Fernando Perlatto*

Dentre aqueles jornalistas brasileiros que se dedicam ao estudo de personagens ou de períodos históricos específicos, Ruy Castro talvez seja um dos mais sofisticados. É possível incluir também nessa galeria outros jornalistas-escritores, a exemplo de Elio Gaspari, com seus excelentes volumes dedicados à ditadura, e Lira Neto, com as suas ótimas biografias sobre Getúlio Vargas. São jornalistas que possuem o difícil dom de contar bem uma história, ancorados em uma pesquisa empírica séria e bem referenciada, assim como no diálogo com uma bibliografia secundária pertinente. Ruy Castro é exemplar nesse sentido. Autor erudito, sem ser pedante, com escrita gostosa, que prende o leitor no texto, Castro se consolidou, ao longo das últimas décadas, como um intelectual importante no cenário cultural brasileiro. Há um perfil que pode ser traçado de Castro tomando por base sua vasta carreira jornalística nos principais veículos de imprensa do país – hoje, colunista da Folha de São Paulo – ou considerando seus trabalhos mais significativos – sejam seus romances, como Era no Tempo do Rei e Bilac vê Estrelas (que, registre-se, inspirou musical homônimo, adaptado por Heloisa Seixas e Julia Romeu, com direção de João Fonseca e trilha sonora de Nei Lopes, indicado para diferentes prêmios em 2015), sejam as biografias ou obras sobre personagens ou temas específicos, a exemplo do excelente O Anjo Pornográfico, que analisa minuciosamente a trajetória de Nelson Rodrigues, e dos ótimos trabalhos Estrela Solitária, sobre Garrincha, Carmen, sobre Carmen Miranda, Chega de Saudade, sobre “a história e as histórias da Bossa Nova”, e Ela é Carioca, sobre o bairro Ipanema.

Mas, há também outro perfil do autor, que pode ser reconstruído de forma seca, dura, porém, delicada e elegante, como aquele realizado por sua esposa Heloisa Seixas, em um sensível livro lançado em 2015, pela Cosac Naify, chamado O Oitavo Selo, finalista de importantes prêmios literários do ano passado, como o Jabuti. Com o subtítulo Quase-Romance, a autora de obras como Pérolas Absolutas, intercala ficção e realidade para narrar a vida de Ruy Castro, seu marido, a partir do diálogo com o filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, que possibilita à autora pensar de forma metafórica os diferentes enfrentamentos do personagem-real com a morte, especialmente como decorrência da dependência, durante anos, do autor em relação ao álcool e às drogas, e de doenças posteriores, como o câncer e o enfarte. Sem ser piegas ou sentimentalista, Heloisa Seixas abre e escancara os percursos acidentados de Castro de uma maneira ao mesmo tempo humana e corajosa.

No final de 2015 foi publicado pela Companhia das Letras o novo livro de Ruy Castro, A Noite do meu Bem. A História e as Histórias do Samba-Canção. Nas mais de quinhentas páginas que compõem esta obra, Castro se volta para a análise da consolidação e do declínio, ainda que parcial, do samba-canção como principal ritmo a embalar o Brasil entre os anos de 1947 e 1965. Para tanto, o autor toma como cenário de sua narrativa a noite do Rio de Janeiro, com suas luxuosas boates em processo de expansão, que se converteram, ao longo daqueles anos, não apenas como os principais espaços de difusão daquele gênero musical específico, mas nos ambientes por excelência de encontro, de sociabilidade e de diversão da elite econômica brasileira no centro político e cultural do país.

Antes de seguir adiante, ressalte-se, apenas à guisa de registro, que A Noite do meu Bem veio a se somar a outros importantes trabalhos publicados em 2015, que contribuem, de diferentes maneiras, para uma compreensão mais ampla da história da música popular brasileira. Destacaria aqui, nesse sentido, os três volumes Quem foi que Inventou o Brasil (Nova Fronteira), de Franklin Martins – reunindo mais de mil canções que contam a história da República entre 1902 a 2002, com site associado ao trabalho, que disponibiliza, pela internet, parte significativa deste cancioneiro em suas versões originais –; a coletânea A Canção Brasileira (Zahar), de Santuza Cambraia Neves – composta por onze artigos que abordam desde o samba-canção e a bossa-nova até o rap, passando por Villa-Lobos, Tom Jobim, Chico e Caetano –; e a segunda edição, revista e ampliada, do clássico livro de José Gomes Tinhorão, publicado originalmente em 1969, O Samba agora Vai… A Farsa da Música Popular no Exterior (Editora 34).

