Diogo Tourino de Sousa

A leitura de O homem que amava os cachorros, romance histórico de Leonardo Padura sobre a trajetória de Leon Trotsky e seu assassino, o militante espanhol Ramón Mercader, ocasiona momentos perturbadores de reflexão acerca da ação política e sua dificuldade de apreender o contexto. Como é sabido, Trotsky foi perseguido pelo regime stalinista, tornando-se um incômodo refugiado pelos países por onde passou, até encontrar tragicamente seu destino no México, quando foi assassinado. Malgrado a possibilidade de relermos sua luta e o modo como interpretou a revolução, no romance de Padura somos convidados a sentir suas angústias, a conviver com suas dúvidas ao ponto em que o próprio avançar da causa proletária cobra revisões.

É doloroso, por exemplo, o momento em que Trotsky constata que sua existência se pôs a serviço da execução de parte significativa dos camaradas que se opuseram ao comando de Stalin. Mantê-lo vivo foi, conforme entende, uma perversa estratégia do regime para sustentar a ameaça ao futuro da revolução representada pelo “renegado”, algo que levou o combatente Trotsky a se questionar sobre o sentido da vida.

Entretanto, além da repetida, mas nunca exaustiva, vida de Trotsky, Padura mergulha com finesa narrativa na densidade da personagem de Mercader, um soldado da causa guiado por Stalin, que abdica de sua vida reconstruindo a própria identidade dentro de uma mistura de libertação, vingança, amor, ódio, lealdade e indiferença.

Conhecer o assassino de Trotsky, sua formação, seus temores, sua convicção, assusta. Por um lado, Mercader deixa de ser uma página menor na luta revolucionária que ressignificou o marxismo no século XX. Sua história preenche uma tradicional narrativa com elementos importantes. O internacionalismo, a organização, o sacrifício, a certeza de estar do lado da causa proletária, de ser pautado pela “verdade”; por outro lado, Ramón torna-se uma figura que desperta empatia. Um ser humano, capaz de saborear momentos corriqueiros da vida, assombrado pela errática relação com mãe, apto para amar e tornar-se refém do abandono. Mas Ramón Mercader assusta, sobretudo, pela abdicação do que é, em nome do que considera ser maior.

Na trama, Mercader torna-se peça-chave na operação de extermínio do “renegado”, o que cobra dele abandonar seu passado e reinventar-se com uma nova identidade. Num dado momento, confuso sobre quem deveria ser, sem nunca se confundir sobre a causa, Mercader, que passou a ser chamar Jacques Mornard, questiona o oficial russo que o orientava, munido de uma curiosidade tola sobre seu nome verdadeiro.

A passagem é particularmente instigante, pois manifesta, conforme entendo, o lado aterrador da convicção dos personagens envolvidos. Assim, ao ser perguntando, o oficial responde, com um sorriso no rosto, “O que é um nome, Jacques? (…) Leonid Alexandrovich. Escolhi esse nome para que não soubessem o meu, porque iam se dar conta de que sou judeu, e os judeus não são muito queridos na Rússia… Sou o mesmo e sou diferente em cada momento. Sou todos e não sou nenhum, porque sou mais um, pequenininho, na luta por um sonho. Uma pessoa e um nome não são nada… Olha, tem uma coisa muito importante que me ensinaram assim que entrei na Tcheka: o homem é irrelevante, substituível. O indivíduo não é uma unidade excepcional, mas um conceito que se soma e forma a massa, esta sim é real. Mas o homem enquanto indivíduo não é sagrado e, portanto, é prescindível. (…) Importa o sonho, não o homem, e menos ainda o nome. Ninguém é importante, todos somos prescindíveis… E, se você chegar a tocar a glória revolucionária, fará isso sem ter um nome real. Talvez nunca mais tenha. Mas será uma parte magnífica do maior sonho que a humanidade já teve – e, erguendo o copo de vodka, brindou: Saúde para os inomináveis!”.

