Diogo Tourino de Sousa

Tenho lembrado com frequência do impactante longa O ódio (1995), dirigido pelo francês Mathieu Kassovitz. No filme, um judeu, um árabe e um pugilista convivem no subúrbio de Paris, reféns de toda sorte de preconceitos e arbitrariedades, sob forte exclusão simbólica. A trama se desenrola no momento em que Vinz, o judeu interpretado por Vincent Cassel, encontra uma arma e jura assassinar um policial como forma de retaliação ao tratamento violento perpetrado pelas forças policiais. O enredo transcorre amarrado numa anedota aparentemente inofensiva. Trata-se do caso do suicida que salta de um edifício alto e, ao passar pelos andares em queda, diz “até aqui, tudo bem… até aqui, tudo bem”. A moral perversa da história é, por certo, óbvia: sobreviver ao longo do caminho não nos impede de padecer no final.

No filme de Kassovitz os protagonistas enveredam pela noite parisiense, sempre alimentados pelo ódio mútuo de classes, se enfrentando com as barreiras impostas pela exclusão. Seus obstáculos são mais simbólicos do que físicos, ainda que o trânsito na cidade imponha sinceras limitações. Todavia é a arma, municiada pela raiva, que guia os rapazes por um périplo de sofrimento, aparentemente ileso no transcurso, mas inequivocamente cruel em seu desfecho.

O destino selado pelo ódio de Vinz e seus amigos, pelo ódio contra Vinz e seus amigos, tem me vindo tristemente à memória. A conjuntura presente, eivada de ódio por todos os lados, paixão que encontra nas redes sociais uma caixa de ressonância sem precedentes, transbordando, inclusive, para a dimensão institucional da política, merece sinceros questionamentos. Em parte, a questão foi muito bem discutida pelo sociólogo Antonio Engelke em artigo recentemente publicado no jornal O Globo (refiro-me ao texto Erros honestos, 06 de janeiro de 2016). Todavia, fazendo coro com seu argumento, pretendo trazer ao proscênio alguns elementos adicionais.

Creio que o tempo presente esteja pautado por uma espécie de ódio mútuo, à esquerda e à direita, marca do retrocesso político e mola propulsora para o pior dos mundos, a saber, aquele em que a política deixa de existir. Falo da política enquanto atividade privilegiada de vertebração da vida social, e não apenas da política circunscrita ao domínio institucional. Falo da política enquanto característica de um regime de liberdade, não necessariamente de consenso, mas sim onde todos possam se pronunciar acerca da vida coletiva, encontrando canais de expressão para suas demandas e formas de reconhecimento das suas identidades. Sobretudo, falo da política enquanto atividade livre que, contudo, conserva suas “limitações”, como a necessidade de convívio não-violento com os demais.

No presente parece não haver vestígios dessa forma de agir. Ao contrário, o ódio graça sem restrições. Os exemplos se avolumam. Somente em 2015, Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda no primeiro mandato da presidente Dilma, foi agredido verbalmente em um restaurante em São Paulo, e no hospital, ao visitar a esposa enferma; Eduardo Suplicy, quadro histórico do Partido dos Trabalhadores, ex-senador e atual secretário de Direitos Humanos e Cidadania do município de São Paulo, foi recebido com ofensas, por ocasião da sabatina ao prefeito da cidade, Fernando Haddad, na Livraria Cultura; os deputados federais Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano Feliciano (PSC-SP) reagiram de forma estúpida ao benfazejo tema do feminismo presente nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), classificando-o como político-partidário, ou “marxista” no entendimento canhestro da crítica; até Chico Buarque foi chamado de “merda” por um grupo de rapazes nas ruas do Rio de Janeiro, ao que tudo indica por manifestar sua opinião partidária; isso sem mencionar a intolerância religiosa manifesta no ataque a templos e nas agressões aos praticantes de religiões afro; os casos recorrentes de injúria racial, tristemente abertos nas redes sociais, inclusive entre universitários; ou mesmo o preconceito velado de classe, presente na grande imprensa em declarações esporádicas, como na recente intervenção desastrosa do jornalista Alexandre Garcia acerca do ingresso de alunos cotistas nas Universidades federais, afirmando ausência de “mérito” no feito.

Esse ódio galopante, infenso ao convívio democrático, vem corroendo de maneira “suave” a vida coletiva. Não por acaso, tem se tornado difícil conversar sobre política, conforme bem discute o artigo de Engelke há pouco referido. Nichos marcados de opinião fecham-se ao contraditório, incapazes de escutar argumentos que escapem ao léxico conformado por este ou aquele espectro de opinião. Espectros esses, aliás, desprovidos de abertura, incapazes de escuta, ávidos em encontrar a qualquer preço “provas” das “verdades” que bradam.

