possuindo a maior bancada da ALERJ, que reúne deputados de 24 partidos diferentes e se caracteriza pela fragmentação e pela presença de figuras locais, eleitas por partidos pequenos, sem interlocução nos debates ideológicos nacionais[11].

A maldição de Chagas se traduz, portanto, em um bloqueio das forças de esquerda no estado que tem dificuldade de acessar os eleitores nos municípios menores. Diante disso, ou os partidos fazem uma opção pelos grandes centros, como tem sido o caso do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), ou se aliam ao PMDB, como tem feito o PT, pagando o preço da diluição ideológica e das dinâmicas de barganha determinadas pela máquina.

Dessa forma, como alertam Marcus Figueredo e etc, em XX:

 

“Se nos anos 90 a cidade incorporou novos atores e práticas ao debate sobre o urbano, é forçoso perceber que a esquerda não conseguiu interpelar produtivamente esse cenário. Em 1996, 2000 e 2004 nenhuma candidatura identificada com esse campo sequer chegou ao segundo turno, disputado invariavelmente entre César Maia, seus seguidores posteriormente convertidos em dissidentes e eventuais lideranças alternativas. A modernidade urbana foi discurso orientado sob condução liberal-conservadora, incorporando pontos da agenda progressista (a urbanização de favelas e o fim das remoções, por exemplo) e modos de gestão tecnicistas e pouco afeitos à democratização mais ampla da vida social e política (FIGUEIREDO; VEIGA; ALDE, 2000, 16).

 

A despeito de sua composição, que inclui o crime organizado na sua rede de obrigações[12], a máquina é capaz de manter a fidelidade de seus membros formais e informais, garantindo apoio legislativo e eleitoral ao governador, que, por sua vez, coordena a rede de clientela, operacionalizada pelos líderes locais.

Essa estratégia, que inclui também as prefeituras dos demais municípios do estado, está em constante aperfeiçoamento. Em 2012, o PMDB integrava metade das chapas vitoriosas nas eleições para o executivo municipal, muitas vezes abrindo mão da escolha do candidato em favor de partidos menores (Santos e Travagin, 2006), que, em troca, garantem apoio aos projetos do partido nas Câmaras de Vereadores municipais e na Assembleia estadual.

A ideia de que a máquina PMDBista no estado funciona como um autômato monstruoso capaz de prescindir do carisma do líder – cuja cabeça pode ser cortada sem ameaçar sua sobrevivência – nos ajuda a compreender a improvável sucessão entre Sérgio Cabral e Luis Fernando Pezão. Tendo militado no PMDB durante sua juventude, Cabral migrou para o PSDB durante a década de 1990, quando foi eleito deputado por três vezes (1990-1994-1998), duas delas com votações recordes no estado. Em 1999, Cabral volta para o PMDB e se elege senador e, em 2006 e 2010, governador. Era uma estrela ascendente, com ampla projeção nacional até junho de 2013.

Nesta ocasião, em um fenômeno cuja compreensão desafia até hoje os analistas[13], cidadãos de diferentes estados do país foram às ruas manifestar sua indignação com a qualidade dos serviços oferecidos pelo poder público, em especial, no que diz respeito ao espaço urbano. No longo prazo, essa insatisfação foi direcionada ao governo federal servindo de estopim para uma radicalização da oposição e para uma debandada geral na heterogênea base aliada do PT, em especial no que diz respeito ao PMDB. Entretanto, no momento em que se deflagraram, tais protestos se dirigiam às administrações locais, responsáveis por gerenciar os serviços públicos relativos à ordem urbana. Esses cidadãos resolveram expressar coletivamente sua indignação com o tratamento abjeto a eles oferecidos pelo poder público. Pouco estruturada em termos de liderança e ideologia, a raiva dos manifestantes se dirigia aos políticos locais e exigia sua cabeça.

No Rio de Janeiro, contudo, havia duas opções para a guilhotina: o prefeito, Eduardo Paes, e o governador, Sérgio Cabral[14]. O primeiro, por ter sido recém-reeleito e ainda gozar dos efeitos de uma caríssima e eficiente campanha publicitária, foi poupado. O segundo, por estar a mais tempo no governo e por ser mais conhecido entre a população, foi o escolhido[15]. Após dias convivendo com dezenas de manifestantes cercando sua residência, exigindo sua destituição, em um movimento auto-denominado Ocupa Cabral[16], o governador renunciou.

Era de se esperar um abalo nas estruturas do PMDB-RJ, afinal, a máquina havia perdido sua cabeça. Pequeno foi o impacto sofrido. Pouco mais de um ano depois, a hidra já havia substituído o membro decepado. O vice-governador, que assumira o cargo após a renúncia de Cabral, foi eleito com 55,78% dos votos válidos. Foi a derrota da política dos homens e a ratificação do sepultamento do legado brizolista, uma vez que o anônimo Pezão derrotou Anthony Garotinho e Lindberg Farias[17], rivais carismáticos e amplamente conhecidos pela população. Foi uma vitória da máquina e não do homem.