Em A Noite do meu Bem, Ruy Castro contribui com essa historiografia da música popular brasileira, explorando com vitalidade seu veio de contador de boas histórias. O ponto de partida é a decisão do então presidente Eurico Gaspar Dutra de fechar, a partir de 1946, os cassinos, que, nos anos 1920 e 1930, se colocavam como os principais espaços de diversão da elite econômica do país, embalados ao som dos maiores artistas brasileiros à época, a exemplo de Carmen Miranda. Como resultado daquela decisão – que muitos alegam ter sido tomada sob a pressão da esposa do presidente, a carola Carmela Dutra, também chamada de dona Santinha, ou pela influência do seu ministro da Justiça, Carlos Luz –, os proprietários de lugares como os cassinos da Urca e do Copacabana Palace, viram seus lucrativos empreendimentos fecharem as portas da noite para o dia. Neste novo cenário de proibição, sob o ritmo cadenciado de pianos e de vozes sofridas, as boates da zona sul do Rio de Janeiro – em um ambiente mais comedido e discreto do que aquele dos barulhentos cassinos, com suas grandes orquestras – passaram a abrigar os profissionais, músicos e amantes da noite, desejosos de trabalho e de diversão.

A escrita de Ruy Castro sobre a consolidação das boates cariocas e do samba-canção respectivamente, como os espaços e o ritmo a embalarem a redemocratização do país, pós-Estado Novo, corre de forma leve e solta nas páginas de A Noite do meu Bem. O leitor se deleita, e muitas vezes se diverte, com os diferentes “causos” narrados de forma divertida, como se estivesse ouvindo-os em uma mesa semelhante às daquelas boates que começam a aparecer aos montes pelas avenidas do Rio de Janeiro entre as décadas de 1940 e 1960. É, sem sombra de dúvidas, um livro que se lê com prazer. Aí, talvez, nesta narrativa leve e, aparentemente, desinteressada que se encontra a maior força, mas também alguns dos limites deste livro.

A força está na forma como o autor conta esta história e suas diferentes histórias, em um texto muito bem escrito, com sua prosa fluida e divertida. Todas as palavras parecem ter sido selecionadas com o cuidado de um ourives para assegurar o andamento amaciado do texto. A sua força reside também na escolha das imagens mobilizadas ao longo da obra: um mapa da noite do Rio de Janeiro entre 1946 e 1965, encartes de discos, variadas e belíssimas fotos, valendo, inclusive, neste sentido, destacar a precisão da escolha de uma bela imagem de Maysa sentada com um cigarro em mãos, como a foto abre-alas do livro, com a legenda certeira: “Ninguém cantava um samba-canção como Maysa – e ninguém parecia viver dentro de um samba-canção como Maysa”. A própria escolha do nome do livro é muito feliz, em alusão à belíssima canção “A noite do meu bem”, de Dolores Duran, que, assim como Maysa, pode ser tomada como um dos personagens-símbolo daquela época.

Deve-se também mencionar, é claro, a escolha das canções que são trazidas para o corpo do texto em momentos precisos da narrativa. O barato da leitura, diga-se de passagem, está em ler o livro com o computador ligado à frente e, à medida que as canções vão surgindo no texto, procurá-las na internet, degustando algumas pérolas do cancioneiro nacional. O próprio autor adverte no início: este é “um livro para ser escutado tanto quanto lido – 90% das canções podem ser ouvidas na internet”. Segue-se o conselho, se despende um tempo a mais para a leitura da obra, mas, ao final, vale muito mais a pena do que a leitura silenciosa. O ruído aqui compensa. Os sambas-canção ao fundo lançam o leitor ao Rio dos anos 1940, 1950 e 1960; joga-o no ambiente das boates, narrado por Castro. Ao final da obra, o leitor pode ainda se debruçar sobre a “Cançãografia” construída pelo autor. Sem qualquer pretensão de abarcar todos os sambas-canção já produzidos, Castro apresenta três listas, cada qual cobrindo um período particular, que designa fases específicas deste gênero musical: a primeira delas cobre o período de 1928 a 1945, quando os sambas-canção começaram a ser escritos, ainda sem serem reconhecidos como tal; a segunda lista abrange os anos de 1946 a 1965, época na qual este gênero musical atingiu seu apogeu e tomou conta das boates e rádios do país; e a terceira, abarca o momento posterior, evidenciando as continuidades do samba-canção na música popular brasileira, a despeito de não mais ser chamado por este nome.

