Fernando Perlatto*

Ainda estou Aqui é um livro que dói. Que mutila a alma. É um livro que deve ser lido por aqueles que queiram entender melhor, a partir de um prisma muito particular, o que foi a ditadura civil-militar no Brasil e os seus trágicos desdobramentos. Não que o livro seja especificamente sobre isso. Não é. É um livro de memórias escrito pelo jornalista Marcelo Rubens Paiva, que tem como eixo narrativo a trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, e dos diferentes percursos por ela trilhados e de suas consequentes reinvenções frente às tragédias e às dificuldades que a vida lhe impôs, destacando-se, nesse sentido, em primeiro lugar, o exílio, em 1964, e, posteriormente, a prisão e o assassinato de seu marido, Rubens Paiva, por agentes da repressão, em 1971; e, em segundo, a doença de Alzheimer, que lhe alcançou em determinada etapa da vida. A partir destes dois grandes males – um causado pela política concreta, pela decisão dos homens que, sob a retórica de combate ao comunismo, realizavam arbitrariedades de diferentes ordens; o outro (que o autor se recusa a chamar de mal, referindo-se a ele apenas por Alzheimer) provocado por razões ainda inescrutáveis pela ciência –, Marcelo Rubens Paiva costura, de forma notável, um mosaico de histórias que lhe permitem, ao fim e ao cabo, também contar a história de sua própria vida e do Brasil da segunda metade do século XX, especialmente do regime de exceção inaugurado em 1964 e das fissuras por ele causada.

Se parte dessas histórias já estava registrada, a partir de outros referenciais, em sua obra de 1982, Feliz Ano Velho, no qual relata o acidente que o deixou tetraplégico, neste Ainda Estou Aqui, publicado no final de 2015 pela Alfaguara, Paiva exerce sua vocação de ótimo escritor, mais maduro e tarimbado por anos de jornalismo, valendo-se da sua memória para reconstruir momentos importantes da sua família que se vinculam à história do Brasil nas últimas décadas. A palavra memória importa, pois ela se faz presente, a todo o momento, na narrativa do autor. O ponto aqui é entrelaçamento entre a memória do passado, sempre seletiva, parcial e reconstruída, e a perda gradativa da memória de sua mãe, paulatinamente desconstruída pelo Alzheimer. Estas duas memórias entremeadas pela busca de pistas que permitam reconstruir o passado e trazer à tona a memória do pai assassinado. Nas referências à sua própria memória, são reconstruídas as lembranças dos anos de sua infância e adolescência, com suas paixões, conquistas, desilusões e decepções; o momento de sua fuga para Petrópolis, onde permaneceu durante mais de dez dias na casa de amigos, quando o pai foi preso, e a mãe e a irmã também levadas para o DOI-Codi; sua trajetória na universidade e sua formação como profissional, e, sobretudo, as angústias relacionadas ao desconhecimento do que havia, de fato, ocorrido com o seu pai após ter sido preso pelas forças da repressão.

O peso da certeza do assassinato de Rubens Paiva se combina com o peso da ignorância sobre o destino do seu corpo, que dilacera e atua como uma espécie de nova tortura sobre a família do ente desaparecido. A luta de toda família, especialmente de sua mãe, para resgatar a memória do marido assassinado, aparece aqui como outra dimensão deste quebra-cabeça no qual a temática da memória serve como fio condutor, sempre atualizada à medida que o passado vai sendo revelado pelas investigações que iluminam, pouco a pouco, sobretudo a partir da Comissão Nacional da Verdade, os momentos finais e os destinos do corpo de Rubens Paiva. Nas referências à paulatina desconstrução da memória de sua mãe, Marcelo Rubens Paiva se vale de uma estratégia narrativa muito bem articulada, confrontando as informações médicas sobre os quatro estágios da doença de Alzheimer, divulgadas pelo médico Dráuzio Varella, com as experiências concretas vividas por Eunice Paiva. Embora Eunice esteja viva, manifestando lapsos de uma memória que se esvai – e que remetem ao título “ainda estou aqui” –, o autor se refere à mãe sempre no passado, apresentando de forma sensível as dificuldades que surgem para os familiares no sentido de lidar com parentes que sofrem desta doença.

