Jorge Chaloub

Mais de dois anos após as Jornadas de Junho, ainda é difícil precisar seus efeitos na política e na sociedade brasileira. Em meio a um amplo leque de opiniões e análises, restam mal formuladas, como é natural com eventos desse tipo, as respostas para importantes questões que cercam o acontecimento. Não faltam interpretações, mas o debate tem sido usualmente marcado, e prejudicado, por um afã hiperbólico, que exagera, em sentidos diversos, as feições do evento. Junho, desse modo, ou assume a feição de uma caixa de pandora, responsável por expor ao sol e fortalecer todas as mazelas pátrias, ou toma o lugar de evento inédito e fundador, legítimo abre alas de um novo país que ainda não se construiu, mas já se anuncia no horizonte. A ânsia por determinar consequências diretas e evidentes das jornadas, esforço sempre árduo ante a proximidade dos acontecimentos, leva ao exagero dos traços e acaba por atribuir ao evento mais influência do que ele de fato tem.

A interpretação de que Junho constitui algo completamente inédito muitas vezes se ampara na ideia de uma congênita passividade do povo brasileiro, que teria assistido bestializado, sem maior protagonismo, ao desenrolar da história nacional. Se, por um lado, é necessário criticar a constante violência contra as massas que marcou nossa história e os discursos demofóbicos que a atravessaram, é necessário, por outro lado, não ignorar os esforços de criatividade e resistência que lhe fizeram contraponto. A imagem de um povo passivo e silente não apenas não faz jus à complexidade da nossa formação nacional como, por outro lado, compõe um todo harmônico com grande parte dessa demofobia, de práticas e ideias, acima mencionada. O desafio de se criticar as exclusões sem perder vista da resistência não é simples, mas constitui, por outro lado, importante tarefa.

2013, nesse sentido, não representa fenômeno inédito, mas porta inegável continuidade com uma tradição nacional de protestos populares contra os desmandos do poder, passível de ser remetida – evidentemente que com inúmeras mediações – às mais recentes revoltas do Buzu e da Catraca, em Salvador e Florianópolis, às diversas formas de resistência à ditadura militar, ou mesmo aos tumultos da rua da capital, cujo isolamento era necessário, segundo Campos Sales, para construir uma ordem estável para a República que então nascia. Reconhecer essas continuidades não reduz a importância do fenômeno, mas permite compreendê-lo de modo mais adequado, sem que as novidades na linguagem dos movimentos sociais, fortemente presente no mais recente evento, ofusquem outras facetas menos evidentes.

Da parte dos seus mais severos críticos, 2013 é correntemente interpretada através de dois fenômenos que lhe seguiram: o fortalecimento de um novo discurso de direita e a crescente perda de força política do PT. Os dois eventos são, ademais, frequentemente vinculados, o que leva a uma interpretação de que Junho na verdade não passou de movimento dominado pela direita, em que pese o inicial protagonismo de uma esquerda que, inconsequentemente, abriu as portas para a escalada de um discurso reacionário. Amparada em olhar diverso, a interpretação também nutre um olhar hiperbólico sobre as Jornadas, às quais se atribui mais responsabilidades e consequências do que se é possível, mesmo que preliminarmente, delinear.  Por outro lado, a perspectiva reduz a complexidade do movimento a uma das pautas que atravessou as ruas, mas esteve longe de assumir nelas o protagonismo, e deixa à margem outros importantes fatores, que ajudam a explicar o cenário contemporâneo.

Quais seriam, então, as marcas mais visíveis que Junho deixou na sociedade brasileira? Penso, sobretudo, em três heranças: a radicalização dos embates políticos, o fortalecimento de um discurso de descrença nas instituições e a valorização das performances públicas como parte central do jogo político. Imbricados e mutuamente determinados, esses três aspectos ajudam a compreender as mudanças na fisionomia do país após as manifestações, mesmo que não possam ser exclusivamente atribuídos a elas.

A radicalização dos embates públicos – passível de ser definida como a apresentação das disputas políticas em termos de tudo ou nada, bem ou mal – é característica sensível cenário político dos últimos anos. Se ainda resta saber o quanto desse processo ultrapassa o plano da retórica, assim como verificar suas possibilidades de ultrapassar o relevante campo das redes sociais, que parecem revigorar esse tipo de postura, não resta dúvida de que mesmo os partidos que atuavam como operadores do sistema assumiram aparência crescentemente facciosa.