Figura dos bastidores, negociador, pouco carismático, taciturno e até então desconhecido do restante da população, Pezão é um produto da maldição lançada por Chagas Freitas, que assume a forma de um autômato político capaz de prescindir dos indivíduos que o constituem, reduzidos à função de peças substituíveis em uma engrenagem.

Não obstante, é preciso salientar que, a despeito de suas singularidades regionais e de seu enraizamento local, tal maldição não se limita às fronteiras fluminenses. O monstro tem seus tentáculos, ou melhor, suas cabeças, espalhadas por todo o território nacional, sendo a maior força política do país. Igualmente descartáveis quando necessário à sobrevivência da hidra, essas lideranças regionais, em contrapartida, gozam de um grau considerável de autonomia, sendo essa a chave do sucesso do PMDB. Pois, apesar da projeção alcançada por alguns de seus quadros, o partido funciona como uma hidra[18], capaz de repor suas cabeças quando decepadas. Diferentemente de outros partidos, que sangram e definham quando suas lideranças são atingidas. É o caso do PDT, que jamais foi capaz de se reinventar após o ocaso de seu patrono. Na conjuntura atual, todavia, sobressai o declínio do PT, cuja imagem foi irremediavelmente maculada pelo envolvimento de seus líderes em denúncias de corrupção. Enquanto isso, o PMDB permanece incólume ao desgaste político dos seus mais emblemáticos membros e, impassível, prepara-se para lançar o próximo presidente da República.

 

Bibliografia:

 

CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. Dados, v. 40, n. 2, 1997.

 

DOS SANTOS, Rodrigo Dolandeli; TRAVAGIN, Letícia Bona. As eleições para prefeito no estado do rio de janeiro de 1996 a 2012: uma análise sobre nacionalização, partidos políticos e coalizao governista subnacional. Texto apresentado na II Semana de pós graduação em ciência política: Repensando a trajetória do Estado Brasileiro, 1-21, 2014. Acessível em: http://www.semacip.ufscar.br/wp-content/uploads/2014/12/As-elei%C3%A7%C3%B5es-para-prefeito-no-estado-do-Rio-de-Janeiro-de-1996-a-2012-uma-an%C3%A1lise-sobre-nacionaliza%C3%A7%C3%A3o-partidos-pol%C3%ADticos-e-coaliz%C3%A3o-governista-subnacional..pdf. Acessado em 24/02/2016.

 

FERNANDES, Camila Formozo. A Evolução da Arrecadação de Royalties do Petróleo no Brasil e seu Impacto sobre o Desenvolvimento Econômico do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Universidade Federal do Rio de Janeiro: Instituto de Economia, 2007.

 

FIGUEIREDO, Marcus; VEIGA, Luciana Fernandes; ALDE, Alessandra. Rio de Janeiro: César versus Conde e a nova política carioca. Estratégia, mídia e voto: a disputa eleitoral em, p. 49-89, 2000.

 

MOTTA, Marly Silva da. Carisma, memória e cultura política: Carlos Lacerda e Leonel Brizola na política do Rio de Janeiro. Locus (Juiz de Fora), Juiz de Fora, v. 7, n.2, p. 73-84, 2001.

 

MOTTA, Marly Silva da. Frente e verso da política carioca: o lacerdismo e o chaguismo. Estudos Históricos (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 13, n.24, p. 351-376, 1999.

 

MOTTA, Marly Silva da. Mania de estado: o chaguismo e a estadualização da Guanabara. História Oral (Rio de Janeiro), São Paulo, v. 3, p. 91-108, 2000.

 

NICOLAU, J. Multipartidarismo e democracia: um estudo sobre o sistema partidário brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1996.

SENTO-SÉ, João Trajano. “O discurso brizolista e a cultura política carioca.” Varia História: 85-104, 2002.

 

SENTO-SÉ, João Trajano. Brizolismo: estetização da política e carisma. Espaço e Tempo, 1999.

 

* Mayra Goulart é professora de Teoria Política e Política Internacional e Vice-Coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ),  Coordenadora do Observatório dos Países de Língua Oficial Portuguesa (OPLOP/UFF), Pesquisadora Visitante do CIES (ISCTE/IUL) e colaboradora da Revista Escuta. Email: mayragoulart@gmail.com

** A imagem que acompanha este texto foi produzida por Pierre Salsiccia. Ela foi retirada do site: http://fineartamerica.com/featured/2nd-labor-of-hercules-the-lerna-hydra-pierre-salsiccia.html

[1] Ao final do século XX, a região metropolitana do Rio de Janeiro ainda era responsável por 72% do PIB fluminense, situação que foi ligeiramente suavizada pela exploração de petróleo na Bacia de Campos, município que, em seu auge, chegou a aportar 18.96% deste montante (FERNANDES, 2007, 27).

[2] Ver: http://www.portomaravilha.com.br/portomaravilha.