É espantoso constatar o que um sonho de liberdade foi capaz de produzir. Todavia, lembro do romance de Padura no presente por razões muito particulares. Investido da definição magistral de Italo Calvino sobre a leitura dos “clássicos”, lembro do romance da Padura especialmente porque, mesmo lendo-o no “conforto de casa”, ouço, com frequência, o “barulho da rua”. Nesse sentido, creio que as trajetórias de Trotsky, Mercader e da própria revolução podem constituir contraponto interessante sobre o quadro de indiferença que vem tomando conta do mundo da opinião. Quando afirmo indiferença, penso na aparente “tranquilidade”, no suposto “desprendimento” com o qual parte significativa da intelectualidade vem tratando causas centrais para a agenda pública do país, notadamente em razão da ameaça que o estado policialesco da opinião impõe.

A afirmação da existência de uma perigosa vigília no debate público não pode, por certo, corroborar com a tola crítica produzia por determinados setores da opinião de que vivemos, no presente, uma espécie de “ditadura do politicamente correto”. Não se trata disso. De fato, o avanço em determinadas pautas fez com que posturas outrora naturalizadas, inclusive no campo do humor, fossem positivamente revistas, num processo democrático que felizmente hoje é possível.

Entretanto, no presente, abrir, ainda que de forma séria e comprometida, qualquer discussão sobre temas caros ao destino coletivo, como o racismo, a desigualdade de gênero, o transporte público, a intolerância religiosa, a redução da maioridade penal, dentre outros, pode custar caro. Isso porque, tem imperado um estreito entendimento que situa, com facilidade questionável, pessoas e opiniões no espectro político de mondo límpido, desinvestindo o mundo da complexidade que possui. Assim, ser de “esquerda” ou de “direita” parece ser o rótulo mais facilmente atribuído, ao lado de vitupérios como “fascista”, por exemplo.

Mesmo vivendo numa sociedade democrática, há um estado de medo no mundo da opinião. Um terror que assusta particularmente intelectuais de esquerda que, caso queiram abrir qualquer discussão sobre pautas polêmicas podem, com facilidade, tornar-se “fascistas” de direita aos olhos da inflamada opinião pública – ou, com justeza no raciocínio, opinião corrente nas redes sociais.

Os exemplos no presente se avolumam. Todavia, cito, ciente do perigo que incorro, o caso de Fernando Haddad, prefeito de São Paulo. Esta semana, ao sair de uma missa celebrada em homenagem ao aniversário da cidade, Haddad concedia uma entrevista quando foi atingido por uma garrafa plástica. Constrangido, o prefeito olhou para a jornalista e pediu que conversassem em outro momento. Há algo estranho na cena.

É sabido que a cidade de São Paulo atravessa um momento delicado. Após um reajuste na tarifa do transporte público, o Movimento Passe Livre (MPL) vem convocando manifestações contra o governo do estado e a prefeitura, sendo reprimido de forma desmedida e violenta pelas forças policiais, o que abre, certamente, uma importante discussão sobre o perigo da criminalização dos movimentos sociais.

A questão do transporte público é recorrente e traz consigo o relevante tema do direito à cidade. Ao lado disso, sugere a existência – em alguns casos comprovada – de relações nada republicanas entre o poder público e os empresários do setor de transporte, relações essas inauguradas já no momento eleitoral. Com isso, afirmo que a pauta do MPL é, conforme defendo, legítima, ainda que eu considere a luta pela “tarifa zero” algo que precise ser amadurecido.

E mais: entendo que Fernando Haddad vem conduzindo mal a questão. O prefeito poderia, sim, assumir posicionamento mais incisivo sobre a legitimidades das manifestações, situando-se abertamente contrário ao processo de criminalização e violenta repressão em curso. Contudo, isso não exclui certa intransigência nas negociações – de ambos os lados, inclusive do próprio MPL –, nem o equívoco que a cena da garrafa há pouco mencionada carrega.

Fernando Haddad era, até ontem, o prefeito mais “progressista” naquilo que defini, com razoável imprecisão, como opinião corrente. Disposto a repensar a cidade no atacado, enfrentou alguns privilégios de classe, como na questão das ciclovias, sendo sistematicamente atacado pela imprensa, que silenciou sobre cenas patéticas como as de carros luxuosos estacionados nas faixas destinadas aos ciclistas, ou comerciantes jogando pregos para furar os pneus das bicicletas. É fato que o projeto das ciclovias precisa ser melhorado, em dimensão e desenho. Ainda assim, trata-se de um exemplo interessante no curso de repensar o modelo falido de cidade em voga.