O fenômeno não tem início com a manifestações, nem pode ser circunscrito às fronteiras brasileiras – como um breve olhar para os cenários políticos norte-americano, europeu e latino-americano permite verificar –, mas ganha força após as Jornadas, das quais assume um imaginário de pronta e imediata resolução das mazelas nacionais através do confronto público. Não falo, deve-se ressaltar, do mito construído em torno dos black blocs, fenômeno complexo, porém com muito menos importância do que costumeiramente lhe atribuem, mas da crescente afirmação de personas públicas que retratam a luta política em termos de um escolha irredutível entre bem e mal. Há, por certo, claras afinidades entre essa conjuntura e certa reiterada moralização da política ao longo da história brasileira, processo cujas raízes em muito ultrapassa o presente momento. A moral, com sua tendência de retratar as disputas em torno de conceitos de bem ou mal, é um dos esteios da atual dinâmica que parece, entretanto, assumir outras feições.

Um significativo aumento da descrença nas instituições políticas é outra das heranças de 2013. O processo tem início na resposta às primeiras manifestações. A violenta ação da polícia paulistana, com agressões contra manifestantes e imprensa, teve inegável papel na ampliação do movimento. As mudanças não ocorreram, entretanto, através da negação das suas características iniciais, mas pela intensificação destas. A luta pelo reconhecimento do transporte como direito fundamental, demanda de fundo da tarifa zero, representa um clássico pleito por direitos sociais, a exigir do Estado uma ação efetiva na redução das desigualdades e a oferta de condições dignas de vida à maioria da população. Mais do que a genérica discussão neoliberal sobre o tamanho do Estado, os movimentos sociais envolvidos colocaram em evidência as prioridades estatais, tanto em termos de ação quanto de gasto público. A violência policial demonstrou de modo extremamente eloquente como o mesmo Estado ineficiente no fornecimento de serviços básicos, como o transporte, revela-se profundamente eficiente na repressão de um direito constitucional dos cidadãos: a livre-manifestação.

Logo a problematização ganhou versões em outros discursos, como as tradicionais queixas de parte da classe média acerca da política tradicional e um novo imaginário de direita, que concilia o elogio ao mercado com um forte conservadorismo moral. Se tais movimentos comungavam com o impulso inicial das Jornadas da desconfiança em relação às instituições vigentes, as enormes diferenças entre ambos não permitem, de modo algum, colocá-los no mesmo saco. Igualar críticas à direita e à esquerda é, na verdade, procedimento comum de quem deseja desqualifica-las, mas pouco ajuda a compreender o cenário político que ora se delineia.

Junho, por fim, intensificou o caráter performativo da ação política, ajudando a construir uma dinâmica onde, cada vez mais, a presença tende importar tanto quanto as ideias. Os novos movimentos sociais, seja à esquerda ou à direita, cada vez menos podem ser compreendidos enquanto formas análogas aos partidos, ou como simples grupos de interesse. Os tempos trazem uma importância cada vez maior para as imagens e intervenções públicas. Tal fenômeno, que não se restringe ao Brasil, faz não apenas das redes sociais, como costuma se destacar, mas também das ruas cenários incontornáveis da práticas políticas contemporâneas. Isso não importa no repisado discurso do ocaso dos partidos ou das demais instituições representativas de corte semelhante, até porque esse novidade não parece simplesmente negá-los, mas busca transformá-los. Os novos ares, entretanto, indicam modificações nas dinâmicas mais tradicionais do fazer político do pós-1945, que encontraram em Junho relevante impulso. Há que se indagar, ademais, se o crescente isolamento do Legislativo não pode ser visto como sintoma explícito de uma crise de transição, que, tal como a esfinge, devorará aqueles que não a decifrarem.

Os desdobramentos de 2013 representam, de fato, um dos grandes desafios da Constituição de 1988. Se uma ordem democrática deve ser capaz de equacionar adequadamente as diversas peças da sua estrutura institucional, e nosso aparato político-jurídica não tem maiores dificuldades nesse campo, ela tem, por outro lado, como maior tarefa a habilidade traduzir em seus termos o mundo que a ultrapassa, sem oprimir suas expressões e manifestações. Dito em outros termos, o grande desafio democrático é lidar com o povo nas ruas, a questionar e redefinir os parâmetros estabelecidos. É nesse cenário, e não em uma ordem que reduz a política a administração e as expressões populares a periódicas eleições, que o aparato democrático, não visto enquanto forma, mas como prática política, é efetivamente testado.

 

 

 

 

 

 

 

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