[3] Ver: http://www.acrj.org.br/noticias/polo-maravilha-aguarda-licenca-da-prefeitura-do-rio-2015-11-17.

[4] Ver: http://www.rio.rj.gov.br/web/smo/exibeconteudo?id=1030913

[5] Em 1999, Anthony Garotinho foi eleito governador pelo partido. Em 2000, ele se desfiliou do PDT para concorrer à Presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Em 2002, sua esposa Rosinha Garotinho, é lançada pelo PSB e vence à disputa pelo governo do estado.

[6] Segundo Sento Sé, uma das razões para a diáspora de líderes pdtistas está na centralização do partido nas mãos de Brizola, agravadas conforme malogravam suas investidas eleitorais (SENTO-SÉ, 2002, 102).

[7] Também formavam a frente “Somos todos um Rio”: Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido da Mobilização Nacional (PMN), Partido Humanista da Solidariedade (PHS), Partido Popular Socialista (PPS), Partido Progressista (PP), Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), Partido Republicano Brasileiro (PRB), Partido Republicano Progressista (PRP), Partido Social Cristão (PSC), Partido Social Democrata Cristão (PSDC), Partido Trabalhista Cristão (PTC), Partido Trabalhista do Brasil (PTdoB) e Partido Trabalhista Nacional (PTN)

[8] Além do PT, integravam a frente popular o Partido Verde, o PSB e o PCdoB.

[9] Entendido como uma forma histórica de relacionamento entre Executivo e Legislativo através da formação de grandes coalizões. Ver: Abranches, Sérgio. Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro. Dados, 31 (31), 1988. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1988.

[10] O período em questão é 1970-1974. Ver: SARMENTO, Carlos Eduardo (org.). Chagas Freitas. Rio de Janeiro, Editora Fundação Getulio Vargas, 1999 (coleção Perfil Político).

[11] Na legislatura 2011- 2014, PMDB possuia 16 dos 70 deputados da ALERJ. Em segundo lugar, estava o Partido Social Democrático com 9 deputados, seguidos de PDT e PT, com seis deputados cada, além de 12 partidos com representação de apenas 1 deputado. Na legislatura de 2015-2019, o PMDB passou a ter 15 deputados, porém continua sendo a maior bancada da ALERJ (Ver: http://www.alerj.rj.gov.br/deputados2.htm).

[12] Em 2008 foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar a ação das milícias no estado do Rio de Janeiro, durante o processo observou-se o apoio dos grupos criminosos a diferentes parlamentares. O relatório final da CPI pode ser acessado em: http://www.nepp-dh.ufrj.br/relatorio_milicia.pdf

[13] Há uma vasta bibliografia sobre o assunto, dentre ela cabe destacar os textos veiculados na Revista Escuta e no Observatório dos Países de Língua Portuguesa (OPLOP). Ver: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/02/15/as-ressacas-de-junho/;

http://www.oplop.uff.br/relatorio/anonimo/2769/relatorio-oplop-27-leituras-das-manifestacoes-de-junho-de-2013-no-brasil-I; http://www.oplop.uff.br/relatorio/anonimo/2770/relatorio-oplop-28-leituras-das-manifestacoes-de-junho-de-2013-no-brasil-ii; http://www.oplop.uff.br/relatorio/anonimo/2771/relatorio-oplop-29-leituras-das-manifestacoes-de-junho-de-2013-no-brasil-iii.

[14] Ambos tiveram sua popularidade impactada pelos eventos de junho. O primeiro perdeu 20 pontos percentuais enquanto o segundo perdeu 30. De acordo com a  série do instituto Datafolha, atualizada em pesquisa realizada nos dias 27 e 28 de junho de 2013,  Paes tinha aprovação 38% em março de 2009, chegando a 50% em agosto de 2012. Após as manifestações que tomaram conta da cidade, o índice baixou para 30%. Cabral, que em novembro de 2010 tinha 55% de aprovação, caiu para 25%. (Ver: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/07/aprovacao-de-sergio-cabral-cai-de-55-para-25-aponta-datafolha.html).

[15] A primeira e principal demanda dos manifestantes dizia respeito ao alto preço e à péssima qualidade dos transportes públicos. Sendo assim, também pesou contra Cabral o fato de sua esposa, Adriana Anselmo, ser sócia do escritório de advocacia que presta serviço para algumas das concessionárias encarregadas do transporte no Rio de Janeiro: a Supervia e o Metrô Rio.

[16] Em referência ao Occupy Movement, iniciado em 2011, com uma série de manifestações contra as grandes corporações e a desigualdade econômica, em um movimento a princípio conhecido como Occupy Wall Street, porém que foi atingindo um caráter global, sendo disseminado por 82 países.

[17] Assim como Garotinho, Lindiberg também começou sua carreira política no PDT,

[18] A hidra é um animal da mitologia grega com várias cabeças de serpente. O seu sangue assim como o seu hálito era venenoso. Se suas cabeças fossem cortadas, elas voltavam a nascer. (http://www.dicionariodesimbolos.com.br/hidra/)

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