Ao lado disso, Haddad avançava em pautas “progressistas”, como no tema do reconhecimento de direitos. Prova disso foi a inclusão, operada pelo prefeito, de idosos, negros, índios, travestis e mulheres vítimas de violência em fila prioritária do Minha Casa Minha Vida. A relevância do ato repousa menos na discussão sobre o projeto habitacional em si, e mais na vanguardista operação de reconhecimento de direitos por parte da administração municipal.

Os exemplos nada justificam qualquer ato de violência em curso. Reforço este ponto ciente de que posso, cedo ou tarde, ser eu o mais recente membro da lista de “fascistas”. Mesmo assim, não podemos capitular a “indiferença”. O medo do estado policialesco da opinião que vem assustando os intelectuais, que nada podem dizer sob o risco do “escracho” e são recorrentemente levados a afirmar apenas o que os outros querem ouvir, merece atenção. Não há mais opinião a contrapelo possível. Resta apenas o que o léxico “não-fascista” permite que seja dito, como uma causa maior que se sobrepõe a qualquer complexidade efetiva ou imaginada.

Nesse cenário, o MPL não pode, para certa parcela da esquerda, em nada ser questionado, ao passo em que para grande parcela da população o movimento nem sequer chega a ser debatido, rebaixado a uma espécie de vala comum que serve ao vazio propósito de criminalização dos seus atos; Haddad, por sua vez, merece ações diretas, ainda que violentas, no decurso de uma luta legítima, de uma “causa maior”.

A menção inicial ao livro do Padura se justifica assim. Fui incomodado pela passagem em que Trotsky discute com o surrealista André Breton a confecção de um manifesto para a criação de uma Federação Internacional de Artistas Revolucionários. Na narrativa, ambos se envolvem num debate sobre a frase “tudo é permitido na arte”, presente no manifesto. Ao longo da discussão, Breton fixa o raciocínio “tudo, desde que não atente contra a revolução proletária”. Contrariamente, Trotsky recorre a experiência soviética para defender uma concepção irrestrita de arte. Assim, ele sustenta que “Para a arte, a liberdade é sagrada, é a sua única salvação. Para a arte, tudo tem que ser tudo. Conforme venho sugerindo, no presente temos frequentemente nos detido no condicionante “desde que”, algo que impede a livre e necessária discussão sobre temas caros ao convívio coletivo. O resultado vem sendo a indiferença de determinados setores da opinião, resignados pelo medo ou pela covardia.

Penso a indiferença fortemente influenciado pelo ensaio de Renato Lessa, Da indiferença em primeiro lugar. No texto, Lessa recupera as simpatias naturais das quais nos falava Rousseau, para mostrar como a indiferença é um vício civilizacional, um ato passivo que serve de suporte para vícios ativos como a violência, por exemplo. Logo, é a indiferença que faz com que rejeitemos a humanidade compartilhada, nos tornando “tranquilos” com relação ao sofrimento dos outros.

Sei do perigo das palavras e das comparações, mas imagino que parte significativa da intelectualidade de esquerda venha no presente se comportando com razoável indiferença com relação ao que ocorre. Seja por medo, seja por covardia, há silencio. Contrariamente, a intelectualidade de direita, já habituada a ser incluída no“rol” dos “fascistas”, fala. Há contraponto, seguramente. Ele vem sendo dado pelos próprios movimentos sociais. Mas isso não significa que há escuta.

Por certo carrego uma concepção normativa que pode, no melhor dos casos, ser considerada aristocrática. Mas entendo, na esteira do que afirmou Jürgen Habermas por ocasião do seu aniversário de 80 anos, que “O intelectual deve fazer emprego público do saber profissional de que dispõe, sem ser perguntado, ou seja, sem que haja pedido de quaisquer dos lados, por exemplo, como filósofo ou escritor, como cientista social ou como físico. Sem ser imparcial, ele deve ser expressar consciente de sua falibilidade. Deve se restringir a temas relevantes, contribuir com informações objetivas e melhores argumentos possíveis, ou seja, ele deve se esforçar em melhorar o deplorável nível discursivo das discussões públicas”.

Vejo aqui o desafio presente: contra a indiferença imposta pelo medo ou pela covardia, há que se falar, pois a indiferença é o veículo dos piores vícios.

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