Nesse cenário, as redes sociais encontram seu protagonismo, figurando como o local privilegiado do “ódio”. Por um lado, há algo de positivamente democrático na emissão da opinião, agora não mais restrita aos grandes veículos de comunicação, mas sim pulverizada pelos diferentes atores. Por outro, o mundo desgovernado da opinião parece ter entendido a democracia de uma maneira muito particular, confundindo a horizontalidade com a agressividade, a pluralidade com a guerra. Nessa direção, ao invés de se estruturar como a prometida esfera pública virtual, as redes sociais vêm acirrando o ódio e contribuindo pouco para a qualificação da opinião. Se antes o que era “socialmente condenável” jazia escondido na esfera privada, eclodindo vez ou outra em público, agora comportamentos condenáveis reverberam nas redes. Um fascista antes em silêncio pode, por exemplo, descobrir que existem outros que pactuam dos seus preconceitos, fazendo dessa descoberta um movimento coletivo. Guardadas as devidas proporções, temos visto algo parecido em curso.

As notícias compartilhadas de cá e de lá, como subsídio para argumentos concorrentes, exemplificam bem esse rebaixamento. Parece que cada lado da disputa tem sua própria fonte de informações, desconectada das demais, onde são destilados argumentos ad hominem. Lembro, por exemplo, da ofensiva contra o agente da Polícia Federal encarregado de parte das prisões na operação Lava Jato, quando sites pró-governo o acusavam de ter um passado comprometedor. E tudo isso aliado, é claro, ao lixamento público que tem sido a marca dos últimos meses, onde denúncias e investigações antecipam a condenação, subsumindo qualquer princípio constitucional que assegure a presunção de inocência. Conforme interpreto, o quadro presente sintetiza o retrocesso.

E o digo inspirado pelo brilhante trabalho de Stephen Jay Gould contra o determinismo biológico. Em A falsa medida do homem, Gould questiona a teoria do limite imposta pelas perspectivas deterministas, notadamente a craniometria e os testes psicológicos de inteligência, mostrando como seus autores não estavam necessariamente investidos de malícia ou dissimulação. Eram, ao contrário, sujeitos do seu tempo, partícipes de preconceitos de época que acreditavam ser a ciência um canal para a “verdade absoluta”. Isso não significa, porém, que Gould capitule ao argumento cético do relativismo. Na qualidade de cientista praticante, o autor defende a existência de uma realidade concreta e a possibilidade de acessá-la pelo conhecimento científico, ainda que recorrentemente de maneira obtusa e irregular.

Seu argumento aponta, com efeito, para os perigos do entendimento da ciência como uma empresa objetiva, ignorando seu aspecto central: ser ela um fenômeno social, passível, portanto, de contaminação por preconceitos culturalmente marcados. Ainda na introdução do trabalho, Gould justifica sua atenção ao tema pela crescente popularidade do determinismo biológico na segunda metade do século XX. Mesmo que os argumentos tenham sido atualizados, a crença fundamental estaria angariando mais adeptos, presente em rodas de conversas, festas e noticiários, algo que manifesta o perigo inicialmente apontado, a saber, a suspeita cotidiana de que preconceitos sociais são, na verdade, fatos científicos.

A analogia com o trabalho de Stephen Jay Gould pode parecer exagerada. Contudo, acredito que o ódio que veta a escuta nos debates políticos do presente carrega, em parte, a mesma marca do retrocesso político apontado pelo autor à época: a crença na “verdade absoluta”, tingida mais ou menos do verniz científico, que ocasiona facções entrincheiradas na opinião.

Nesse sentido, creio que a política deva, contrariamente, permanecer próxima ao entendimento de Aristóteles, conforme o resgate operado na metade do século XX por Bernard Ckick, no seu necessário Em defesa da política. Crick é capaz de formalizar uma definição de política que, por certo, colhe descontentamentos. Todavia, definições são importantes, sob o risco de nos perdemos em funcionalidades equivalentes. Assim, o autor define a política como a atividade por meio da qual são conciliados os diferentes interesses dentro de uma unidade. Tal como havia apontado Aristóteles, a política não é uma atividade divina, visto que os deuses não fazem política. Isso porque, a necessidade de ouvir os outros, ausente na perfeição, seria a marca distintiva do agir humano em sociedade.

Crick opera uma comparação provocativa: assim como a sexualidade, a política é uma atividade que deve ser exercida. O homem não cria nem decide participar dela. Ele simplesmente vai percebendo estar envolvido nela como parte da sua condição humana, onde “as simpatias decorrentes da experiência são melhores que as doutrinas aprendidas nos livros”. Nesse sentido, renunciar ou destruir a política é abdicar daquilo que organiza o pluralismo, a variedade. Da mesma forma que “a misogamia e o celibato constituem as formas de salvação das mentes excessivamente apaixonadas”, a ausência da política representaria o desespero.

Tal como na anedota contada na história de Vinz e seus amigos, penso que algo deva ser feito para que não nos choquemos contra o chão no final. E não vejo outro caminho senão a defesa da política, pautada pelo diálogo, pela escuta, e não pelo ódio. Vejo a necessidade de recuperarmos nossas simpatias ordinárias, esquecidas pelo mar de raiva que atropela as conversas cotidianas. E isso deve ser feito o quanto antes. Mesmo porque, algo no cenário presente destoa negativamente da anedota de Vinz, pois “até aqui, nada bem… até aqui, nada bem”.

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