A força do livro também está no conhecimento vasto que Ruy Castro exibe do objeto que tem em mãos. Os personagens do livro – compositores, em sua maioria homens, com algumas exceções como Dolores Duran (autora, junto com Tom Jobim, de um dos mais primorosos sambas-canção de todos os tempos, “Por causa de você”), músicos em geral, jornalistas e escritores, donos de boates, maîtres, leões de chácara, vedetes, políticos, membros de famílias importantes da elite econômica do país, – são analisados, ao longo do livro, com enorme riqueza. Suas histórias são lidas como romances. Alguns dos personagens aparecem com destaque e desparecem para depois retornar; outros são apenas citados, e desparecem; já alguns deles são permanentes, destaques, protagonistas, durante toda a narrativa. De muitos destes personagens, o leitor passa a se sentir íntimo ao longo da leitura, identificando-se ou se emocionando com seus sucessos, suas agruras, suas conquistas, seus dramas e, em muitos dos casos, suas tragédias. Os personagens aqui não são apenas pessoas singulares, a exemplo dos compositores (como Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues, Dorival Caymmi, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Vinicius de Moraes, Antonio Maria, Ataulpho Alves, além de Dolores Duran), cantores (como Dick Farney, Johnny Alf, Lucio Alves, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Cauby Peixoto, Miltinho, João Gilberto, Tito Madi, Jamelão), cantoras (como Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Nora Ney, Dolores Duran, Doris Monteiro, Angela Maria, Isaurinha Garcia, Linda Baptista, Emilinha, Maysa; Alayde Costa, Helena de Lima, Sylvinha Telles), jornalistas (como Samuel Wainer e Assis Chautebriand), escritores (Sergio Porto, Lucio Rangel, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga), colunistas sociais (Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued) e políticos (Getúlio, Café Filho, Juscelino, Jânio, Jango, Carlos Lacerda). São também grupos (como o “Clube dos Cafajestes”) e famílias (como os Guinle).

E são também personagens os sambas-canção (como “Copacabana”, “Ninguém me ama”, “Meu mundo caiu”, “Manhã de carnaval”, “Negue”), e, especialmente, as boates cariocas. Em relação aos sambas-canção, Ruy Castro reconstrói as suas histórias, demonstrando de que maneira antes mesmo de se consolidarem como este nome na segunda metade dos anos 1940 – sendo chamados apenas de “sambas” –, eles já eram produzidos por diferentes compositores, a exemplo de “Ai, ioiô (Linda flor)”, de Henrique Vogele, Luiz Peixoto e Marques Porto, gravado em 1928 por Aracy Cortes; “No rancho fundo”, de Ary Barroso e Lamartine Babo, gravado por Elisa Coelho, em 1931 e o belíssimo “Feitio de Oração”, de Noel Rosa e Vadico, gravado por Francisco Alves e Castro Barbosa, em 1933. Porém, foi no ambiente das boates que os sambas-canção ganharam maior amplitude, atingindo seu apogeu nos anos 1940 e 1950, superando as canções americanas e francesas, assim como os boleros, que até então exerciam domínio sobre o mercado musical brasileiro. Partindo, na maior parte das vezes, de um enredo limitado – “um homem e uma mulher se conhecem e se apaixonam; um deles trai, ou se desapaixona, e vai embora; o outro não se conforma e se consome no desejo da retomada ou da vingança” (p.360) –, o samba-canção seria, de acordo com Castro, a continuação de uma tradição romântica da música brasileira “filho ou sobrinho das modinhas, valsas, serestas, marcha-ranchos”, embora tivesse especificidades próprias, não se confundindo, portanto, nem com o bolero e nem com a bossa-nova. A própria tradição do samba-canção não deve ser encarada, segundo o autor, de forma homogênea e estática. À medida que o tempo ia se passando, mudanças ocorriam. No final dos anos 1950, por exemplo, “as traições escabrosas, o desespero sem redenção e a ânsia de vingança que caracterizavam as letras” até então, como nas canções de Herivelto Martins, passam a ser substituídas por “uma dor amena, mais apta a ser cantada do que verdadeiramente sofrida” (p.358), a exemplo das canções produzidas por Tom Jobim.