Um dos aspectos mais interessantes do livro refere-se ao fato de que a partir das trajetórias de seu pai e de sua mãe, Paiva descortina aspectos importantes das transformações que ocorreram no Brasil ao longo das últimas décadas. A trajetória de seu pai joga luz sobre as mudanças na política brasileira dos anos 1950 e 1960, com destaque para os acirramentos dos conflitos e das tensões que tiveram como principal desdobramento o golpe civil-militar de 1964. Além disso, permite pensar sobre a trajetória da própria esquerda brasileira – com seus avanços e seus embates contra as forças do conservadorismo no país –, mas também com as suas derrotas, explicitadas especialmente nas tragédias dos setores que optaram pela luta armada, resultado do desespero dos anos de repressão. E a trajetória de sua mãe, formada em Direito já depois dos quarenta anos, ilumina as mudanças da posição social das mulheres na sociedade brasileira, que, antes confinadas aos cuidados da casa, passam a adquirir, de forma ainda gradual, porém significativa, posições de destaque na cena pública do país; e ilumina, também, as lutas impulsionadas por setores da esquerda brasileira no final dos anos 1970 e na década de 1980, pela redemocratização do país, além da incorporação, de forma mais ampla, à agenda da esquerda de novas temáticas, a exemplo da questão indígena, da qual Eunice Paiva se destacou, a partir dos anos 1980, como uma importante porta-voz e liderança.

Se Feliz Ano Velho estava permeado das esperanças e expectativas do contexto da redemocratização dos anos 1980, Ainda estou Aqui é atravessado pelo travo de uma democracia que, embora venha se consolidando aos poucos, sob a égide da Carta de 1988, ainda caminha capenga, em grande medida como decorrência da relação difícil e ainda não superada do país com o passado da ditadura brasileira. Há no livro, sem dúvida, o reconhecimento das rupturas com o passado sombrio e a valorização dos avanços legais que ocorreram nas últimas décadas, que vêm contribuindo com a investigação dos crimes perpetrados pelo regime civil-militar, avanços estes impulsionados pela Comissão Nacional da Verdade. Mas, há também no livro o lamento por aquilo que permaneceu e que não foi enfrentado, pelos crimes não investigados, e pela conservação da Lei da Anistia que, sob a retórica da superação do passado, acabou por proteger militares e civis que sustentaram o regime militar e deram guarida para a tortura e a repressão em nome do Estado.

Dentre estas continuidades da ditadura na democracia que aparecem nas páginas de Ainda estou Aqui merece destaque especial a permanência das arbitrariedades e torturas por agentes do Estado. Talvez aqui esteja o ponto mais forte do livro, quando Marcelo Rubens Paiva tece uma articulação entre as barbaridades cometidas contra o seu pai, Rubens Paiva, e aquelas praticadas recentemente contra o pedreiro Amarildo. Neste momento, Paiva estabelece a conexão entre o dilaceramento provocado pelo desaparecimento de pessoas na ditadura com aquele dilaceramento que ainda atinge hoje várias famílias que sofrem ao verem seus familiares desaparecerem em pleno regime democrático. Rubens e Amarildo, os dois pais de cinco filhos; os dois presos e torturados por agentes atuando em nome do Estado. O elo entre o passado e o presente, entre a ditadura e a democracia, se dá pela dor e pela angústia daqueles familiares que nunca mais viram seus entes queridos após estes terem sido retirados de suas casas por agentes de um Estado que, supostamente, deveria lhes assegurar um direito digno de defesa. Antes, a barbaridade cometida, em grande medida, contra uma classe média que fazia oposição à ditadura, acusada de ligação com o comunismo; agora, a repressão direcionada para uma outra classe, atingindo principalmente moradores da periferia que, segundo a justificativa da repressão, conservam “ligação” com o tráfico. Corpos violentados, mortos e desaparecidos; torturadores e agentes do Estado coniventes com a repressão; antes, a repressão praticada pelas Forças Armadas; agora, praticada pela polícia; em ambos os casos, a aceitação e o silêncio de grande parte da sociedade.

Em tempos nos quais grupos, ainda que minoritários, bradam pela volta da ditadura, vendo ameaças de comunismo mesmo em um governo atravessado por conservadorismos de toda ordem, Ainda estou Aqui funciona como um grito sensível contra estes disparates, a relembrar, a partir da trajetória de uma família, as arbitrariedades praticadas naquele período, cujas consequências permanecem ainda hoje a obstar avanços mais significativos nos processos de democratização política e social do país.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

** Esta imagem foi retirada do site: http://cultura.estadao.com.br/blogs/marcelo-rubens-paiva/valeu/

 

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