No caso das boates, mais do que simples cenários ou ambientes, estas aparecem em A Noite do meu Bem com personalidades próprias. Se boates como Goolden Room, do Copacabana Palace, Night and Day, Casablanca, Monte Carlo, Drink recebem atenção do autor no decorrer do livro, são as boates Vogue e a Sacha’s, que ganham o centro do proscênio de A Noite do meu Bem. A boate Vogue, com seu comandante Max von Stuckart, reina soberana na primeira parte da obra; posteriormente, é substituída em seu domínio pelo Sacha’s, que leva consigo o pianista e o maître da outrora imperatriz da noite carioca. O trágico incêndio que atinge o Vogue é simbólico desta mudança de era. Mudança de era esta, ressalte-se, que é também interpretada por Castro – embora não explore esta ideia como poderia – como uma mudança geracional – nos hábitos, nos costumes, nas roupas – e também política. Com o fim do Vogue, cito Castro: “Um país acabara ali. O Vogue representava esse país. Agora, era a vez do Sacha’s – era como se todos quisessem mudar para um novo país, mais arejado, sob nova administração” (p.279). Outro trecho: “Assim como o Vogue fora Getúlio – esperto, calculista e letal –, o Sacha’s era indiscutivelmente Juscelino: ágil, sedutor, leviano” (p.323).

Da mesma forma, a crise do Sacha’s e de outras boates no início dos anos 1960 representa a emergência de outra era, simbolizada, agora, por outros ambientes para se ouvir a música popular que não mais as boates. A partir deste momento, ganham destaque espaços como o Zicartola, o show Opinião, o show Rosa de Ouro, musicais na televisão, como O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues, os festivais da canção no final dos anos 1960, e a casa de show do Canecão, que, inaugurado em 1967, passa a ser, em grande medida, o ambiente mais simbólico de uma nova época que se iniciava. O próprio disco de Elizeth Cardoso, Canção de Amor Demais, lançado em 1958 – com composições de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que ficou mais conhecido pela faixa “Chega de Saudade”, pelos arranjos de violão de João Gilberto, que influenciou as gerações posteriores da bossa-nova e da MPB – é, como sugere Castro, um marco importante da transição para uma nova época na música popular brasileira, com uma sonoridade renovada, ainda que ancorada na tradição do samba-canção, e com seus respectivos espaços de diversão, entretenimento e sociabilidade. Tudo isso é narrado de forma leve e aparentemente descompromissada por Ruy Castro para o prazer do leitor.

Mas, se a narrativa em tom mais descompromissado é o forte do trabalho, ela também pode ser seu ponto menos positivo. A dimensão mais analítica é muitas vezes secundarizada pela intenção de se contar um “causo” engraçado, de se revelar um pequeno segredo de uma personalidade. Ainda que os diferentes perfis traçados sejam construídos de forma honesta, sem serem exploratórios, mas também serem condescendentes, em alguns momentos o autor escorrega e simplifica determinadas características de certos personagens – a exemplo de João Goulart – à guisa deles se adequarem à narrativa que está sendo contada. Não se está dizendo que o livro seja superficial, nem, tampouco, que não se aprenda sobre os objetos centrais aqui discutidos – samba-canção e boates cariocas dos anos 1940 a 1960 –, lendo-se esta obra. Pelo contrário. Aprende-se. E muito. Porém, muitas vezes o autor poderia ter refinado mais a construção de determinados perfis e aprofundado mais em determinadas discussões, relacionando-as de forma mais abrangente com o contexto político da época abordada e com as transformações sociais que se processavam naquele Brasil que passava, naquela conjuntura específica, por um intenso processo de transformação. Além disso, há que se destacar como ponto negativo o tom de quase lamento de Castro ao final do livro, como se os anos ali narrados de domínio do samba-canção correspondessem a era virtuosa da música popular brasileira, substituída, a partir de meados dos anos 1960, por outra fase de declínio do cancioneiro nacional. Compreende-se, é claro, a identificação do autor com o objeto de pesquisa e a necessidade de se valorizar uma determinada vertente musical, relegada ao segundo plano na historiografia da música brasileira. Porém, a ideia implícita de declínio não faz jus à riqueza da música que veio posteriormente, inclusive incorporando vários elementos da tradição do samba-canção, como bem reconhece o autor.

Estas observações, contudo, são irrelevantes frente à qualidade da obra de Ruy Castro. Aquele leitor que queira aprender sobre o samba-canção, sobre as boates cariocas e sobre a vida cultural de uma parte restrita, porém influente, do país naquela conjuntura específica dos anos 1940 aos 1960, tem neste A Noite do meu Bem um trabalho de fôlego, construído de tal forma que o leitor pode se deleitar com a ótima, suave e divertida prosa de Castro ao som de belos sambas-canção.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

 

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